O “povo das águas”. Assim chamam aos caboclos, habitantes originais da Amazónia, do rio Amazonas e respectivos afluentes, descendentes de índios e de brancos. Percebe-se porquê.
A estação das chuvas ainda não acabou e a região já enfrenta, muito por causa do aquecimento global, uma das piores cheias dos últimos 20 anos. Tudo indica que irá ultrapassar os números históricos de 2009. Manaus já decretou situação de emergência.
Percorremos o Rio Negro na canoa Pirarucú – que, a propósito, é o nome de um peixe típico, apelidado até de bacalhau da Amazónia.- e à superfície espreitam apenas as copas das gigantescas árvores. Debaixo, dez metros de água; vinte e nove noutras regiões da bacia hidrográfica do Amazonas. As palafitas parecem suspensas. À esquerda, um cenário surreal: uma vaca insular, isolada nuns poucos metros de madeira que ainda não estão submersos.
Do outro lado do Atlântico, deita-se as mãos à cabeça com um cano rebentado. Aqui não. Há que “dar um jeito”, não há outra maneira. Subir os electrodomésticos, arranjar um novo chão, até porque mais difícil é percorrer quilómetros sem água, a pé, na época das secas. Constroem-se novos passadiços de madeira, do pé para a mão, nem que seja todos os dias.
É assim no Ariaú, complexo turístico idealizado por Jacques Costeau, localizado a 60 quilómetros de Manaus, na margem direita do Rio Negro. Sim, a água ameaça a recepção — e depois? Em 2009, Lídia atravessava a loja de recordações de canoa. Os turistas pediam uma t-shirt, um porta-chaves, e lá ia ela, dando às pás, uma de cada vez, dos postais para a máquina registadora, dos colares para a porta. E vendia. Muito. “Virou fenómeno. A Veneza do Brasil!” Caboclo só vive assim. A canoa presa à casa é um jacto. A selva é lá fora, a cidade, dizem-nos. Lá é que há solidão. E nós acreditamos, mesmo quando tomamos banho a trocar olhares com um sapo.
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Amanda Ribeiro viaja na Amazónia a convite da agência Abreu




