Rio ressaca

Ao longo desta semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­cam car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes – Bra­sil, Rús­sia, Índia e China)

Sim, acordar cedo, bem cedo, vale a pena deste lado da Atlântica. Nascer do sol em Copacabana, cortesia Hipstamatic.

Olá Tiago,

não, não foi o efeito de duas noites mal dormidas. Nem da mudança de fuso horário, nem do voo de dez horas e do ritmo muito próprio dos aeroportos brasileiros. Foi mesmo a primeira surpresa que o Rio de Janeiro pregou em noite de estreia. Nesta ponta do BRIC, esperava-se muita coisa. Mas não que o mar de Copacabana estivesse de ressaca. O dito ruge lá fora, a avisar que apesar de serem 19h de uma segunda-feira (e noite cerrada), não se espere que a manhã de terça seja de banhos de mar. Já esta manhã, dizia a rádio local à entrada na cidade, as ondas galgaram a avenida Atlântica e obrigaram ao fecho de duas faixas de rodagem. E a esta fúria outonal do mar, neste caso do Atlântico carioca, chama-se ressaca. Oi?

Não, não esperava também, desta ponta do BRIC, que a palavra “crise” me entrasse logo pelos ouvidos dentro. Mas paz e coragem, a Presidente Dilma Rousseff promete que o Brasil está “300% preparado” para a crise. Afinal, Deus é brasileiro – e até passou um dos seus proverbiais sete dias de criação do mundo todo, todinho no Rio de Janeiro. Mesmo para quem está tão distante do criacionismo como de Lisboa ou de Macau (e são 7711 e 17.597 quilómetros, respectivamente), a ideia parece justa.

Não, não porque tenha sido a entrada postal ilustrado, expectativas ao alto, máquinas fotográficas esperançosas. Foi o cheiro a mar num aeroporto com nome de músico – e isso já vale muitos reais e pais-nossos – seguido de um banho de Brasil real. O trânsito escorregadio e intenso, tal como em São Paulo, mas polvilhado de miúdos, rapazes e homens carregados de pipocas, bebidas frescas e outros pecadilhos açucarados de leve volume, que vendem em plena via rápida serpenteando entre os carros – que param em plena faixa para comprar a sua merecida paçoca, claro. As favelas a perder de vista em tijolo puro, cruas e baixas. Um campo relvado, verde verdinho, para os miúdos jogarem à bola e para o rebanho de cabras (I kid you not) ir aparando em volta.

Não, não foi sempre assim. Algures neste caminho, sempre com o mar à esquerda e o vislumbre daquilo que lá em casa se chamou “o acidente geográfico” que é este Rio de Janeiro em noite de estreia, a cidade tornou-se maravilhosa. Basta entrar na praia de Botafogo, ver os veleiros e, de repente, o Pão de Açúcar, o bondinho e a Urca. E pronto. Só falta a outra metade do postalito, a do Leblon e do Redentor. O deep impact do Rio é as duas coisas e cheira-me que, além de estarmos a dizer o mesmo que tooooda a gente já disse, a tese desta noite de estreia se vai confirmar ao longo da semana.

Não, não deu para ver muito mais. A noite caiu, aqui a três quadras (esta coisa de chegar ao Brasil põe-nos logo com vontade de contaminar uma língua com a outra, perdão) do Copacabana Palace. Mesmo assim, deu para pôr o pé na areia e ver as mil equipas de futebol de pequenos e grandes a treinar, para confirmar o tráfego de corredores e caminhantes (quanta saúde!) na calçada portuguesa a que temos de chamar calçadão. Deu para ouvir uma oferta de maconha, “marijuana” para a turista perceber à primeira abordagem, para ver os coqueiros e os cocos e a água de coco, para espreitar uma partida de jogo do bicho numa rua traseira para querer muito acordar cedo, amanhã, nesta cidade nesta ponta do BRIC. Onde o Outono a um mês de virar Inverno é 25 graus e mil gentes de pé na areia e nariz no ar, cheio de maresia. Na arte da oratória, o termo técnico para a frase anterior é “conversa de mete nojo”.

O Tiago está na outra ponta do BRIC. Onde também se fala português.

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