Aonde é que pára a tripulação?

Era para sair às 9h15. Mas a essa hora os passageiros ainda se amontoavam aos magotes na escada de acesso aos autocarros. Por fim, abre-se a porta para a rua e duas a duas (às vezes três a três) as pessoas, que até há uns minutos atrás esperavam bem acomodadas numa das salas de embarque do Aeroporto da Portela, lá vão arranjando espaço num dos dois veículos disponíveis e alinhados em carreiro.

Todos a bordo, as viaturas mantêm-se imóveis e os seus condutores vão passeando na rua de um lado para o outro. Com um bónus: o autocarro da frente, onde sigo, não tem ar condicionado.

Serão 9h30 e os termómetros alfacinhas já andarão perto dos 30ºC; no interior do autocarro a temperatura já deve namorar os 40ºC – ou assim me parece depois da corrida para não perder o voo. Os ares impacientes multiplicam-se. Algumas crianças começam a reclamar. Há choros e guinchos com os quais me identifico. E não há maneira de se sair do lugar.

Vamos abandonando o autocarro um a um, com a sensação de se sair de um forno. “Não arranca?”, pergunto ao condutor da Groundforce que não tira os olhos de um aparelhómetro que segura na mão. “Não posso…”, desculpa-se enquanto nos encaminha para a abafada sala onde terminam as escadas de acesso ao autocarro e de onde acabáramos de sair. Subir para a sala de embarque está fora de questão, claro. Mas… “E não podemos ficar aqui [na rua]? Sempre passa um arzinho…”, proponho já  com um toque de súplica. “Não, não… É proibido!”

Não consigo imaginar o perigo de alguém se posicionar nos 80cm de rua (será tanto?) que vão do autocarro à porta. Mas a tortura vivida no interior do autocarro já me tirou a força para reclamar.

“Mas o que se passa?”, pergunto, estranhando a demora da partida.

“Estamos à espera da tripulação.”

A afirmação dá de imediato azo a comentários e a graçolas. “Da tripulação? Mas perderam o autocarro? Demoraram mais tempo a vestir-se esta manhã?”

O autocarro da frente vai ficando cada vez mais vazio, enquanto o autocarro de trás mantém as portas fechadas, dando uso a um abençoado (e invejado, confesso) ar condicionado. Vou-me mantendo perto da porta da salinha abafada onde ainda consigo sentir um vento muito levezinho, antes de voltar ao autocarro, agora já com cerca de metade dos passageiros.

Até que, por fim, chega a ordem de marcha.

Mas claro que não podia ser fácil: o nosso avião devia estar do outro lado do aeroporto, tendo em conta o caminho percorrido até lá chegar. É então que, num canto do aparelho, a presença de uma equipa de limpeza denuncia que talvez não tivesse sido culpa da tripulação.

Já lá dentro temos a confirmação. Não de que a informação de termos estado à espera da tripulação fosse falsa. Mas a de que alguém se esqueceu do detalhe de que esta chegaria no próprio avião.

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