Cinco noites, cinco bares

As noites de Budapeste já não são de rock & roll. O Inverno de 1991 vai longe e a famosa canção dos Mão Morta sobre a capital húngara (rever teledisco abaixo) perdeu actualidade para a electrónica e para a… reciclagem. As caves deram lugar aos kerts e agora é nos ruinpubs que a cidade se encontra à noite.

O conceito é simples e pratica-se em todo o mundo: de forma mais ou menos legal, um grupo de pessoas ocupa uma casa em ruínas e faz aí nascer um bar, uma sala de cinema, uma galeria de arte, uma feira, três pistas de dança e o que mais for necessário. Tudo no mesmo sítio, ao jeito de centro cultural para hiperactivos. Os jardins interiores são recuperados, adaptados à estação e à condição de espaços para fumadores. Salas, quartos e corredores, varandas, antecâmaras e alpendres, terraços e casas de banho são redecorados de acordo com o espírito da casa nova. O que pode significar uma pintura em cores vivas, lisas (na versão up), ou o recurso a graffiti e a mobiliário recuperado do lixo (na versão mais original).

Os ruinpubs não são uma novidade em Budapeste: vai para mais de uma década que começaram a impor-se na vida nocturna da cidade, embora nem sempre de forma pacífica (vizinhos). Um dos mais antigos, talvez o mais popular, é o Szimpla. Foi aí que bebemos as primeiras cervejas depois de chegar à Hungria (mentira: a estreia aconteceu umas horas antes, à tarde, durante a celebração irlandesa do dia de Saint Patrick – mas isso não conta para esta história). Com dois andares, este kert está retalhado em pequenos e grandes espaços, permitindo experimentá-lo de formas muito diversas, completamente aberta ou mais privada. A cerveja vem ao meio litro de cada vez, como em qualquer outro local por estas paragens, e é relativamente barata, por comparação aos preços a que estamos habituados em euros.

Numa semana em Budapeste, conseguimos passar por mais três destes bares: o Instant, o Doboz e o Corvintető. O primeiro é idêntico ao Szimpla (o que não invalida a visita a um ou a outro); o segundo é onde se cruzam os perfumes mais adocicados e os olhares estão mais marcados a lápis (e onde experimentámos Pálinka pela primeira vez. É uma bebida magiar de elevado teor alcoólico, uma espécie de vodka húngara); o terceiro tem como principal atractivo o terraço com vista sobre a cidade (não muito deslumbrante, mas generosa) e o facto de, enquanto ouvimos uma electrónica aguçada e os outros dançam, podermos rever Kill Bill. Mas há mais. Só o site Ruinpubs.com, fundado em 2009, reúne 14.

Comum a todos estes bares é o espírito retro e as peças de mobiliário e decoração vintage. No entanto, nenhum vai tão longe no regresso ao passado como o Keret, aos anos 1960 norte-americanos, à cultura hippie e a um tipo de abertura comunitária que não relacionamos com as grandes cidades europeias. Isto a acreditar na história relatada no Spotted by Locals, que não tivemos oportunidade de verificar. E a história do Keret é esta: em 2007, um casal abriu um bar clandestino no seu próprio apartamento e, na festa de inauguração, deu chaves aos cerca de 200 convidados presentes e disse-lhes que estavam à-vontade para ali entrar, entre as 19h e as 23h, sempre que quisessem. Assim o têm feito até agora. Quem lá chega e quer entrar, basta tocar à porta. Durante o Verão (de Junho a Outubro), está fechado. Motivo: férias.

Voltando aos Mão Morta, para fechar, mais informamos que por cá as “mini-saias a matar” continuam na moda.

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