Em Marrocos, puxa-se um fio e enovela-se logo um souk

Medina de Tãnger

Fotografia de Sérgio Azenha

O ano escolar acaba de arrancar em Marrocos e um pouco por toda a Tânger vamos cruzando-nos com muitas crianças de mochilas às costas. Mas, no topo de umas escadinhas, numa das muitas entradas para a Medina, é impossível não reparar em dois rapazes que, escada acima, escada abaixo, vão enrolando fios.

“Estão na brincadeira e talvez tenham perdido o papagaio.” É a primeira coisa que me vem à cabeça ao ver um menino dos seus dez anos a subir o degrau ao mesmo tempo que enrola um fio vermelho vivo à volta de um cartucho que, ao longe, parece de papel. Talvez assim o fosse noutro sítio qualquer. Mas, aqui, diz-nos Abdelmo, um guia tangerino que se prontifica a comunicar em “portunhol”, é a “rua dos alfaiates”. E depressa se compreende que aquilo que parece uma brincadeira incessante não é mais que a tarefa de fiar (uma pequena máquina faz o trabalho; aos rapazes cabe andar atrás do fio) e enrolar linhas que depressa serão transformadas em vistosas echarpes ou em coloridos tapetes.

Fotografia de Sérgio Azenha

Fotografia de Sérgio Azenha

Olhe-se para onde se olhar, o cenário é semelhante. Homens de agulha e dedal, confinados a pequeníssimos espaços que, de porta aberta, revelam, ponto a ponto, os segredos das suas costuras. Sorridentes, deixam-se fotografar, mas, embora os olhos se desviem do trabalho, as mãos permanecem incessantes, como que enfeitiçadas.

Mais à frente, Abdelmo convida-nos a entrar numa loja de têxteis onde, segundo ele, se encontram os únicos teares da medina. Lado a lado, dois homens vão tecendo panos coloridos como se estivessem hipnotizados: os seus pés, sob o tear de pente liço em madeira, movem-se em simultâneo, pisando duas velhas tábuas alternadamente; as suas mãos, que agarram as navetes, vão trocando os fios, finíssimos, e alinhando-os uns contra os outros.

Fotografia de Sérgio Azenha

Fotografia de Sérgio Azenha

Em conjunto, parecem executar uma dança. E os sons que provêm do bater nas tábuas depressa se transformam numa composição melódica. Menos sisudos apresentam-se os funcionários da loja onde se pode observar o trabalho em tear. Tentam o francês, o espanhol e, com algum esforço (mas também mérito), acabam por até conseguir dizer algumas palavras em português. Entre uma convicta boa-disposição, convidam-nos a tocar nos tecidos. Até naquele que um deles tem à volta do pescoço, em tons de azul-safira. “É feito de pele de camelo”, diz-nos o comerciante. “Macio, não é? Podem tocar, não precisam comprar”, asseguram. Suave, executado de forma artesanal e, claro, entre os mais caros: 20€ que, “só por serem de Portugal”, depressa se converteram em 15 e logo a seguir em 10 – promoção aproveitada por alguns companheiros de viagem.

Compras feitas, seguimos caminho pelas ruas estreitinhas da famosa Medina de Tânger para nos cruzarmos ora com bancas de peixe (sempre muito frequentadas por gatos), ora com lojas cheias de quinquilharia, ora com vendedores que nos tentam impingir pulseiras, carteiras, relógios… Depressa se dá conta de que há ruelas para encontrar produtos alimentares frescos, outras para comprar sapatos e malas e outras ainda onde será mais fácil encontrar os tradicionais djellaba marroquinos ou os belíssimos trabalhos de ourivesaria. Isto é, o souk até pode parecer confuso, mas o que sobressai, no fim, é a organização no caos.

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A Fugas viaja a convite do Turismo de Marrocos

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