Quem (ainda) tem medo do marroquino mau?

Fez - Foto de Sérgio Azenha

Há muitos anos, pouco tempo depois de o rei actual tomar posse e quando o país ainda estava sob o efeito dos 38 anos de reinado de Hassan II, uns amigos vieram a Marrocos e, numa situação de avaria do carro onde seguiam, foram socorridos numa zona desértica por berberes. O seu primeiro instinto foi fugir. Mas não havia para onde. Nem como…

Enquanto iam sendo levados para o acampamento dos seus salvadores ponderavam a possibilidade de, em bom português, “estarem tramados”. Mas, em vez de serem espancados e assaltados, foi-lhes oferecida guarida e chá (elas ganharam ainda pinturas nas mãos e pés). No dia seguinte, os marroquinos ajudaram com o carro e despediram-se. Dos meus amigos receberam canetas, pequenos blocos de notas, pulseirinhas de missangas…

Hoje, após 14 anos de reinado de Mohammed VI, que tem vindo a mudar a face do país – alterou vários pontos da lei, tornando-a menos restritiva e, mais importante, incluiu a mulher em fotos oficiais – o primeiro instinto de muitos turistas ao serem abordados por marroquinos continua a ser fugir. Assim que se aterra em Marrocos, a primeira coisa que vem à cabeça de muitos é a insegurança e o extremismo religioso. E até é possível que a mente comece a divagar sobre essa fé islâmica que, desde o 11 de Setembro, se tornou (muito infeliz e injustamente) sinónimo de terrorismo.

[Viajámos precisamente no dia em que se cumpriam 12 anos sobre o atentado e confesso que a coincidência de voar para um país muçulmano neste dia foi comentada.]

A ajudar, os relatos de viagem, quer amadores quer profissionais, ficam sempre mais empolgantes quando se junta algum perigo à “receita”. Dá, assim, qualquer coisa de (ainda) mais “exótico”. E não é de estranhar que quem nunca tenha vindo talvez ainda acredite que por aqui é melhor usar um lenço a tapar a cabeça, que de qualquer esquina ou beco possa surgir um malandro, que todos quantos metem conversa tenham o objectivo de fazer mal.

Por isso, mais que falar do labirinto que é a Medina de Fez, que contar sobre como a emoção pode ficar à flor da pele quando o guia nos fala da importância do papel da mãe neste mundo (lembrando-me não só da minha mãe, como das crias que pediram que levasse “‘camelos’ dos verdadeiros” como recordação; “dromedários”, corrigi), que relatar a forma como consegui regatear (com ajuda, é certo) alguma coisa na vida, ou que tentar decalcar aqui o odor nauseabundo da zona onde se tratam as peles, é importante desmistificar uma questão: as cidades em Marrocos não são lugares inseguros. Naturalmente que há riscos. Nuns sítios mais que noutros, como em qualquer outra parte do mundo. Mas os marroquinos estão mais preocupados em vender do que propriamente em aterrorizar turistas. Ainda assim, nada como definir umas regras:

1.ª Andar descontraidamente. Mostrar medo poderá ser confundido com más intenções.

2.ª Simpatia q.b.. O sorriso é bem recebido, assim como saber algumas palavras em marroquino (ver mais abaixo), mas dar muita conversa a quem nos aborda no meio da rua é muitas vezes sinónimo de chatice.

3.ª Respeitar. Como em qualquer outro lado do mundo, enfiar sem aviso uma câmara fotográfica na cara de alguém não será a melhor forma de conseguir uma boa experiência.

4.ª Aceitar. Não vale a pena ir a certos sítios se o que se espera é encontrar o mesmo a que se está habituado. Aqui, em Marrocos, a condução é louca (mas ainda não vi nenhum carro a passar o sinal vermelho), há ainda mulheres que caminham um passo atrás do homem (embora já se vejam casais lado a lado, de mãos dadas na rua) e muitas que só mostram os olhos. A comida é forte e é essencial trazer na mala os medicamentos certos para a indisposição, tanto do estômago como do intestino. O chá é servido ultradoce e a ferver. E, no meio de nenhures, há sempre alguém que aparece do nada.

5.ª Contenção. O facto de se poder andar à vontade não significa andar à vontadinha (expressão roubada a uma das jornalistas que viaja no grupo – obrigada Sónia). As notas são para andar no bolso e não na mão. E se a ideia for conseguir comprar um qualquer objecto por 20 dirham o ideal é ter o dinheiro certo. É que exibir riqueza ou criar situações de exibicionismo pode gerar problemas. E à noite, como em todo o lado, andar por ruas escuras e desertas não é uma boa ideia.

6.ª Orientação. As medinas, i.e. as zonas mais antigas das cidades onde também se encontram os souk (mercados), podem revelar-se labirínticas. Sobretudo Fez. Por isso nada como seguir o esquema dos labirintos: virar sempre na mesma direcção e regressar virando na direcção oposta. E aquele solitário que se viu sentado a um canto ou encostado numa ruela que se chegou a temer é muitas vezes um “segurança” doméstico.

7.ª Olhar para lá das aparências. A ideia de coitadinhos é a mais errada que se pode ter – sobretudo numa cidade – e o melhor é não nos deixarmos levar pelas aparências. Como dizia o guia em Fez: “Por fora as nossas casas parecem uma merda; por dentro, são ouro”. Por fim, quando alguém vende um colar por 15 dirham, mesmo que tenha começado a pedir 100, está sempre, sempre a ganhar dinheiro. Caso contrário, não vende.

 

Minidicionário (as palavras estão escritas como se pronunciam, e algumas menos bem, e não como se escrevem)

Olá: marábane
Se faz favor: mine fadelique
Obrigado/obrigada: chukrã
Perdão: ana anssife para homem e ana anssifa para mulher
A paz esteja consigo (cumprimento formal): salamalécume [resposta: alécumesalam]
Sim: éua
Não:

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Carla B. Ribeiro (texto) e Sérgio Azenha (fotos) viajam a convite do Turismo de Marrocos

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