Corrico para elas (mas quem conduz são, quase sempre, eles)

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Este fim-de-semana pertence às mulheres de Vila do Porto. “É nosso, é a nossa vez”, dizia-nos Isabel Andrade, enquanto ouvia atentamente as regras ditadas pela organização, o Clube Naval de Santa Maria, durante o briefing de sexta-feira. Isabel nunca falhou um corrico feminino – o outro corrico é para todos, este é só para elas. Embora não tenha por hábito sair para a pesca, neste fim-de-semana aproveita para apurar a técnica, que – pelo menos para jornalistas leigos no assunto – tem muito que se lhe diga.

O corrico consiste numa pescaria lenta, feita à linha (neste caso há uma linha para cada mulher, num máximo de três), na popa do barco. Na ponta da linha põe-se a corrica, uma espécie de isco em forma de peixe, feito em materiais como metal ou plástico. Leva ainda um anzol e uma placa que faz atrito na água. É isso que chama os peixes predadores, que são atraídos pelo rasto deixado na água. A corrica é lançada de modo a ficar a 20 a 30 metros do barco, e este tem de seguir devagar. Enquanto o peixe pica e não pica, há tempo para tudo – beber umas cervejas, comer uns aperitivos, ou dar música aos peixes tocando uns acordes.

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A acompanhar as pescadoras no barco, segue o skipper, que na maioria das vezes é um homem (salvo raras excepções). O condutor é a peça-chave. O sucesso da pescaria depende da sua capacidade de levar o barco à velocidade ideal. Mas para tudo correr bem no mar, metade é técnica e a outra metade é sorte. Os barcos saem para pescar às 17h e podem regressar até às 23h. Faz sentido: é à noite que os peixes predadores, maiores, saem para caçar. Mas nem todos contam para o concurso. Apanhar um peixe-porco, por exemplo, pode compensar no prato (os concorrentes levam o peixe para comer em casa) mas não no da balança, onde o resultado da pescaria é pesado ao final da noite. A lista de peixes que contam para o concurso foi decidida no primeiro briefing: bicudas, anchovas, peixe-serra, enxeréus e tunídeos.

#NEG_ACORES_S_MARIA_040813_1450O sonho de qualquer pescador de corrico é apanhar um atum, de preferência um grande atum. O recorde pertence a um exemplar de 92 quilos, apanhado há uns anos no corrico que é mais para os homens. Mas nos recipientes de plástico que cada barco levou ontem para colocar o peixe, quase todos trouxeram bicudas, como já é habitual. Ao final de noite de sábado, as embarcações que foram chegando ao ponto de entrega do peixe traziam caras pouco animadas. A pesca foi fraca para quase todos os 18 barcos participantes. O de Isabel Andrade, baptizado de Kosmos, trazia duas bicudas, pouco mais que dois quilos de peixe. “Amanhã [hoje] há mais”, dizia-nos, resignada.

O problema é que o mar trocou as voltas. O vento aumentou durante a tarde de hoje e as grandes vagas prometiam uma pescaria difícil. Depois de uma votação pouco unânime, a organização decidiu cancelar a segunda prova por questões de segurança. Os resultados finais são, assim, os de ontem à noite. Sorte têm as concorrentes do barco Swordfish, onde seguia Sandra Tavares. Foi ela que apanhou o melhor peixe deste corrico: uma anchova com quase oito quilos. Não é um atum, mas serve.

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Marisa Soa­res (texto) e Nel­son Gar­rido (fotos) visi­tam Santa Maria a con­vite do Clube Naval de Santa Maria

 

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