O beijo de Barcelona entre a vida e a morte

Fora de Ramblas, para além do mar e de um centro onde soçobram outros turistas, vivem muitas Barcelonas. Os nossos passos encaminham-se para um destino que muitos considerarão tétrico, o cemitério de Poblenou (um carismático bairro da Barcelona industrial), uma viagem no tempo e a outras dimensões. Aliás, este cemitério e o de Montjuïc são as estrelas da Rota dos Cemitérios local (e que integram a rota europeia dos cemitérios, que recebeu a chancela oficial de Itinerário Cultural Europeu). No caso barcelonês, como noutros, a razão é óbvia: os velhos cemitérios, para além da religiosidade e respeitosas homenagens, estão repletos de arte e história. O nosso passeio até Poblenou, aliás, tem um objectivo principal: admirar in loco o “Beijo da Morte”, uma enigmática estátua.

Passámos por lá num domingo em que em todo o bairro não se via vivalma. Saídos do metro Llacuna, e apostados em não usar mapa, ainda demos umas voltas por algumas ruas a ver se por sorte encontrávamos logo o cemitério. Mas nada. Perguntámos a três pessoas pelo caminho. Três pessoas isoladas cuja única característica em comum seria serem relativamente jovens. Ninguém sabia. Foi preciso encontrarmos um casal de anciãos para que o caminho nos fosse indicado certinho e com várias alternativas.

O cemitério, construído no séc. XIX com o mar na vizinhança, vale mesmo a visita artística e respeitosa. É um verdadeiro museu, dividido em vários departamentos e ilhas, marcados por ruas longas de “edifícios” de nichos-jazigos, cada um com a sua decoração de memórias, saudades e homenagens. Nenhum, porém, como El Santet, nome por que é conhecido Francesc Ambrós, jovem falecido nos finais do século XIX. É a mais visitada das tumbas e isso muito se deve à sua fama de “santinho” (em catalão, santet). Ocupa vários compartimentos recheados de flores, e dos mais diversos itens, dos mais normalmente religiosos aos mais surreais (para o local), incluindo um ursinho a bater pratos ou um cinzeiro. São objectos deixados por quem pede a sua intervenção divina. Uma caixa recolhe centenas de mensagens manuscritas.

Pelo cemitério, há muito mais que ver – são dezenas de obras fúnebres criadas por grandes artistas e arquitectos – mas o auge do passeio é a estátua do “Beijo da Morte”, uma celebridade que é uma espécie de Mona Lisa dos cemitérios. É um portento gore criado (no atelier de Jaume Barba, talvez pelo próprio ou pelo discípulo Joan Fontbernat) em 1930: um fatal anjo em forma de esqueleto alado agarra e beija um jovem belo como um deus grego. Num marmóreo branco imaculado, é a homenagem de uma família a um filho morto. A imagem tem corrido mundo e alcançou uma fama que até tem direito aos seus mitos: diz-se, por exemplo, que influenciou Bergman para a criação da obra-prima (naturalmente sobre a vida e a morte), O Sétimo Selo.

Enquanto passeamos por áreas de mausoléus e jazigos que parecem esquecidos como obras de arte no armazém de um museu, um hola começa a ecoar repetidamente pelo cemitério, agora já vazio de visitantes. Hola, hola. É um grito continuo, quase assustador. Hola, hola. A voz aproxima-se e, assim que nos acha, conduz-nos a alta velocidade para um portão de saída. Passam quinze minutos das seis, hora de fecho. A segurança, decerto zangada por a estarmos a atrasar, nem às minhas moltes gràcies responde. E, como retribuição ao meu adéu, só ganho um olhar que era capaz de me matar logo ali.

p.s. – Para relaxar da dimensão da morte, siga para a vida imparável da linha de praias. É descer uns minutos em direcção ao mar. Para quem quer uma visita ainda mais impactante ao cemitério, é verificar a agenda: de vez em quando há visitas nocturnas guiadas. Há mais informações no Turismo de Barcelona.

2 comentários a O beijo de Barcelona entre a vida e a morte

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