Dormir com artistas

Fizeram questão de me mostrar o quarto antes de me darem a chave. Depois perguntaram-me uma série de vezes se não preferia ficar noutro lado, como se não tivesse percebido para onde ia. Estou, na verdade, alojado no Windsor, hotel no centro de Nice (rue D’ Alpozzo, 11) com a particularidade de todos os quartos serem projectados por artistas contemporâneos.

Calhou-me o 57, que é de longe um dos mais radicais. Concebido por Claudio Parmiggiani em 2002 consiste numa divisão exígua (contigua à caixa do elevador), totalmente forrada com  folhas de ouro. Há uma cama no meio e um candeeiro na cabeceira, absolutamente mais nada. Na legenda à entrada, Parmiggiani associa ouro, alquimistas e sonho. Ou seja, este seria um quarto indutor de sonhos dourados, embora toda  a gente a quem pedi ou resolveu dar-me a sua sentença quando percebeu a minha situação preferisse associá-lo a sarcófagos e a câmaras funerárias à moda do antigo Egipto.

Mas vamos ao que interessa: afinal como foi a minha noite no quarto dourado? Foi esquisita, posso assegurar, mas já tenho mais dificuldade em dizer porquê, Não liguei à recepção a pedir comprimidos para dormir, nem despertei em pânico a meio da noite com algum pesadelo além-túmulo. Acordei, isso sim, demasiado cedo e de ressaca, como se nem tivesse chegado a desfazer os lençóis.

Tinha uma segunda noite prevista no Windsor e já que estava num sítio favorável a experiências oníricas decidi mudar-me para o quarto 65. Assinado por Ben, nome maior da chamada Escola de Nice e do movimento Fluxus, é a outra grande referência “artcore” do hotel, fazendo grupo com o 57 na classe dos quartos que toda a gente quer ver, mas onde poucos se atrevem a ficar. Tratando-se de Ben é fácil perceber porquê: está repleto de mensagens, ou tão só de palavras multicolores, pintadas de cima a baixo e de uma ponta à outra, como se o espaço tivesse sido arrombado e vandalizado por um grupo de grafiteiros com horror ao vazio.

Tudo, ou quase, são frases relacionadas com sonhos. “Nesta cama os seus sonhos tornam-se realidade” reza um dos quadros emoldurados por cima da cama. “Sonhei que a mamã está debaixo da cama” lê-se a toda a volta do aquecimento. Ou “Não façam amor em cima desta mesa que é demasiado frágil” adverte o tampo da dita, por sinal em verga. Não sou capaz de vos dizer que sonhos tive neste quarto, mas posso jurar que ainda dormi menos que no outro. Passei eternidades a ler paredes e móveis e quando acabei descobri que havia também um grosso livro de hóspedes, que se foi enchendo de comentários da clientela vinda dos quatro cantos do mundo desde a inauguração em 1996. É previsível, mas nem por isso menos engraçado: um casal inglês diz que não conseguiu dormir, mas mesmo assim adorou, outro francês declara que sonhou poder voltar a sonhar ali e um americano confessa o seu desapontamento por não saber francês.

Uma coisa é certa: não me lembro de nenhum hotel como o Windsor onde se pague tanto para dormir tão mal ou tão pouco.

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