Se a TAP não se atrasasse e a Lufthansa não me fechasse a porta…

… talvez agora pudesse estar a escrever qualquer coisa sobre Bucareste e sobre o início do Festival Internacional George Enescu, o maior festival de música clássica da Roménia e um dos mais importantes da Europa. Mas não, em vez disso, tudo o que tenho para contar é uma trapalhada de acontecimentos.

Sempre achei que exageravam aquelas pessoas que dizem que há dias em que mais vale não sair da cama ou que quando alguma coisa corre mal, corre mesmo tudo mal. Nos filmes, isso farta-se de acontecer ma,s quer dizer, na vida real, a nossa, há sempre qualquer coisa que corre bem ou pelo menos dentro da normalidade, não? Pensava eu. Até ontem.

Ter de acordar às seis e pouco da manhã para estar no aeroporto uma hora depois já é uma premissa mais do que suficiente para o dia não começar bem, ou pelo menos para andar rabugenta um bom bocado. Mas acordar às seis e pouco da manhã, chegar ao aeroporto e ser apanhada pela confusão de fim de Agosto (mais pessoas do que seria desejável também acordaram bem cedo), tomar o pequeno-almoço numa barulheira descontrolada (mas lembraram-se todos de viajar sábado de manhã?) e esperar, mais do que devia, pelo embarque, estraga o dia, ou o começo de dia, a qualquer pessoa.

Muitas vezes pensei que isto dos aviões chegarem de qualquer lado cheios de pessoas para partirem logo depois para outro, fazia com que os voos se atrasassem. Mas nem quis pensar nisso. “Lá estás tu”, pensei eu, ao mesmo tempo que um trabalhador da Groundforce aparece junto das simpáticas empregadas da TAP e diz baixinho: “Suspendam o embarque”.

Claro que já passavam uns bons minutos da hora do embarque e daí até sermos avisados que de facto havia um atraso passaram outros tantos. Até que finalmente nos informam que “problemas técnicos” estão na origem do atraso. Não tardaram as perguntas, principalmente de pessoas que, como eu, tinham em Frankfurt um voo de ligação. Como se não bastassem os “problemas técnicos” capazes de assustar qualquer pessoa, temos mais um avião para apanhar. Mas sobre isso, disseram-nos para não nos preocuparmos que no aeroporto alemão alguém estaria à nossa espera para nos ajudar. Sobre se perderíamos as ligações, só depois de levantar voo perceberiam. Depois de levantar voo até eu percebo isso, basta fazer as contas.

E pelas minhas contas, ter partido mais de uma hora depois da hora prevista ainda não impossibilitava que embarcasse no voo da Lufthansa para Bucareste. Pensava eu, mais uma vez, claro! Foi aliás a pensar nisso que assim que o avião aterrou me levantei muito depressa, tendo conseguindo mesmo ser das primeiras a sair. Esqueci-me, claro, que o aeroporto de Frankfurt é grande demais.

Tinha apenas quinze minutos para correr do terminal A para o B. E, qual Usain Bolt, demorei dez a percorrer o percurso que mais parecia uma competição de barreiras, por entre passadeiras rolantes, elevadores e pessoas com malas. Faltavam então cinco minutos para o meu avião levantar voo. Por segundos ainda cheguei a acreditar que tinha conseguido até as senhoras da Lufthansa me negarem o acesso. “Mas foi mesmo rápida, ainda devem estar pessoas a sair do avião que chegou de Lisboa”, diz-me uma. “E o que é que isso adianta?”, pergunto muito chateada sem forças para dizer mais, levando um mero “nada” como resposta.

Sou então informada de que a TAP teve a gentileza de me reservar um lugar no próximo voo que, para minha infelicidade, seria apenas às 20h40. Tendo em conta que às 19h em Bucareste deveria estar a assistir à conferência de imprensa de apresentação do festival com o maestro Daniel Barenboim, a coisa não podia ter corrido pior. Afinal o propósito da viagem neste dia já não entrava na minha agenda. Mas sim, a coisa podia ter corrido pior, claro.

Entre telefonemas com a organização do festival, que estaria à minha espera, e contactos com o jornal, para avisar o que se estava a passar, passo num daqueles controlos de passageiros em que temos de mostrar os documentos. Entrego o meu cartão de cidadão ao guarda nada simpático que, por entretanto ter atendido o telemóvel, me negava dar o documento de volta. “Se estivesse no seu país já tinha levado”, disse-me, mudando depressa o inglês para um alemão que a avaliar pelo tom só podia ser insultuoso. Consegui apenas responder-lhe com um “obrigada”, em português.

Depois disso foram cinco horas e mais uns minutos ali no aeroporto, que à semelhança do que acontece em muitos, apenas nos oferece meia hora de internet grátis. Quem quer mais que pague. Outra coisa que nunca percebi. Quando há cidades onde já existe Internet grátis nas ruas, quando qualquer café ou restaurante tem wi-fi, porque é que é diferente nos aeroportos?

Depois de ler tudo o que tinha para ler, beber uma caneca de café por 3,80€ e passear pelas lojas que, percebi, ao longo dos corredores e dos terminais se vão repetindo, lá consegui finalmente embarcar. Eu e mais uns 30 asiáticos, que mal chegaram ao avião se sentaram aleatoriamente, o que provocou, imagine-se, um ligeiro atraso no voo. E quando eu pensava que já estava instalada, feliz por não terem ocupado o meu lugar, eis que a hospedeira me pede para mudar de lugar porque nas filas de emergência é preciso falar inglês e quem lá estava – alguns dos aleatórios-, não possuía esse dom.

Nada contra mas nunca me lembrando que no fim, quando chegasse, não teria a mala comigo, que ficou por cima do lugar inicial, bem atrás de onde estava. Ou seja, fui praticamente a última a abandonar o avião, uma vez que tive de esperar que todos saíssem para poder chegar atrás.

Para terminar, desencontrei-me do motorista que esperava por mim no aeroporto no lado oposto a todos os que estavam com os típicos papéis com os nomes de quem esperam. Para melhorar, o senhor, que até era bem simpático, apenas falava romeno. Nunca em vinte minutos, o tempo de chegar ao hotel, disse tantas vezes “ah” e “ok”. É que o senhor não parava de falar comigo, só não lhe ocorria que eu não percebia uma palavra.

De Bucareste não posso, por isso, escrever nada, para já.

3 comentários a Se a TAP não se atrasasse e a Lufthansa não me fechasse a porta…

  1. Realmente, há dias assim. Eu “gosto” quando o dia me começa a correr mal – mas mesmo muito mal! É que, depois, dificilmente as coisas pioram… é sempre em crescendo. Acabamos o dia realizados. Só é preciso sorrir e piscar o olho às dificuldades.

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