Macau: A borboleta e o barco a motor

Ao longo desta semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­cam car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes — Bra­sil, Rús­sia, Índia e China)

 

Olá Joana,

Esta é a última carta que te escrevo de Macau. Na verdade já estou no barco que me vai levar até Hong Kong, de onde passarei a escrever-te. É um mar cinzento-esverdeado, revolto, pontuado por ilhas que prometem praias curtas no fim de falésias, e rasgado por cargueiros que já passaram a idade da reforma, transportando contentores que ameaçam fazê-los virar. É também um mar que faz a ponte, de meia em meia hora, entre Hong Kong e Macau, levando e trazendo os que vão para os casinos. Funcionam a noite toda, sem cessar, e a viagem, que demora uma hora, “garantida”, diz o anúncio (não quero sequer imaginar o que possa acontecer ao que quer que apareça para destruir esta frase) passa, ligeira, pelas ilhas verdes que fazem este mar que me lembra, não sei porquê, as passagens estreitas pelas ilhas gregas. A mente faz sinapses que desconhecemos…

Saio de Macau com a estranha sensação de que não a percebi. E volto a lembrar-me da primeira imagem que vi, ao embarcar para chegar à ilha, no domingo passado. Uma borboleta, de enormes asas brancas, passava ligeira, por entre os enormes motores dos barcos, prestes a partir. Nada parecia incomodá-la. E foi o rugido forte do barco que mostrou quem parecia estar incomodado, ele, esta construção possante, invasora, incomodado com a leveza de uma borboleta que, rindo-se provavelmente, seguiu o seu caminho

Volto a lembrar-me da borboleta quando estou no alto da Torre de Macau, olho para a cidade e penso nas palavras de Dom Fabrizio, o Príncipe de Salina, o Leopardo, como lhe chamavam, livro de Lampedusa que trouxe para esta viagem, sem saber que a passagem do tempo, dos modos e dos vícios, dos jogos e das tradições do final do século XIX italiano, poderiam fazer tanto sentido num Oriente virado para o século XXI sem que nós saibamos muito bem como o traduzir. Olho, desconfiado (é uma condição natural, como sabes) para a correria das pessoas, lá em baixo, entre os casinos, os monumentos, os restaurantes, os autocarros, no jogging de fim de dia, nas lojas cheias de luzes, e penso que a condição natural da mudança (mas natural para quem?), que para uns seria evolução, resultando de um encontro entre duas realidades, deveria levar a uma transformação.

Mas admitindo que não percebi o que é Macau, nem consegui ver na cidade esse encontro de culturas que não fosse uma simples justaposição, uma acumulação, uma resiliência de um lado e do outro, não diria imutáveis, mas certamente menos comunicantes do que, eu pelo menos, imaginava, fico a pensar que a História falhou se, por sucesso, quiséssemos ver não este hibridismo que contaminou a cidade, mas uma outra coisa: uma cidade-ponte entre dois mundos.

Parece-te estranho lembrar-me do Leopardo aqui em tão elevadas altitudes? Olha esta passagem que me emocionou, quando Salina conta a um enviado que o quer convencer a aceitar o lugar de senador na nova Itália que nascerá depois da revolução garibaldiana, o que lhe sucedeu, anos antes com a visita de dois oficiais da marinha inglesa, que perguntaram a Salina, o que tinham ido ali fazer uns revolucionários: “Vêm ensinar-nos boas maneiras, mas não serão bem-sucedidos, porque nós somos deuses”. Percebes, acho que foi isto que aconteceu aqui. Chegámos convencidos de que éramos o velho e experimentado mundo e esquecemo-nos que aqui já havia mundo, há tanto ou mais tempo do que nós. Mas não fomos embora. Nem eles nos disseram para irmos. Rugimos como o motor do barco à borboleta que passava. E fomos coabitando. Pagode ao lado de prédio, igreja ao lado de templo, portas cerradas ao lado de janelas escancaradas, até hoje, até sempre.

Por isso, apanho um autocarro sem saber para onde vai só para fazer como o fazem os que são de cá, percorro ruas com nomes em português e chinês, ruas estreitas, de um só sentido, ou avenidas largas onde o trânsito se atropela, e vou parar às Portas do Cerco, a fronteira com a China, e entro num bairro cheio de lojas com iPADs a 200 dólares e lojas que nós diríamos tradicionais mas para eles são o dia-a-dia, e compro uma sopa na rua porque é o que todos estão a fazer, e peço um sumo de uva e sento-me num banco de uma rua sem carros a ver a noite a chegar, as pessoas a saírem para encontros com os seus amigos, os fumos a saírem das janelas das cozinhas e aquele bruáá envolve-me e pergunta-me se agora já estou a sentir Macau.

Percorri as ruas num mapa feito a partir dos templos que ainda resistem na selva de pedra que é Macau, e descubro lugares apenas guardados para os residentes, os locais, onde os turistas não vão, ou os turistas ocidentais, pelo menos. E quando me sento numa pedra, num dos templos, a observar aquele vaivém constante de quem acende incensos e se inclina para agradecer aos seus deuses, sou despertado pelo flash de uma máquina. Tiraram-me uma fotografia, acharam graça a que estivesse ali, sentado, pernas dobradas como se estivesse a meditar. Foi a primeira vez, em toda esta estada em Macau, que percebi que estava a ser observado. De resto, andas nas ruas e ficas com a sensação de que és invisível. Mas, muito provavelmente, di-lo-ão os que procuram o lugar-comum, fui eu que não os vi.

Deixo para fim o que sabe melhor: a comida.

Apenas uma vez senti que tinha comido tão bem e ainda queria mais. No Líbano, no centro de Beirute ainda ocupado por tropas, noite longa num restaurante de grandes portas de madeira e de mesas fartas, a experimentar pratos que me traziam à memória saberes que tinham sido introduzidos na nossa própria cozinha, percebendo, então, que a riqueza que faz a nossa culinária vem também daqui, destes sítios todos onde estivemos e de onde chegaram aqueles que connosco fizeram a nossa história.

Será estranho pensar que na cozinha Cantonesa se possa encontrar um prazer, eu diria, um prazer cru, natural, que nos soe familiar? Talvez seja a surpresa de verificar que a comida que temos em Lisboa, chinesa ou cantonesa me parece, agora, tão distante da que realmente se come aqui. Aqui é tão menos gordurosa, tão mais viva, cheia de encontros inusitados de sabores, cheia de segredos que nos vão seduzindo. Um jogo afinal, mais um, mas um jogo de sentidos, um jogo sensível, feito para nos perdermos.

Se algum dia vieres a Macau, e depois de subires ao último andar do Mercado de São Domingos, para uma verdadeira experiência de cantina partilhada por todos e servida por diferentes restaurantes, cada um mais sedutor do que o outro, pede para te trazerem a um restaurante que todos chamam de Ponte 22. Rende-te às mesas redondas cobertas com um plástico, escolhe os peixes à entrada, vivos para que tu os escolhas, como se fossem eles mesmos conscientes de que se oferecem para o teu prazer e pede. Pede, pede, pede até achares que não podes mais, e continua a pedir depois disso. Pede a carne de porco que parece feita em bolinhas, pede os camarões-tigre, pede as lulas com brócolos e o miolo de camarão com cajú, pede tofu frio e molha-o em molho de soja, pede legumes, pede muito arroz para saberes o que é o verdadeiro arroz que não ouvi ninguém chamar chau-chau… Pede, vais ver que não voltas a entrar num dos nossos restaurantes sem te sentires nostálgico da noite em que descobriste que a mesa é um prazer ainda maior quando não se sabe ao que se vai.

O dono do restaurante virá brindar contigo, tu vais agradecer, e se ele te dizer “caibé” (terá sido isso que ele disse? Não sei, depois de tantos copos), isso significa que deves beber o copo de cerveja até ao fim. E vai-te enganando dizendo que a cerveja macaensa é fraca. No fim pagarás a conta. Será a única conta que te vai pesar, porque a da carteira, mesmo depois de tantos pratos, não pagaria, sequer, um mini-prato no restaurante onde costumamos ir em frente ao jornal.

A gravação avisa que estamos a atracar em Hong Kong. E eu olho para os prédios altos, mais altos do que a vista alcança, e penso outra vez em Salina: “as novidades só nos atraem quando as sentimos defuntas”.

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