Nunca mais viajo nestas condições

2-1. Eu sabia que vir para Amesterdão em dia de final da taça não era boa ideia. Sobretudo deixando em Lisboa uma família vimaranense que aproveitou o domingo para o turismo do Jamor e deve agora – imagino – estar a voltar à base num autocarro em festa alvinegra.

O efeito borboleta causou-me criativos transtornos em miúdo. Quando soube que um bater de asas numa serra portuguesa poderia alterar drástica e fatalmente um acontecimento no sudeste asiático – e, enfim, o curso da História –, a primeira coisa que me ocorreu fazer foi assegurar-me de que as minhas acções diárias se encontravam na trajectória vitoriosa do Benfica. O que muitas vezes significava um comportamento de escuteiro, para evitar castigos divinos no relvado.

A estratégia correu muitas vezes mal (eram os anos 1990). Não sei, por exemplo, o que poderei ter feito para contribuir negativamente para aquela finta de peito do Jardel com o Preud’homme a ver a bola passar. Por isso, a certa altura (eram os anos 1990…), decidi que o que importava eram as vitórias: toda a gente sabe que é às coisas boas que temos de nos agarrar. Sem resultado que se visse (títulos).

Com os anos, fui assumindo o diminuto relevo do meu contributo para o sucesso encarnado, até atingir o zero teórico. O que nunca impediu, é claro, que me mantivesse alerta. Tal como a Ciência, prezo muito a possibilidade de pôr à prova, continuamente, as teses que me constituem. Além do mais, existe uma certa probabilidade de eu desempenhar um papel central no Universo…

Vamos aos factos. Há semana e meia, o Benfica perdeu aqui, em Amesterdão, a final da Liga Europa, pelo mesmo resultado com que deixou escapar o campeonato no Dragão dias antes: 2-1. Se as francesinhas tinham sido uma ementa mal escolhida para acompanhar o jogo com o FC Porto – apesar de, até prova em contrário, serem as melhores de Lisboa –, o arroz de feijão com pataniscas oferecia mais tranquilidade para a disputa europeia. Pelo menos até o companheiro-adversário com quem tinha visto o clássico se juntar à mesa, no salão nobre d’A Voz do Operário, e o Chelsea começar a ir para cima do Benfica.

Hoje, as primeiras palavras que li em neerlandês, à chegada ao aeroporto de Schiphol, estavam num painel que publicitava a final da Liga Europa. Faltava uma hora e meia para o início do jogo no Jamor. Meti-me no comboio em direcção a Amesterdão, apreensivo, mas consegui libertar-me o suficiente para apreciar a viagem e cheguei mesmo a escrevinhar uns elogios à paisagem no caderno. Saí na Centraal Station e pus os pés ao caminho até à Praça Dam. Quando cheguei ao hotel, a vitória estava em andamento: 1-0, Gaitán.

A ganhar no Jamor e com umas horas de viagem no bucho, achei que seria boa altura para aproveitar a confortável cama à minha disposição e descansar uns minutos. Larguei o telemóvel e com ele o Benfica. Em má altura. Quando lhe voltei a pegar, 1-1. Quando actualizei o feed no Twitter para tentar perceber o que tinha acontecido, 1-2. E estava feito o tríptico 2012/13.

Descansei demasiado cedo. Eis a minha lição. Apesar dos apelos à razão, toda a gente sabe que isto anda tudo ligado. Já o escreveu Eduardo Guerra Carneiro, já o cantou Sérgio Godinho e já o disse Octávio Machado… quem somos nós para duvidar?

O certo é que nunca mais voltarei a Amesterdão num domingo de final de taça com o Benfica a jogar, depois ter perdido o campeonato na penúltima jornada frente ao FC Porto e a Liga Europa nos descontos, sobretudo com família adepta da equipa adversária de visita a Lisboa. Nunca mais. Podem assentar.

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