Roménia, ainda zangada mas a tentar capitalizar o legado comunista

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Quase 24 anos depois da queda do regime comunista, a Roménia continua a lamber as feridas abertas pelo governo imposto durante décadas por Nicolae Ceausescu. Mas é, ao mesmo tempo, por via do legado deixado pelo ditador comunista que procura carimbar o seu passaporte para o Ocidente. Assim, ninguém se espante que na Praça da Revolução (onde o ditador foi fuzilado em 1989, juntamente com a mulher, Elena) se erga agora um monumento em que o jugo comunista surge representado por algo semelhante a uma pedra escura que escorre sangue sobre um obelisco branco que a trespassa. “É a batata e o bife. O comunismo é a batata, claro”, galhofa o guia, Andrei.

Com 24 anos de idade, tantos quantos passaram sobre a queda do regime comunista, Andrei faz questão de vincar o desprezo que os romenos sentem pelo ex-líder comunista. Agora, com a distância que o tempo já permite, entremeado com algumas piadas. “Estas escadas têm uns degraus tão baixos porque Ceausescu, que só media um metro e sessenta e oito, não queria nada que lhe atrapalhasse o andar”, zomba outro guia turístico que conduz os olhares estrangeiros pelo palácio que o antigo ditador mandou construir ao longo de cinco anos, com a ajuda (forçada) de cerca de 100 mil trabalhadores.  Com 66 mil metros quadrados de implantação, é o segundo maior edifício do mundo, logo a seguir ao Pentágono.

Bucareste - Foto de Paulo PimentaTudo nele é hiperbólico. Para o construir – e às avenidas que o rodeiam –  Ceausescu mandou destruir 45 mil casas, 21 igrejas e um estádio. O edifico tem 12 pisos acima do solo e mais oito no subsolo. Mais de dois mil candeeiros, 49 elevadores, inúmeras tapeçarias, lustres e tectos cravejados a ouro. “Para Ceausescu eram todos iguais, mas ele era mais igual do que os outros”, insiste Andrei, sem aparentemente reparar no paradoxo que é ele estar a tentar convencer os estrangeiros de que a Roménia já nada deve aos seus parceiros da União Europeia, contudo sem ser capaz de desviar o olhar daquilo que, durante anos, a distinguiu.

“Olhem para estes horríveis prédios cinzentos. Foi o que o comunismo nos deixou”, aponta ainda.  “As vivendas foram confiscadas aos aristocratas para os homens do regime poderem instalar-se nelas”. E ao lado das vivendas, mais prédios cinzentos e alguns edifícios sumptuosos que cruzam influências arquitectónicas. A francesa é das mais marcantes e não é por acaso que Bucareste chegou a ser apelidada de “pequena Paris do Leste”. Mas o que resta disso hoje são resquícios:  uma boa parte do que havia ou foi destruída pelos bombardeamentos dos aliados na II Guerra Mundial ou pelo regime comunista.

Hoje, a Roménia divide-se entre as revisitações a um passado marcado por diversíssimas influências – é o único país balcânico que fala uma língua derivada do latim – e um presente composto por salários baixos, desemprego alto e uma “total ausência” de classe média, ainda a acreditar em Andrei. Só na capital, conglomeram-se para cima de dois milhões de habitantes. Pelas ruas, de trânsito caótico, sucedem-se as grandes multinacionais do costume.  “Na Roménia as pessoas recebem um Lexus quando fazem 20 anos”, ironiza o guia.

Bucareste - Foto de Paulo PimentaEfectivamente, no centro histórico, a boémia espalhada pelas esplanadas porta-sim porta-sim pouco deve na aparência às restantes capitais da Europa.  Contudo, provavelmente por causa do que explica Andrei, continua a ser para as congéneres europeias que todos os anos milhares de romenos continuam a querer emigrar. A tal ponto que o Reino Unido anunciou a intenção de avançar com uma campanha que procura pôr travão à entrada de mais romenos (e dos vizinhos búlgaros).  A ideia era bombardear os romenos candidatos a emigrantes com “lembretes” do género: “No Reino Unido chove imenso” ou “O lixo transborda dos contentores e os jovens abusam do álcool”.  Os romenos responderam com ironia e humor. “Nós podemos não gostar da Grã-Bretanha, mas vocês gostarão da Roménia. Por que não vêm cá?”. Outro exemplo? “Metade das nossas mulheres parece-se com a Kate [Middleton]. A outra metade com a sua irmã”. Descontado algum exagero nacionalista, a parte da beleza feminina é verdade. A dúvida estará em saber se, na ânsia de se tornar igual, a Roménia não correrá o risco de desaparecer.

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Natália Faria (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam na Roménia a convite da TAP,  Hotel Marshall Garden e Karpaten Tourism

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