Hong Kong: Regressaremos do futuro?

Ao longo de uma semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­caram car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes — Bra­sil, Rús­sia, Índia e China).

Olá Joana,

Há dias que acabam da forma menos esperada. Dias que acabam por entre avenidas cobertas por túneis, a invadir passeios que terminam em canteiros cheios de plantas espinhosas, a ignorar as passadeiras, os semáforos e o louco trânsito, seguindo um mapa que parece desactualizado, numa cidade que fala inglês mas se entende em chinês. Quarenta e cinco minutos a andar uns seis quilómetros ao longo de avenidas de sentidos únicos, a entrar em passadeiras, a ignorar as lágrimas de suor que vão fechando os olhos, a tentar não desistir e a pensar, ao mesmo tempo, que não vale a pena, nunca irei chegar a tempo, que a obstinação não é uma qualidade, mas depois, depois faria o quê? Seria tão mais divertido se conseguisse encontrar o que andava à procura…

Não sei ler mapas e isto não tem nada a ver com serem mapas de cidades como Hong Kong ou de aldeias com duas ruas. Simplesmente não sei ler mapas e também não pergunto como se chega aos sítios. Chegarei lá, simplesmente.

Desta vez achei que seria fácil encontrar um pequeno cinema cujas indicações eram apenas “a 100 metros deste local”. Passava, às 8 da noite, Vivre sa Vie, do Jean-Luc Godard. Nunca tinha visto e achei que teria alguma graça vê-lo no bairro onde habitam, enxameando, as prostitutas. Nana, a protagonista do filme (e como esquecer os olhos de Anna Karina), diverte-se a ocupar o tempo, vamos dizer, em se prostituir, e o filme segue-a, em doze episódios, até ao seu trágico final, morta numa rixa entre proxenetas, ela que queria deixar essa vida para viver o amor que nunca deixou de ter pelos homens com quem estavam mas que com aquele, mais novo que todos os outros, era o verdadeiro. Morreu. Assim, tiros de metralhadora numa rua deserta.

A noite em que decidi ver o filme foi também a noite em que a marinha norte-americana chegou à cidade. Welcome US Navy, lia-se um pouco por todo o lado, e elas vestiam-se com as suas roupas mais curtas, as suas jóias mais brilhantes, os seus decotes mais generosos, os seus dentes pagos a encontros, as suas unhas desenhadas ao mais complexo gel. Elas, mais tailandesas do que chinesas, mais indianas do que taiwanesas, menos japonesas do que ocidentais, à porta dos bares, a convidar a entrar e eles, qual filme, com a farda guardada, impecável no navio de guerra que ficou ao largo para todos verem, a rirem, a saberem, dizia um alto para quem quisesse ouvir, que a namorada, em casa, sabia que um homem, do outro lado do mundo, tem que saber divertir-se.

No bairro de Wan Chai, cheio de neóns como todos os outros bairros de Hong Kong, as ruas não se calam, como todas as outras ruas de Hong Kong, a noite toda, como todas as noites em Hong Kong. Misturam-se as cores com os fumos das comidas de rua, os saltos altos com os sacos de compras, os grupos de turistas com os homens que saem das lojas de vendas a retalho. Mistura-se a noite com o dia, a cerveja com a sopa, os pãezinhos doces com salsicha (sim), com os gelados. Se quiséssemos  ver aqui o que pode servir de definição, rasteira e ainda assim tão precisa, de Hong Kong, seria esta palavra: feira.

Hong Kong é uma enorme feira. De vaidades, de diversão, de horrores. O mundo aqui ampliado, no excesso dos prédios altos, na cumplicidade das pequenas lojas, na incompreensão das línguas, no potencial de mudança, na possibilidade de um mundo que não pára. E nós ali no meio, a tentar encontrar um cinema perdido por entre os prédios, como se ver um filme francês em plena capital do novo mundo fosse um modo de ligarmos a memória ao futuro, a história ao que se seguirá, a retórica à realidade.

Passei os dias assim, a entrar em lojas, a fazer contas aos artefactos que queria trazer, qual antigo explorador fetichista que queria guardar de um local ao qual nunca saberá se um dia regressará (do qual um dia se regressará, como tu do Rio, não é?, mas aqui, sem saber se se regressará depois de se ter visto o futuro), artefactos que encherão paredes que um dia serão só memória. E nesse vai e vem de escolhas, a perceber que de Hong Kong se leva a estranha sensação de vazio, de tempo que não se agarrou.

Um exemplo: apanhei um autocarro, mais um, e uma hora depois, de tantas subidas íngremes, de tantas curvas apertadas, de tantas descidas a pique, acabei, na última paragem, em frente à prisão mais antiga de Hong Kong, na vila de Stanley, nome de homenagem a um dos governadores ingleses da ilha e local de paragem de uma colónia de britânicos que, se não se isolou dos outros, pelo menos, soube criar um lugar suficientemente distante para não se parecer com nada a que pudéssemos chamar de próximo.

Uma hora de autocarro para perceber que Hong Kong é esse lugar que nunca vamos poder chamar nosso porque não pertence a lugar nem a tempo nenhum. Não vês nas ruas qualquer desejo de impor uma história linear, nem nenhuma vontade de pertencer a qualquer quadro lógico, e menos ainda uma intencionalidade na ordem, nas regras ou nos modos de coabitação. Acontece tudo ao mesmo tempo, de um bairro para o outro, porta ao lado de porta, na história de cada um…

E ficam, no fim disto tudo, imagens que não sei se pertencem a um universo paralelo descrito por Don DeLillo, ou aos saltos narrativos de Godard. Os andaimes das obras feitas de uma grossa cana de bambú, extraordinárias composições bir-a-brac que qualquer ocidental temeria e que eles fazem com a destreza natural da evidência. As lojas cheias de peixe seco, e chá em folhas e rãs vivas. Lojas e lojas e lojas. E o Mao em despertadores, em pratos, em cartazes, em garfos, em diferentes línguas com os seus pensamentos, em estátuas de todo o tamanho, a fumar, sentado, a andar a cavalo, levantando a bandeira. E a comida, sempre a comida, a fumegar, acompanhada de um chá ainda mais quente. E os anúncios, sempre enormes. E a vida vigiada pelos iPhones, aqui já a caminho da 5ª geração. E a revolução a acontecer e nós a vermos que vamos perder o comboio porque eles já andam de concorde. Um que não vai cair. Um que nos vai esmagar como um elefante a um viveiro de formigas.

PS: Deixo Hong Kong depois de uma massagem aos pés.  O que quer que tenha sentido, não pode ser contado. O que se passa em Hong Kong, fica em Hong Kong.  Ah, acabei por encontrar o cinema. Boa viagem de regresso, beijos.

 

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# Poderosa Hong Kong – Fotogaleria de Paulo Barata 

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