Hong Kong, o Oriente rumo ao Ocidente

Ao longo desta semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­cam car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes — Bra­sil, Rús­sia, Índia e China)

Hong Kong — foto de Bobby Yip / Reuters

Olá Joana,

há quem queira encon­trar o âmago da alma russa, quem queira tra­du­zir o fado, quem acre­dite que pode con­quis­tar o oeste ame­ri­cano, quem queira resu­mir África a um con­ti­nente e quem queira com­pre­en­der Hong Kong. Não é pos­sí­vel. Será um tanto como olhar para o Rio de Janeiro, de cima ou por baixo e ten­tar per­ce­ber como é que foi pos­sí­vel tama­nha mara­vi­lha, com­bi­na­ção imper­feita mas tão justa do tra­ba­lho do homem e de Deus, que aí foi des­can­sar depois de uma semana de tra­ba­lho, como bem recordaste.

Hong Kong, esta velha pro­vín­cia bri­tâ­nica, é o encon­tro, feliz, diria, de um mundo oci­den­tal que se soube expan­dir, e de um mundo ori­en­tal que per­ce­beu o poten­cial da rela­ção. Será uma des­cri­ção sim­plista, cer­ta­mente que sim. Sobre­tudo parece igno­rar que esta his­tó­ria de quase duzen­tos anos, se fez à custa do sacri­fí­cio de tan­tos. Mas – e regresso a Macau como termo de com­pa­ra­ção – aqui per­ce­bes o que resul­tou para as duas par­tes. Hong Kong é uma cidade que conta, Macau é uma ilha que se coloca em bicos de pés para existir.

Depressa te aper­ce­bes que Hong Kong é uma espé­cie de Lon­dres mil vezes ampli­ada, cheia de con­tras­tes que den­si­fi­cam a pos­si­bi­li­dade de ser defi­nida. O hotel onde estou é no cen­tro. Na ver­dade, é per­ver­são do design que te vende linhas rec­tas como se fosse con­forto, espa­ços peque­nos como se fosse um apelo à ima­gi­na­ção, e uma casa de banho com vista para a rua, e onde está a única janela do quarto, um vidro que nos faz pare­cer muta­ções muito mal con­se­gui­das do Michael Fas­s­ben­der, como se fosse uma refle­xão sobre a dimen­são público-privado que existe num hotel. Por cen­tro entenda-se o cen­tro finan­ceiro, hoje ocu­pado à seme­lhança de outras ocu­pa­ções pací­fi­cas con­tra o capi­ta­lismo, onde os filhos dos que há anos tra­ba­lham nos enor­mes edi­fí­cios de vidro, se sen­tam com os seus iPAD e iPhone, e protestam…

Hong Kong — Foto de Bobby Yip / Reuters

Fui per­gun­tar a uma das rapa­ri­gas que estava sen­tada num dos sofás pos­tos como numa feira de expo­si­ções de móveis, no átrio do banco HSBC (onde estão duas está­tuas de leões, diz a lenda, com res­tos de balas da segunda guerra mun­dial, que deves aper­tar para dar boa sorte), e ela disse-me que pro­tes­ta­vam por um mundo melhor. Per­gun­tei como. Ela respondeu-me: “Todos os dias um boca­di­nho mais, vive­mos cheios de gad­gets por todo o lado, já não comu­ni­ca­mos, as gran­des empre­sas roubaram-nos o futuro.” Perguntei-lhe se tra­ba­lhava, respondeu-me que mais impor­tante do que tra­ba­lhar “que isso é quererem-nos calar com a escra­vi­dão de um salá­rio”, o impor­tante era mos­trar “que os senho­res que acham que con­tro­lam o mundo, têm que saber que um dia vão cair”. Perguntou-me o que eu fazia. Disse-lhe que era jor­na­lista e ela deu um passo atrás, pediu para não ser foto­gra­fada e para igno­rar o que tinha dito. Não contra-argumentei. Pode ser que a medi­ta­ção que ela foi fazer a seguir, com o seu iPhone, num sofá que alguém trouxe, lhe possa expli­car, enfim, o que ela tal­vez nunca vá con­se­guir compreender.

Hong Kong está cheia de jovens des­tes, e de outros, iguais aos que encon­tra­mos nas gran­des cida­des oci­den­tais, gra­vata desa­per­tada no fim do dia, casaco na mão que segura uma pasta, gar­ga­lha­das altas e pas­sos apres­sa­dos em direc­ção à pri­meira cer­veja da noite. E a elas, quando a noite começa a che­gar, atra­ves­sam a Cen­tral, a Sta­tue Square, a Que­en­road, vejo-as entrando na Gucci, na Prada, na Louis Vuit­ton, na Labou­tin, em todas as lojas que aqui têm facha­das que com­pe­tem entre si, para de lá saí­rem com os melho­res sapa­tos, as melho­res malas, os melho­res vestidos.

Quando no outro dia, depois de ter saído da entre­vista com o Gil­les Lipo­vetsky, te con­tava que ele não acre­di­tava numa crise do con­sumo, pelo con­trá­rio, o mer­cado do luxo estava em plena expan­são, tinha-se era des­lo­cado da Europa para outras par­tes do mundo, faltava-me uma ima­gem para o poder per­ce­ber. Percebi-o agora. E com este con­traste per­cebi tam­bém o que ele que­ria dizer com a con­tra­di­ção entre os dis­cur­sos anti-consumo e o desejo de uma qua­li­dade de vida cada mais ele­vada. Ele tem razão, já vimos isto acon­te­cer na Europa. Vai che­gar aqui, muito pro­va­vel­mente. Mas até lá Hong Kong começa a dei­xar de se ter que medir com outras cidades.

Até lá, percebe-se isso nas ruas, “e ainda mais desde que dei­xá­mos de ser coló­nia bri­tâ­nica”, diz-me um rapaz que usa o plu­ral majes­tá­tico ape­sar de estar na cidade ape­nas há dois anos, resul­tado de uma chuva de con­tra­ta­ções fruto daquilo a que uns cha­mam des­lo­ca­li­za­ções e outros cha­mam de faro estra­té­gico para mer­ca­dos em expan­são, “até lá, Hong Kong vai con­ti­nuar a mar­car o ritmo da evo­lu­ção do Ori­ente em direc­ção ao Oci­dente”. O rapaz dei­xou a con­versa a meio por­que, entre­tanto, come­çou a pas­sar um êxito musi­cal dos anos 80 na tele­vi­são vinda de um dos bares na Lan Kwai Fong, a rua de todos os bares, de todos os exces­sos, e ele foi fazer exac­ta­mente aquilo que faria se esti­vesse em Lon­dres. A rua encheu-se, entre­tanto, de gente, emu­lando os ges­tos que terão repe­tido, ado­les­cen­tes em iní­cio de noi­ta­das, tan­tas e tan­tas vezes anos antes. Nunca com­pre­en­de­rei o que levará tanta gente a ir de cidade estran­geira em cidade estran­geira a pro­cu­rar fazer as mes­mas coi­sas que faria se esti­vesse em casa. As mes­mas músi­cas, as mes­mas cer­ve­jas, o mesmo prazer?

Hong Kong — Foto de Bobby Yip/Reuters

Afasto-me do cen­tro, entro den­tro de um auto­carro que diz ir para South Hori­zons. Pelo cami­nho per­cebo que a pai­sa­gem urbana que cons­ti­tui Hong Kong foi esca­vada nas mon­ta­nhas, arran­cando ao verde a altura dos pré­dios. Há um cemi­té­rio, oci­den­tal dizem-me, encra­vado entre dois via­du­tos. E há auto-estradas que anun­ciam um com­plexo puzzle de vias, ser­pen­te­ando as mon­ta­nhas, ras­gando essas mes­mas mon­ta­nhas com túneis estrei­tos. As para­gens que o auto­carro vai fazendo, no meio da estrada, fazem desa­pa­re­cer, num ápice, os pas­sa­gei­ros, dei­xando outros entrar sabe-se lá tendo des­cido por onde. Não se vêem cami­nhos. Uma voz vai anun­ci­ando, em inglês, as para­gens, South Hori­zons é a última. Não parece haver mais nada depois disto. Ao fundo, no mar, pon­ti­lhado por ilhas mais peque­nas, outros bar­cos fazem a liga­ção. E, numa ponta mais dis­tante, outros pré­dios, mais pré­dios, mais altos, a olhar para estes, que já pare­ciam ser mais altos do que a vista pode­ria alcan­çar. South Hori­zons é um com­plexo de pré­dios, como se fosse uma enorme col­meia que te esmaga, que é cir­cun­dado por um belís­simo pas­seio junto ao mar onde acabo por me sentar.

O sol ainda não se tinha posto, havia pes­ca­do­res a rirem do que não iam con­se­guir pes­car, havia quem cor­resse, quem tivesse aulas de mane­ja­mento de sabre, quem empur­rasse ido­sos em cadei­ras de rodas e outros que se emo­ci­o­nas­sem com os pri­mei­ros pas­sos dados pelo filho. Acor­dei uns vinte minu­tos depois.

P.S: Per­cebo o que dizes da vio­lên­cia no Rio. Da única vez que aí estive só me senti mais tran­quilo na rua depois de ter ido a uma favela. O efeito das notí­cias na nossa cabeça é impres­si­o­nante, é verdade.

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