O tributo eclesiástico de Budapeste

A basílica de Szent István (Santo Estêvão) estava na lista dos monumentos a visitar desde que marcámos a visita a Budapeste. E, uma vez por cá, era difícil evitá-la: o edifício impõe os seus 96 metros de altura na linha do horizonte e serve como inevitável ponto de referência nos passeios pela cidade. Deste lado do rio, Peste, ou do outro, Buda. O único edifício que rivaliza em altura com a basílica é o do Parlamento, com os mesmos 96 metros (é simbólico: o Estado e a Igreja são igualmente importantes). São os dois mais altos da capital húngara e a lei impede construções mais altas.

O monumento é sobejamente conhecido dos livros, dos compêndios de arquitectura neoclássica, das sugestões de amigos, dos guias. Quem tenha sentido o menor interesse pela História da Hungria e perguntado ao Google sobre o início do reino associado à nação magiar, quem o tivesse feito daria de caras com a figura de Estêvão I, primeiro rei do país e o responsável pela adesão húngara ao catolicismo (no ano 1000). A ligação é directa: canonizado em 1083, Estêvão I é o patrono da basílica e é ali que se conserva a sua mão direita (incorruptível, conta a lenda) mumificada, quase um milénio após a sua morte.

É possível visitar toda a basílica de Szent István online, de forma gratuita. Tanto o interior como a famosa relíquia. O que é mais do que os turistas que se apresentam às suas portas podem dizer. A entrada é paga: 200 forints ou um euro (que vale cerca de 290 forints). A amiga Olga tinha avisado dois dias antes e dado uma dica para nos furtarmos ao imposto que nos iriam cobrar num rasgadíssimo sorriso e frenesi anfitrião. Aconselhava a que, como ela e comitiva, nos socorrêssemos de Jesus e da história dos vendilhões do templo. “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”, disse Cristo, segundo São João. Anotámos.

Chegados ao balcão-bilheteira que impede os visitantes de avançar para a nave da basílica, logo após a porta, perguntámos ao padre de serviço o que pretendia ele de nós, para que pudéssemos seguir com a visita. Duzentos forints. Ou um euro. Era à escolha. Disse e inclinou a cabeça; esfregou as mãos. Antes de resgatarmos as moedas ao bolso, nova pergunta: “Está a pedir-nos para pagar para entrar na casa de Deus?” Arregalou os olhos, inquietou-se, amarelou o sorriso e fez que não percebia. Ficou entalado, rubro – e bastou-nos; pagámos e seguimos.

Vimos tudo o que nos deixaram ver (o Flickr pode dar uma ajuda na reconstituição dos nossos passos), acompanhados pelo etéreo som de um aspirador em fúria operária. O que não incluiu a mão mumificada de Santo Estêvão. Para a ver, era preciso gastar mais uma moedinha e com ela acender as luzes do relicário. Sem a moedinha tudo escuro, rien de relíquia para os turistas, crentes ou não, devotos ou não.

Curioso é que o site da basílica esteja registado no domínio .biz, normalmente reservado a negócios…

Os bancos da Szent István-bazilika, como os de outros lugares de culto desta importância, estão interditos a visitantes

2 comentários a O tributo eclesiástico de Budapeste

  1. Incomodou-se o visitante por lhe pedirem que pagasse para “entrar na casa de Deus”. Não tinha que se incomodar porque caso realmente fosse visitar Deus, não teria de pagar. Em todas as basílicas por essa Europa é assim: quem entra para uma cerimónia, não paga entrada. Quem entra para visitar, paga. Qual é a dúvida?

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