Angkor, os deuses abriram-nos as portas de casa

Angkor Wat

Sete da manhã, um calor que não se aguenta, e já estamos nós em cima de um tuk tuk em busca de um império perdido. Siem Reap já acordou há muito para a vida – e a esta hora todos os caminhos vão dar ao mesmo lugar: Angkor, a capital do antigo império khmer do Camboja. É a Angkor que vão os turistas de visita ao país – como se Angkor fosse o Camboja e o resto paisagem.

A um ritmo barulhento e compassado vão-se desbravando os quilómetros (aí uns 10) que separam Siem Reap daquele que é uma das grandes estrelas de Angkor, mas lá chegaremos. Por enquanto, desfrutamos do frescor relativo que dão as árvores que ladeiam a estrada, pejada de tuk tuks como o nosso, e espreitamos as (poucas) casas que aparecem, aqui e ali, ao longo do caminho. Algumas placas indicam orfanatos – e lembramo-nos do folheto que víramos no aeroporto, apelando a que as visitas a instituições de apoio às crianças cambojanas não se transformem num pacote turístico.

Em poucos minutos temos a visão de Angkor Wat, um dos principais templos de Angkor, e o cenário parece-nos quase irreal. Ou então o contrário: à força de já termos visto esta imagem vezes sem conta, parece-nos que já conhecemos todos os cantos à casa. Não é verdade, naturalmente.

Enquanto percorremos o longo corredor de acesso ao templo, quase sentimos um arrepio na espinha: a grandeza de Angkor Wat, construído no século XII e muitas vezes descrito como a maior estrutura religiosa do mundo, é esmagadora. Inicialmente devotado ao deus hindu Vishnu, Angkor Wat foi entretanto reconvertido para o culto budista, o que também explica a mistura de estilos arquitectónicos que aqui encontramos. Observar atentamente as figuras esculpidas na pedra, com destaque para as mais de 3000 “apsaras” (ninfas celestiais), pode ser uma tarefa demorada, mas Angkor Wat é um lugar para se descobrir com calma.

A manhã vai subindo – e com ela o calor. Precisamos de procurar refúgio noutro lugar e o templo de Ta Prohm é o lugar ideal. Está mais protegido pela floresta que, anos a fio, ocultou os templos de Angkor do resto do mundo – só no século XIX, nos anos de 1860, exploradores franceses relataram a descoberta dos templos perdidos.

Das centenas de templos de Angkor, o de Ta Prohm, cuja construção começou em 1186, é, sem dúvida, um dos mais icónicos. Há toda uma atmosfera inexplicável neste conjunto de ruínas: assim que se entra, todos procuram os recantos onde as raízes de árvores centenárias descaem pedra abaixo. Conseguir um ângulo para fotografar o templo é complicado, dadas as centenas de turistas que se acotovelam para ficar no retrato. Percebe-se: quem não quer imortalizar momentos destes?

 

Ainda assim, pela parte que nos toca, preferimos não esquecer nunca o jantar que tivemos no templo de Bayon, outro dos pesos-pesados do complexo de templos de Angkor. Bayon, erguido também no século XII, é o templo das enormes caras de pedra – sim, aquelas que exibem um sorriso tipo Mona Lisa.

O nosso sorriso é diferente: mais aberto e genuíno. Sentimo-nos privilegiados por estarmos aqui, agora: por momentos, parece-nos que os deuses nos abriram a porta de casa.

 

 

2 comentários a Angkor, os deuses abriram-nos as portas de casa

  1. Angkor tem magia, sente-se que as portas se abriram para nos espantar, para nos reduzir à nossa insignificância perante a grandiosidade da obra feita pelo homem e completada pela natureza. Angkor nunca mais sai da nossa memória. O registo é indelével.
    Obrigada pelo relato que me fez transpor as portas que os Deuses abriram.

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  2. Em vez de visitar os orfanatos, aproveite e vá doar sangue ao Hospital das crianças que fica à Saída de Siem Reap. Centenas morrem por falta dele..

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