Aos domingos, em Taforalt

Taforalt fica no coração dos montes de Beni Snassen, no nordeste de Marrocos e a uma hora de carro da costa de Saidia. Aos domingos, as famílias da zona de Berkane rumam às encostas montanhosas, param numa tenda de pasto ou num restaurante na aldeia para almoçar cabra ou borrego, consoante as posses. Guisado ou grelhado. O chefe de família escolhe a peça do animal – pendurada ao ar livre ou protegida por uma vidraça – que quer para o almoço e o ar enche-se de fumo.

A berma da estrada enche-se de carros e carrinhas com muito uso e nasce um mercado acotovelado ao longo de um barranco magro que percorre a estrada. Quando o movimento da hora de almoço atinge o seu máximo, o fumo dos grelhados e a poeira da estrada misturam-se.

O mercado de montanha não exala especiarias, mas o travo fresco dos legumes e da fruta misturado com frutos secos, muitas ervas aromáticas, farinhas e semolinas, unguentos, pinturas ênê, garrafas de mel e garrafões de gasóleo, árvores de plantar, caracoletas. E tem uma fonte de água a correr, com muitos garrafões vazios a marcar lugar para que alguém os encha.

Para lá do mercado, há um parque de merendas repleto de famílias e de carros estacionados. Os tambores e uma flauta tocam ali mesmo ao lado. São danças tradicionais e uma roda de gente a assistir. Os piqueniques de família continuam pela encosta acima, às centenas.

À tarde, muitos vão até à Gruta do Camelo, no cimo do monte. Vão sobretudo jovens em pequenos grupos, mais eles do que elas. Alguns saltam para a água da pequena cascata à entrada da gruta, que está fechada, por questões de segurança, dizem. O sol ainda brilha mas já não aquece e os banhistas tremem de frio. A volta acaba, é hora de descer.

Alguns jovens resistem. Há um carro de portas abertas e quatro cirandam à volta dele, ainda comem e divertem-se. O rádio toca alto, para eles e para quem passa. “Ela agarrou no visto [de emigração], fugiu e não quer saber de mim”, entoam umas vozes masculinas de uma melodia tradicional.

Ela fugiu, mas eles não saem dali. Os vendedores de nêsperas também não, apesar da tarde cair. Continuam sentados à beira da estrada, com baldes e caixas cheios à procura de comprador. Por esta altura do ano, as nespereiras dos montes Beni Snassen estão carregadas de fruto maduro e doce. São os domingos mornos de Maio, em Taforalt.

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Lurdes Ferreira (texto) e Rui Gaudêncio (fotos) viajam a convite do Turismo de Marrocos

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