Macau. Inspirar, expirar.

Ao longo desta semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­cam car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes — Bra­sil, Rús­sia, Índia e China)

Olá Joana,

aqui também há, claro, calçada portuguesa. Não sei o que lhe chamam, sei que com a chuva fica escorregadia e viscosa. Nela estão desenhados símbolos do zodíaco e do ano chinês. E quando querem ser realmente especiais desenham verdadeiros emaranhados, como os que existem no jardim de Camões, onde estão, acho, representados vários episódios dos Lusíadas. Só de longe consegues perceber bem de que se trata, mas não deixa de ser impressionante esta junção da delicadeza oriental com a ambição ocidental.

Foi no jardim de Camões, onde ficará a gruta onde ele escreveu parte dos Lusíadas, que vi pela primeira vez esse culto ao corpo de que falas, que aí é por demais evidente e que, aqui, parece fazer parte de uma cultura de manutenção. É frequente encontrar nos jardins, às vezes em cantos de pátios de prédios aproveitados, ou ao longo dos lagos, máquina de manutenção para os braços, pernas, dorsais que são diligentemente ocupados por gente de todas as idades.

Aqui, a manutenção do corpo, o culto do corpo tem a ver com a ideia de que apenas o estás a usar de passagem, como oferta dos deuses, e por isso lhes deves agradecer mantendo-o. Claro que, como em qualquer cidade moderna, o jogging tornou-se imagem recorrente e, sobretudo ao fim do dia, quando a temperatura já baixou, são muitos os que saem para se esgotarem em longas marchas resistentes.

Digo resistentes porque não é só a temperatura a atacar fortemente. A poluição, que justifica este tom cinza prata do céu, torna difícil a respiração. E mesmo os mais habituados precisam fazer longas pausas para recuperarem o ar. Decidi imitá-lo, porque, como sabes, comprei uns ténis para correr a contar com umas montanhas croatas e acabei por ficar nas colinas lisboetas. Decidi então correr aqui em Macau, sem saber nem da poluição nem da temperatura. A volta completa do lago Sai Van deverá completar 5 km de diâmetro. O lago, construído depois de mais um pedaço de terra roubado ao mar, está inutilizado pelas autoridades que impedem qualquer actividade aquática, pelo que correr e olhar são as únicas duas coisas que podes fazer. Como ficava em frente ao hotel e ao lado da Torre de Macau (386 metros, uma das mais altas da Ásia), decidi que iria percorrê-lo todas as manhãs.

Uma volta e depois outra volta, para ver se matava as calorias ganhas com toda a comida maravilhosa (sobre a qual falarei mais tarde) achava eu que seria o suficiente. Ao fim de meia volta já estava com tudo o que não sabia sequer que tinha cá dentro de fora. Ora, eu não fumo, como razoavelmente bem, ando a pé, não sou um exemplo de pessoa saudável mas, convenhamos, isto mata qualquer pessoa. Suas imenso, sentes que estás mesmo a desvanecer-te a cada passo que dás, mas não podes desistir. Tens tantos que passam por ti e que sentes que te colam na testa o autocolante de turista, amador, espertalhaço, que não podes desistir. No fim, faz um bem imenso. Mas também ficas a perceber porque é que os atletas chineses são tão bons nas competições internacionais. Não há cá lugar para os fracos. Agora posso usar uma t-shirt, com letras muito pequeninas claro, a dizer, “eu corri em Macau e sobrevivi”.

P.S.: Não sei se será por causa do desporto, da poluição ou de qualquer outra ordem moral, mas 2012 foi decretado como o ano em que se deixará de fumar em Macau. Há cartazes por todo o lado a avisar que as multas serão impiedosas, os infractores expostos ao ridículo e os objectivos cumpridos à custa de todos. És convidado a denunciar, chamando mesmo as autoridades, aquele ou aquela que vires a fumar em qualquer espaço fechado, mas também, e é isso que é admirável na obstinação secular chinesa, nos jardins públicos, nas paragens de autocarro, junto a escolas, na fila de espera das “tascas” de rua, nas esplanadas, nos lóbis dos prédios, enfim… uma caça à nicotina sem precedentes que, percebe-se, aflige os que fumam. Mas, curiosamente, o tabaco custa o equivalente a um euro e meio.

Esta entrada foi publicada em China, Macau com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/emviagem/2012/05/24/inspirar-expirar/" title="Endereço para Macau. Inspirar, expirar." rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>