Rambla-me os olhos até ao mercat

“Posso tirar-lhe uma foto?”, pergunto à senhora de caracóis cansados que toma conta de uma bela banca de peixe no caleidoscópico Mercado de La Boquería. “Ao peixe, sim”, responde, algo surpreendida. Não estará habituada a que lhe façam tal pergunta. Neste portento turístico, uma das mecas da Rambla-Rambla de Barcelona, estará mais habituada a sentir o contínuo safari das câmaras dos milhares de turistas que disparam máquinas em todas as direcções e apontam como se tudo fosse caça. “Já está cansada de tanta foto, imagino”. Um cabecear da cabeleira loiro-grisalho, um respirar fundo e um sopro de ar tomam o lugar de um “sim” certeiro. Mas tanto eu, turista, como esta moderna peixeira, agora com meio sorriso e até a posicionar-se quase profissionalmente para o retrato, sabemos que tudo isto faz parte do jogo. A Boquería ascendeu ao olimpo das atracções turísticas e, definitivamente, merece-o. Até os viajantes que gostam de fugir do ‘very typical’ não conseguem escapar-se ao seu magnetismo. Sob a grande e centenária estrutura metálica modernista, brilhando brasões e pórtico imponente, explodem frutas, carnes e peixes em arrumações imaculadas, em quadros coloridos de encher o olho.

Às 5 da tarde, fugindo de uma chuvinha chata e de uma rambla que parece um metro para turistas em hora de ponta, mergulhamos na Boquería que, surpresa, parece um metro para turistas em hora de ponta.  As primeiras bancas do mercado cumprem o seu papel de chamarizes coloridos (com preço à medida). Mas é ir entrando. O mercado vive entre o seu peso turístico e a sua normal ocupação de bairro. Uma esquizofrenia, afinal, típica de lugares assim. Mas, atenção, o mercado é real, não é coisa só para turista ver. É coisa até de muitas gerações (um dos stands diz mesmo “há quatro gerações aqui”) e a minha peixeira sabe que parte do seu trabalho é continuar a criar perfeitas e belíssimas arrumações dos seus peixes. Tal como os seus colegas: alguns, por higiene e descanso do design, ostentam grandes e repetidos avisos de Não Mexer!, “no tocar! do not touch!”. E a venda continua.

Se as frutas são o que mais alegra o olhar, há muito mais aqui para fazer. Do peixe às carnes, dos frutos secos aos enchidos tradicionais, de mariscos e mariscões a ovos e ovinhos, de cogumelos extraordinários a balcões de tapas. E faça-se um intervalo: repetidas vezes nos aconselham a provar as criações do Quim de la Boquería, toda uma figura e um chef das tapas de mercado. Lá passamos e bom ar, asseguramos, tinha. A agenda já não permitiu provas mas ainda temos esperança. Fica a dica (e atenção que o negócio do Quim, já celebridade local e internacional, tem mesmo site oficial e Facebook) .

Aliás, não só o Quim. O mercado também. Seja em site, seja em aplicação para telemóvel, tudo o que quiser saber ou ver da Boquería tem vida digital. Não em vão, lemos, a associação de comerciantes do mercado recebeu recentemente o prémio de melhor iniciativa colectiva dado pelo Governo catalão. Com sorte, entre a agenda que inclui ateliers e cursos culinários, até se pode apanhar algum chef famoso.

E, sublinhe-se, se é certo que as vistas alegram, mais alegra ver um mercado vivo e vibrante. E saber que o filão é apoiado pelas autoridades locais que, entretanto, renovam outro esplendoroso mercat, o de Sant Antoni, e transformam o do bairro do Born em espaço comercial e cultural. Ambos devem ter novidades nos próximos tempos e, aposta-se, tornarem-se obrigatórios nos mapas dos turistas.

Dizem-nos que a melhor hora para visitar a Boquería é (evidentemente) logo de manhãzinha. Mas atenção aos finais de tarde: começam las ofertas. Saímos com dois sumos naturais a um euro cada, um de melancia, outro de amoras, que até nos alegraram a alma turística.

Isto enquanto íamos com um olho num morango e outro no morangão: as estrelas da tarde pelas bancas eram fresas, fresóns, maduixes – morangos extra, dulces, molt dolces. As bancas pareciam campos de morangos para sempre. E tinham a graça do preçário variar ao gosto do vendedor. Olho no morango.

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