Parti um dente e afinal adoro Amã

Não gostei do Porto à primeira. De Amã também não. Odiei o hotel e isso não ajudou. Encurtei a estadia o mais que pude, mas não dava para fugir sem olhar para trás. Amã era a base, o hub, daqui para o Líbano, daqui para Israel e a Palestina, daqui para Istambul e depois casa. O hub não podia com a competição e isso não ajudou. De regresso a Amã, uma vez mais com a cabeça noutras cidades e a querer encurtar ao indispensável a permanência antes mesmo de aterrar, hesitei. Por algum motivo, decidi repetir os mesmos passos e aqui estou, de regresso ao hotel deprimente com o mesmo aquário deprimente na recepção e muitas beatas (espero que não as mesmas) muito deprimentes na minha varanda suja. Pior: cheguei de madrugada e tive de acordar o miúdo do turno da noite e isso não foi fácil. Pior: nem uma gota de água saía de nenhuma das torneiras da casa de banho à minha chegada. Pior: continua a ser barato, mas o barato mudou e agora estou sozinha e quartos individuais já se sabe, é como a diferença de um T1 para um T2.

Quatro anos depois, ainda me faz confusão a organização impecável à chegada ao aeroporto, imperdoável para uma capital árabe. Ainda me faz confusão que o rei fale melhor inglês do que árabe. Que tanta gente fale inglês. Que os sírios não sejam lá muito bem tratados à chegada (como aconteceu antes com palestinianos e iraquianos). Mas hoje decidi que adoro Amã. Foi fácil. Bastou descontrair e deixar que a simpatia e o caos do trânsito e a algazarra de um restaurante (chegar lá envolveu subir até um hotel, descer até um café, atravessá-lo e subir de novo para um andar falso) me contagiassem. Afinal, em Amã também se canta e se dança na rua enquanto se ri, também se atravessa no vermelho, também se fumam cigarros e shisha enquanto se come, também se bebe enquanto se fala sem parar, também se gesticula enquanto se fuma e se come e se bebe. Também se conduz com as janelas abertas e a canção de amor mais pirosa aos berros no leitor do carro. Como é que podia ser diferente?

A descomplicação é uma das características a que nunca resisto e uma das que me faz pensar que não somos necessariamente o local onde nascemos. Perco-me por cidades porque me perco por pessoas. Perco-me mais por cidades com muitas pessoas, onde as regras aparentam não existir e é mesmo por isso que tudo funciona na perfeição (pelo menos para mim). É bizarro ver polícias a atirarem-nos pedras no Cairo? É extraordinário entrar numa terra qualquer no meio do Iraque ou da Tunísia, perguntar pela casa de alguém e de repente deixar entrar quem sabe o caminho no nosso carro e acabar a jantar e a dormir com a sua família? Apanhar um autocarro no Iémen e saber que mesmo sem levar farnel não faltará comida nem cigarros? Saber que em Raqqa, na Síria, se eu quiser mesmo jantar num determinado pátio de um restaurante isso vai ser possível mesmo que o dito esteja encerrado há anos? Mais: que um manjar vai surgir em pouco tempo diante de mim, cada coisa trazida de onde é mais bem confeccionada, a mesa posta como se isso acontecesse todos os dias, a todas as horas. Mudar um senhor de barbas mais os seus 9 pratos de mezze, garrafas várias (raki, água mais balde de gelo), shisha, cinzeiro e talheres de mesa em 30 segundos para poder acomodar mais quatro comensais, entre risos e sorrisos, pancadinhas nas costas e piadas fáceis… Haverá algo mais útil? Algo que faça mais sentido?

Comi hummus e fattush, devia ter pedido tabuleh. O khobz era dos crocantes e parti um bocado de um dente enquanto enfiava um pedaço com hummus pela boca. Se fosse com a fattush ainda se entendia, mas com hummus no pão? Haverá coisa mais inofensiva? Não estou arrependida, a fattush estava perfeita, com pedacinhos de lima e tanto, tanto pepino; o khobz estava quente e o hummus denso e saboroso. A Amsteel deve ter feito as vezes da anestesia e o riso matou a dor. À porta do hotel que atravessei para chegar ao restaurante estava um cartaz com a imagem de um dente: Dr. Teeth, always available. Acho que não vou arriscar, logo agora que isto começa a ficar divertido.

Agora, vou ter de comer com cuidado, talvez me fique pelas falafel e pelo hummus sem pão. Arriscar uma tabuleh também é possível. É meio dente, ficou pendurado, abana como se tivesse outra vez seis anos. Dói, mas tão pouco. Se tiver cuidado talvez não caia. Se cair acho que vou beber raki.

Chegar ao quarto e não poder tomar banho depois de 17 horas em aeroportos e aviões. Deitar-me às 5h e não conseguir dormir por causa do muezzin. Partir um dente e desatar a rir. Não gostei de Amã à primeira só porque era parva, ou pelo menos fui, naqueles dias de Verão. Não gostei do Porto à primeira porque era parva, ou demasiado convencida do meu benfiquismo e do meu vegetarianismo para me deixar conquistar por tantos “oh, menina” e deleitar com francesinhas que empanturram e rir porque ainda quero com ovo e com batatas. Adorei à segunda e à terceira e ainda mais à décima. Onde é que eu ia mesmo a seguir a Amã?

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Sofia Lorena em Amã, Jordânia (foto: Muhammad Hamed/Reuters)

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