Tratar o Rio por tu (ou você)

Ao longo desta semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­cam car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes — Bra­sil, Rús­sia, Índia e China)

Olá Tiago,

Enquanto fazias a travessia para Hong Kong, eu fiz a minha travessia do deserto – turístico, digamos assim. Meio perdida na tradução (as conversas sobre o português de Portugal, as conversas sobre o espanhol de Espanha, do México, da Argentina, as conversas sobre o inglês de Inglaterra e dos EUA, as conversas com egípcias sobre as eleições egípcias, as conversas, as conversas nesta Babel de jornalistas do mundo inteiro), meio perdida de cidade. Ou seja, much ado about nothing, porque não vi muito. Mas o que vi digno de reflexão, nestes dias até à manhã de sábado, foi à noite. As noites mais belas do que os nossos dias? Não. Mas para lá caminham. A Lapa, a zona que há um punhado de anos se tornou o sítio para comer bem e beber melhor, um Bairro Alto sambado cheio de quitutes – não é só uma questão de location, location, location, é uma questão de palmito, palmito, palmito.

Mais uma volta, mais uma viagem de van e de táxi. O Rio está mais seguro, dizem eles, mas não tenho termo de comparação – só com a agreste São Paulo. Na Lapa, no coração do Rio, onde se come, bebe, fala e ri até tarde na rua, o final da noite é assinalado de uma forma diferente da da noite em Lisboa – os verdadeiros e involuntários donos da rua, aqueles que nela vivem, emergem com ou sem esquemas, tudo para tentar garantir um bolso menos vazio. Uma dose de realidade que só pode tocar. Depois, nasce o sol.

A cidade é o tal acidente geográfico que a arquitectura não tratou sempre bem. Vista de cima, é uma coisa. Vista de baixo, é outra. Normal? Talvez. Aquela vista que te mostrei no primeiro dia está cada vez mais bonita. E ali à esquerda, o sempiterno Pão de Açúcar, que prefiro ao Cristo (cromos repetidos…), à espera. Chegamos. Copacabana lá ao longe, Ipanema a espreitar, a Praia Vermelha (areia que dizem ser carmim, mas que é simplesmente mais escura) mesmo mesmo no sopé, e os terríveis alpinistas que a escalam, rindo-se dos turistas bondinho que abanam pendurados por fios até chegar ao world famous Sugar Loaf – Pão de Açúcar para os amigos falantes de português. Os turistas deslizam, os cariocas arranham. É isto. E é um lindo cliché, o Pão de Açúcar e aquela descida que não é aos infernos. É simplesmente carioca, cidade que faz pensar em Portugal.

Os brasileiros chamam aos anos 1980 “a década perdida” – mais uma conversa, claro. Foi a década em que a economia se afundou e com ela o ânimo… não foi ao fundo. Circular, mais um pouco, até Ipanema. Cidade maravilhosa, sim. De dia e de noite, porque também a vi como o Jordi Burch a fotografou, imoralmente linda, a Rocinha a escorrer morro abaixo com vista para uma das enseadas urbanas mais bonitas do mundo que conheço. Na areia e no asfalto, energia e vitamina D cheia de endorfinas açaí neste Outono cálido com uma praia sempre à mão, que evitou, provavelmente, que algumas zonas e imagens (externas, também) se perdessem nos anos negros. Agora, quando o Brasil está na moda – e isso não se perde, nunca, de vista quando estamos num evento como aquele que me trouxe aqui –, é vezes dois. Ou três. De vez em quando, Portugal, então, porque o país está quase a ir a banhos, um pedaço da costura que parece ajudar a evitar o nosso abismo muito próprio. Finisterra, mas que nos agarra (com um pequeno pormenor com o dobro do nosso tamanho chamado Espanha) ao istmo que Saramago quebrou. Será que, enquanto estamos aqui e aí, ficámos à deriva? Uma t-shirt num desfile de sábado à tarde: “Greece failed. Enjoy!” Termino como comecei: Oi?

Subi ao Pão de Açúcar. August Day Song (entra Bebel Gilberto) num dia de Maio, I dream of places far beyond, ouvindo a chuva cair, não perco um pingo aqui, fico sozinha tão distraída. Amanhã começa o regresso à nossa fatia do PIG (Portugal, Irlanda, Grécia). Ao menos dizem que é saborosa.

Que Hong Kong esteja contigo como o Rio está, definitivamente, comigo.

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