As regras do jogo

Ao longo desta semana, Joana Ama­ral Car­doso, no Rio de Janeiro, e Tiago Bar­to­lo­meu Costa, em Macau e depois Hong Kong, tro­cam car­tas de via­gem a mais de 17 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Duas rea­li­da­des, onde o por­tu­guês ainda é lín­gua, em dois paí­ses emer­gen­tes, duas pon­tas do BRIC (sigla que une qua­tro paí­ses emer­gen­tes – Bra­sil, Rús­sia, Índia e China)

 

Querida Joana,

Quando a Jane Russell chegou a Macau, num barco conduzido pelo Josef von Sternberg, o Robert Mitchum disse-lhe ao ouvido que nesta ilha tudo “era tudo um jogo”. Um jogo de ilusões que ainda existe, 50 anos depois de a rapariga ter cantado para que o Joe, o rapaz do bar, ouvisse, que ela, não sendo poeta, tinha coisas para dizer e, por isso, tomava logo duas, uma ali mesmo e a outra para o caminho.

A pobre Jane chegava a uma ilha que, então, era antro vicioso, espaço de vícios mais do que públicos e de prazeres que se prolongavam no privado. Havia um lado sórdido ao qual Sternberg, malicioso como só ele, libidinoso barrigudo que gostava mais do decote do que do argumento, não resistiu e o Howard Hugues, que estava caído pelo decote da Russell mas não era parvo nenhum, fechou a carteira como só um bom capitalista sabe fazer e foi buscar o Nicholas Ray para acabar o filme. Sternberg nunca mais filmaria (bom, há um filme que ninguém viu, passado no Japão), tinha-se acabado o exotismo, ficou só o erotismo, que ficaria sempre, era de Russell o decote, afinal. “And the money, of course”.

Em Macau it’s all about the money. Pay cash sir, pay cash sir, grita-me a empregada do restaurante pelo telefone quando acordo mais tarde e já o pequeno-almoço fechou. Pay cash sir e eu levo-lhe o pequeno-almoço ao quarto. Vítima do jet-lag, me assumo.

Mas se não gostares de jogar, então Macau não servirá de muito. É como dizia o antigo director do departamento de turismo, numa entrevista que li: “Se fossem só as ruínas, não íamos longe”. Um exemplo: na Fortaleza do Monte, ao lado das ruínas de São Paulo (que pequenas são… anos de fantasia sobre a sua grandiosidade e comem-se com uma dentada), há uma placa que explica que a sua disposição, num dos que seria um dos pontos mais altos da cidade, permitia observar os mares e o que eles escondiam, nomeadamente os ataques dos holandeses. Apenas de um lado, o da China, não existiam ameias com canhões porque, explicam os guias, a única preocupação que poderia vir daquele lado eram as marés vivas. Os mais de três metros de largura da muralha seriam suficientes para marés e ataques. Mal sabiam eles o que os mares escondiam.

Hoje, do mesmo local, não vês o mar. Aliás, o que mais não se vê em Macau é o mar, engolido pelos prédios, de luxo e de lixo, como se misturasse o excesso com a falta de dinheiro. Os canhões, hoje, apontam, direitos e irónicos, para os deselegantes casinos, delírios arquitectónicos em forma de flor de lótus, de bola de espelhos, de canal veneziano, de canoa chinesa. Numa frase: todo o mau gosto que só o dinheiro pode comprar.

O jogo é uma tradição que extravasa os casinos e vai até às pequenas lojas familiares, onde se sentam, entre os pratos do jantar, para um jogo que parece de dominó. E vai até aos jardins, onde vários homens se juntam para verem os outros perder às cartas. E entra nas pausas dos empregados de hotel que se juntam para matar o tempo com os dados. E serve de digestivo depois das refeições nos restaurantes, acompanhado de chá. Ahahahaha, ahahaaha, ahahahahah, é tudo o que ouves. Jogas sempre a dinheiro. O dinheiro é para gastar. As patacas não valem nada. Dolar sir, only dolar. American good. Hong Kong dolar OK, no pataca. Dolar sir, dolar, diz o segurança à entrada de um dos casinos. No Money? No worries. Machine inside. E uma gargalhada, das de filme. Há 50 anos como agora, it’s all about the money, girl. 

O dinheiro compra tudo e deve ter sido o dinheiro que nos perdeu aqui. Os valores nobres da educação, da cultura, da filosofia, da religião, engolidos pelo avanço voraz do capitalismo disfarçado de democracia.

Ando pelas ruas a tentar perceber o que nos ligará, como antes se disse que ligou, a esta ilha, a esta paisagem sufocante, debaixo deste céu de cinza e prata, sufocante e húmido. Procuro os restos de memória que podem ser encontrados, seja nos edifícios que ainda carregam a placa que os identifica como “Património do Estado”, mas ostentam a bandeira da China, seja nas pequenas lojas de qualquer tipo de comércio, que anunciam os seus serviços em português mas carregam, logo a seguir, um nome em chinês, e fico a pensar que Camilo Pessanha e Luís de Camões se enganaram. Portugal não cresceu aqui. Ter-se-á, eventualmente, enxertado, mas uma chuvada das fortes, daquelas que só as monções (que começam agora, aliás) podem provocar, varreu tudo. A memória de uma história não pode ficar nos edifícios, apenas. Um dia, desaparecerá mais uma placa, depois mais uma estátua, e a seguir um monumento, e depois o nome de uma rua e, um dia, quem se lembrará que também aqui se fez nome Portugal?

Haverá uma incompreensível nostalgia de quem para cá vem. Mas não acredito que seja por causa da tradição, da história ou da memória. A China aqui ao lado e o dólar na carteira falam mais alto. E, compreensivelmente, não falam português. São as regras do jogo.

(One for my baby – Jane Russell em Macao, 1952, de  Sternberg)

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4 comentários a As regras do jogo

  1. Caros leitores, agradecendo os comentários que deixaram, temo que tenha que vir em socorro da “honra” deste texto que não quer, como nenhum dos textos colocados neste blogue, servir de guia turístico. Os blogues são espaços de opinião livre, condicionados pela subjectividade e, por isso mesmo, menos presos às regras do jornalismo que seguimos nos textos publicados nos formatos convencionais. Este texto só me compromete a mim, não compromete Macau. Nem poderia ser de outra forma. São impressões e, felizmente, como as opiniões, e os olhares, todos temos as nossas, tão válidas umas como as outras. Pois se foi isto que vi, é sobre isto que escrevo. Lamento desapontar a expectativa de quem queria encontrar nestes textos um guia, um descritivo ou uma repetição do que tanto já se sabe, já se disse, e por tantos sítios está escrito sobre Macau. Este texto é um artigo de opinião e, como tal, sujeito apenas e só ao meu olhar, ao que quero dizer e, sobretudo, livre de um compromisso outro que não seja partilhar isso mesmo. Há mais Macau para além destes textos, felizmente.
    Obrigado,
    Tiago Bartolomeu Costa

    (já agora, o hotel era de 3 estrelas e eu não tenho por hábito escrever da janela do quarto, escrevo na rua depois de ver as coisas. e ninguém me mandou, fui eu que quis vir)

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  2. De facto Macau não é só isto que está escrito, Macau tem muita beleza e encantos. Macau não tem só luzes e dinheiro, existe muito mais. Existem histórias que ainda não foram contadas.
    Quando vierem a Macau, olhem para a sua paisagem, para a sua gente, para a sua história, para os seus monumentos, etc. etc. etc.

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  3. Vê-se logo pelo que se escreve onde se estiveste e o que viste.
    Macau felizmente ainda tem muito por contar, e nao foi o que se leu aqui.
    É muito fácil dizer tudo isto, até sem lá ir, mas o que fica por dizer é que dá pena de não lêr. É frustrante mandaram a macau pessoas que nao conseguem vÊr para além do que um burro vÊ quando vÊ um palácio.
    E num quarto de quantas estrelas escreves te tudo isto?
    De certeza que nao foi na gruta do camões?

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