Cada rabo, sua esquiadela


Que melhor maneira de celebrar a Primavera alpina do que com uma lição de esqui, indício quase seguro, para iniciantes e esquiadores de praia, de uns bons momentos de sku, próprios ou alheios?

Do Club Med de Valmorel, na Sabóia francesa, damos dois passos e saímos directamente do clube de esqui para o mar de neve sob um esplendoroso sol. No corpo, a fatiota protectora. Nos pés, já estão as botas. Ao ombro, o par de esquis, epicentro de toda esta relação amor-ódio.

Há que dizer que, antes de as botas calcarem a neve, já deram direito a diversões várias. É certo e sabido que, num grupo, há sempre umas botinhas que não entram ou não se ajeitam aos pés nem à força de bala. Sempre um fenómeno estranho, até porque são quase sempre experimentadas antes. “Incharam-me os pés esta manhã, só pode”, atira um. É bem possível. Depois, há também quem dois minutos depois de enfiar as botarras – de belíssimos designs, engenharias e material, diga-se de passagem – já só pense em tirá-las. E quem não consiga andar com elas, nem que viessem equipadas com rodinhas, até à neve.  Mas, com mais ou menos solavanco, tudo se faz.

Ok, isto é “très facile”, vai-nos dizendo o nosso instrutor Joel do alto da sua sabedoria. Oui, oui.

Claro que eu, já com algumas aulas anteriores, adivinho-me o mais experiente dos dois grupos em que se dividem os formandos (os que falam inglês para um lado; quem prefere francês para o outro). Mais de duas dezenas de adultos tornados crianças pela graça da neve experimentam enfiar a bota num esqui. A primeira parte é mesmo só com um e não há direito a bastões. Tudo em fila, a deslizar um esqui enquanto a metro e meio deslizam com todo o profissionalismo esquiadores de cinco  ou seis anos. Uma claríssima humilhação.

Isto de deslizar com um esqui apenas não parece problemático, certo? Diga isso à minha vizinha do lado, com ar de ter visto neve pela primeira vez, após os dois bate-cus que deu em cinco minutos e que, até ao fim da lição, nunca conseguirá sequer o feito de colocar o segundo esqui. Mas leva umas boas dores no rabo de recordação.

À minha volta, caem que nem moscas. Um aterra para trás. Outra descai para o lado. A rapariga de um só esqui consegue praticamente cair para a frente. Nada que assuste, atenção. Faz parte do jogo e, na verdade, a maioria aguenta-se bem. Já com o segundo esqui, o problema é conseguir deslizar para onde se deve. Aliás, a maior parte do tempo desliza-se para trás quando se quer ir para a frente. E tente lá subir este desnível de três centímetros… Qualquer conquista vale momentos de eterna euforia. Quando eu e a minha vizinha brasileira conseguimos, após muito suor e lágrimas, colocar os esquis de lado como manda a lei e subir assim um montezito, sai-nos um “YES!” internacional em simultâneo. Temos o dia ganho. Enqunto isso, uns vão desistindo. Outros, mostram a dedicação que os levará a repetir aulas ao longo de uma semana até ficarem capazes de conquistar as pistas.

“Joelhos para dentro, joelhos para dentro”, vai-me dizendo Joel. “Eles não vão, Joel…”. Não sei como, mas o Joel há-de conseguir que os joelhos, pernas, esquis, mãos obedeçam a tudo o que ele ordena. E, lá mais para o fim, quando não só consigo subir com os esquis de lado como colocar-me em posição para a primeira descida… o clímax! “Pronto, diz Joel, mais três ou quatro dias e já desces montanhas”. Oui, oui. Mas, entretanto,  vou só ali descansar e admirar as vistas. Incluindo as da mesa de comes e bebes que os simpáticos senhores do clube vão preparando ao ar live no meio da neve…

___

Luís J. San­tos (texto) e Dário Cruz (fotos) via­jam a con­vite do Club Med e da TAP

Esta entrada foi publicada em França com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/emviagem/2012/03/28/cada-rabo-sua-esquiadela/" title="Endereço para Cada rabo, sua esquiadela" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>