Lombroso, o museu mais esquisito de Turim

Em Turim, fui visitar o Museu de Antropologia Criminal, parte de um complexo de museus integrados no Instituto de Anatomia da Universidade da região de Piemonte. O pequeno museu é mais conhecido pelo nome de Cesare Lombroso, o extravagante médico que na segunda metade do século XIX inventou a chamada “antropologia criminal”, pretensa ciência que partia do princípio de que era possível identificar os criminosos medindo o tamanho dos respectivos crânios.

A guia italiana de expressão lusófona que me acompanhou na visita confessou-se seriamente chocada. Mas não tanto pelas ideias maradas de Lombroso – um judeu defensor de teorias racistas -, nem sequer pela pilha de caveiras desdentadas que o médico empilhou em vida e estão agora expostas nas prateleiras do museu como sapatos numa loja. Não, o que verdadeiramente a indignou foi em 27 anos de carreira como guia em Turim nunca ter postos os pé em tal sítio – que existe desde o tempo do seu mentor, embora fosse modernizado e reaberto em 2009.

Perguntou-me uma série de vezes onde é que eu tinha ouvido falar daquele lugar tão esquisito, qual era a minha motivação para o visitar e, já agora, se acreditava que semelhante “atracção” teria algum interesse para os leitores do Público, agora que a TAP se prepara para abrir uma ligação directa entre a sua cidade e Lisboa. Fui-lhe dizendo que os museus ligados à história da medicina e da investigação médica estão de moda em toda a Europa, citando nomeadamente o fantástico Wellcome Museum, em Londres. Mas a prova dos nove do fenómeno, acrescentei, estava ali mesmo em Turim, onde naquela tarde de sábado primaveril se fazia bicha para comprar entrada no Cesare Lombroso. Aquela evidência empírica não convenceu, porém, a minha guia, que me fez notar que na dita bicha só havia italianos, para mais todos ou quase com aspecto de intelectuais. Em resumo, com semelhante clientela, mesmo que numerosa, o Cesare Lombroso nunca poderia ser considerado uma morada turística.

Os turistas brasileiros, acrescentou ela, esquecendo que eu sou português, quando lhes propõe a visita de algum museu em Turim – coisas bem mais acessíveis, como o Museu Egípcio ou o do Cinema – franzem logo o sobrolho. Para os brasileiros, concluía-se, visitar museus e sítios culturais é um completo frete só compensado pelo tempo livre que as excursões lhes deixam depois para ir às compras.  Poderia ter-lhe perguntado se para ela também é assim, sobretudo quando veste a pele do turista de visita a outra cidade. Mas acho que ia azedar a conversa e, de qualquer modo, até era capaz de adivinhar a resposta.

Passei, no entanto, o resto da tarde a matutar naquelas questões. Será que os turistas de excursão preferem sempre o shopping à cultura? Será que os guias normais não conhecem as cidades em que vivem tirando os sítios onde levam os turistas? E será que os leitores de viagens, incluindo os mais instruídos, gostam de ler (e de ir) para além dos clichés turísticos?

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Um comentário a Lombroso, o museu mais esquisito de Turim

  1. Sendo eu pouco turista (com muita pena minha) mas estudante académica de Turismo, tenho um especial fascínio e interesse por esses locais pouco turísticos e esquecidos pela maioria dos turistas. Contudo, confesso que sou muitas vezes levada a visitar os tais “clichés turísticos”, porque os “outros” não são divulgados nem constam nas rotas turísticas. Quero portanto dar-lhe os meus parabéns pelo seu magnífico trabalho de pesquisa/divulgação e por partilhar connosco as suas descobertas…….

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