Era uma vez um português, um irlandês…

Uma anedota não é uma piada: é uma história. Uma história insólita, mas verdadeira. As de maior monta vêm amiúde nos jornais. A que tenho para contar é, lamentavelmente, pequena. Mas aqui vai. É que chegado a Dublin a meio da tarde, consegui, à primeira intervenção nesta terra de viquingues, celtas, lordes e duradouras cismas insulares, fazer parte de uma. Aliás, capaz de produzir uma.

So a Portuguese guy walks into a bar and says

Não, não. Não é esta. Começa assim: So a Portuguese guy walks into a bookstore in Dublin e corta de imediato à direita em direcção às novidades editoriais irlandesas. Tem isto, tem aquilo, este não sei quem seja, este também não, acabam-se as novidades. Próxima prateleira: os clássicos (vamos chamá-los “os clássicos”, não compliquem; é uma anedota). Dubliners: 2,85. Finnegans Wake: 2,99. Ulysses: 2,99. O quê?! The Picture of Dorian Gray: 2,85. Gulliver’s Travels: 2,99. Moby Dick: 2,85. Desconfio e passo à História, onde estou a tresler qualquer coisa sobre a “remarkable” evolução da Irlanda ao longo do século XX quando anunciam o encerramento da loja. Dou três passos ao lado e agarro no Dubliners para ir reclamar ao balcão.

Tive de esperar na fila. O ímpeto de chegar lá e dizer de supetão, “What do you mean, two euros and 85 cents?!”, transformou-se numa dúvida assombrosa: a Irlanda tem tudo pronto para sair do euro, até o preço nos livros. (O que, a bem do meu raciocínio assustadiço, seria matematicamente plausível: o valor da libra irlandesa era superior ao do euro.) Numa voz de inquirição policial (esta anedota é minha, deixem-me em paz), pergunto: isto está bem marcado? é mesmo 2,85? “Yes.” Euros?! “Yes.” Paramos a olhar um para outro, com certeza a pensar o mesmo: este tipo é um idiota. Ajustamos os olhares à miopia da situação, a tentar descobrir qual de nós era o Eastwood e quem é que se iria safar à Paul Newman.

E continuámos parados. “Sir!” Hum. “The store is closing.” Hum. Examino o exemplar. “Sir, that’s really 2,85… euros.” E eu aos berros: ó amigo!, eu levo uma pechincha quando eu estiver preparado para levar uma pechincha! Está a ouvir? Quero lá saber que o raio da loja esteja a fechar! Calma, estou a ver! (Esta parte não aconteceu.) OK, vou levar. “OK, that’s 2,85 then.” Eu sei, eu sei. Cá está. “Thank you.” Ele encolhe os ombros para a colega da caixa, com a cara de quem vai escrever um post no homólogo irlandês da Livreira Anarquista. E eu saio, com um satisfeito sorriso de usurpador, sem lhes explicar que um livro, ainda em edição paperback, tem de custar pelo menos o dobro do que me acabam de cobrar.

Fim.

Como vêem, uma anedota não tem de ter piada. Mas não deixa por isso de ser escarninha e lamacenta para a personagem principal, seja ela quem for: o incrédulo, o retalhista ou, numa sopa, o mercado.

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<imagem: retrato-cartoon de James Joyce, por César Abin, via The Modern World>

Um comentário a Era uma vez um português, um irlandês…

  1. Posso dizer que a minha biblioteca aumentou consideravelmente desde que vivo na Iralanda (ha quase 2 anos). Os preços são fantasticos e ha promoçoes todas as semanas.

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