Macacos portugueses

Se os portugueses são barraqueiros natos, já os franceses são empertigados e julgam que têm o rei na barriga. Mais ou menos injustos no quotidiano, estes estereótipos têm tendência, porém, a ganhar força de lei em sítios de férias. Foi certamente o que aconteceu no episódio mais inesquecível da minha primeira vez na Martinica.

Estava num grupo de dez portugueses, a maior parte homens, juntos numa viagem de incentivo à ilha mais francesa do Caribe. Os franceses eram duas famílias, incluindo avós e uma data de crianças. O ponto em que nos cruzámos foi um pequeno istmo da idílica Baie des Mulets, situada na ponta sul da Martinica. Totalmente coberta de mangais e sem estradas, essa língua de terra selvagem só se pode atingir por mar. Para o efeito é preciso atravessar uma baía de águas tranquilas, protegida por uma longa barreira de corais. Nós chegámos primeiro, numa excursão de pirogas de fundos transparentes, que não correu como o previsto e teve mais piada por causa disso.

Era suposto ser tudo muito turquesa e zen, mas abateu-se sobre nós um verdadeiro dilúvio tropical que afundou metade das pirogas, obrigando os ocupantes vestidos e alguns mesmo de óculos a nadar até à segurança do barco a motor do guia. Cada afundanço foi celebrado como uma festa e quando finalmente chegámos à pequena concha de areia da Baie des Mulets já toda a comitiva portuguesa desistira da compostura e mesmo da fruição da natureza. Como tantas vezes acontece em férias, sobretudo em grupos masculinos como o nosso, tínhamos regredido até à adolescência e ao humor típico de um balneário de rapazes.

De outra maneira não se explica que, quando ao largo se produziu o barco da excursão dos franceses, os saudássemos imitando gritos e gestos típicos de macacos numa velha fita do Tarzan. Exageramos na galhofa sobretudo porque presumimos que eles passariam ao largo, de forma que a brincadeira foi de súbito interrompida quando o guia anunciou que o barco dos franceses se prestava a atracar ao lado das nossas pirogas.

Julgámos que iríamos levar um raspanete, ser insultados ou mesmo pior, mas os do barco não eram alemães, nórdicos ou algo que se pareça. Como bons franceses limitaram-se a ignorar-nos, não nos dirigindo uma palavra, ou sequer dignando-se a olhar para os “primatas” portugueses. Tinha tido mais piada se tivessem dado mais luta, pelo menos foi o que dissemos quando ouvimos o motor do barco deles voltar a engatar.

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