A santa Trindade e o pecado

O meu amigo bra­si­leiro cos­tuma dizer-me que “não há pecado abaixo do Equa­dor” e em ter­ras de Vera Cruz eu noto que isso em parte é ver­dade. A ten­dên­cia é para rele­var, dei­xar fluir e des­cul­par qual­quer incon­ve­ni­ente dos peque­ni­nos – que com os gran­des a malta ainda se irrita profundamente.

Ape­sar desse espí­rito “deixa pra lá”, o facto é que, neste puri­tano Bra­sil de praias à beira-montanha plan­ta­das, as mulhe­res podem exi­bir ao sol o rabo quase inteiro, ocul­tando dele ape­nas uma faixa peque­nina que não se aca­nha com qual­quer que seja o seu for­mato ou esté­tica, mas já exi­bir os seios femi­ni­nos em público é uma escan­da­leira tre­menda que motiva cochi­chos, olha­res arre­ga­la­dos e tor­ci­co­los mal disfarçados.

Foi, por­tanto, para agra­dar a uma das turis­tas do nosso grupo, muito bri­osa do seu bron­ze­ado sem mar­cas no tronco, que pro­cu­rá­mos uma praia menos con­ser­va­dora no cami­nho do Rio para São Paulo, atra­vés da costa. E foi gra­ças a esse capri­cho de menina fútil que, depois das cur­vas cheias de rada­res da ver­de­jante BR-101, a norte da deca­dente Angra dos Reis e da cidade colo­nial de Paraty, des­co­bri­mos  esse refú­gio des­po­jado, sem pre­ten­sões, que é Trindade.

O “vila­rejo” – como vem refe­rido na bro­chura turís­tica local – está estru­tu­rado em fun­ção da sua única estrada e essa tanto parece pedo­nal como repen­ti­na­mente se trans­fi­gura nou­tra coisa, quando, vindo do nada, um “ônibus” cheio de pressa faz sal­tar toda a gente para o lado, para pseudo-passeios sem linhas defi­ni­das ou piso regu­lar. O lugar faz lem­brar as aldeias bal­ne­a­res do Alen­tejo, com rue­las cheias de gente em roupa de praia, risos, música, bebi­das fres­cas, arte­sa­nato e “sou­ve­nirs”, mas aqui tam­bém há doces casei­ros à venda na rua e dorme-se em par­ques de cam­pismo mais impro­vi­sa­dos, por­que qual­quer área tér­rea serve, ou então nas pou­sa­das peque­ni­nas e modes­tas que abun­dam com far­tura, pare­cendo exis­tir porta sim, porta sim. Lá den­tro, os quar­tos podem ter mini-frigoríficos em cima das cómo­das, ven­toi­nhas de tecto a subs­ti­tuí­rem o ar con­di­ci­o­nado e tele­vi­so­res sem ima­gem defi­nida, e o que quase não há é rede tele­fó­nica ou de Inter­net, que isso aqui é coisa para esquecer.

O que inte­ressa, de qual­quer maneira, são as praias da Trin­dade. Mui­tas, que podem percorrer-se em con­tí­nuo, chegando-se até elas ou pela areia, ou contornando-se roche­dos na maré baixa ou, o que é mais bonito e espe­cial, atra­vés da mata densa, luxu­ri­ante e de decli­ves súbi­tos e acen­tu­a­dos que con­fe­rem à tra­ves­sia um tom de aven­tura – como acon­tece quando se quer ver a pis­cina natu­ral do Cacha­daço e para lá che­gar nos embre­nha­mos em 20 minu­tos de pas­sos hesi­tan­tes atra­vés desse verde car­re­gado, fron­doso, bri­lhante e cheio de vigor que é a mata atlân­tica, flora dos Trópicos.

Aqui na Trin­dade, a água é serena, a areia clara e fina, vemos os pés à trans­pa­rên­cia, há pei­xes gran­des ao alcance do toque, e tudo é limpo e puro, num estado de natu­reza que só não é total­mente bruto devido a alguns aben­ço­a­dos “qui­os­ques” onde há cai­pi­ri­nhas, sucos, queijo coa­lho e sor­ve­tes – e tan­tas que são as mar­cas de gela­dos “made in Brasil”!

Na hedo­nís­tica Trin­dade, damos por nós a pen­sar que esta é uma vida santa, que ainda há mila­gres ao pé da mão, que temos que dar gra­ças por hoje, por este boca­di­nho só, e que, daqui em diante, as coi­sas só nos podem cor­rer bem. Pecado é fazer “topless” e per­tur­bar a calma desta gente, pecado é não foto­gra­far tudo para par­ti­lhar com os ami­gos, pecado é não se agra­de­cer pelo capri­cho da menina que nos fez che­gar até aqui – e pecado maior seria eu reve­lar os outros encan­tos deste lugar idí­lico e estra­gar a sur­presa a quem ainda vier descobri-lo por si próprio.

____
Ale­xan­dra Couto é jor­na­lista e cola­bo­ra­dora da Fugas. Aqui, relata momen­tos da sua via­gem por alguns pon­tos do Bra­sil. As fotos são tam­bém da sua autoria.z

Esta entrada foi publicada em Brasil com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/emviagem/2012/02/25/a-santa-trindade-e-o-pecado/" title="Endereço para A santa Trindade e o pecado" rel="bookmark">endereço permamente.

Um comentário a A santa Trindade e o pecado

  1. Ale­xan­dra, obri­gada por par­ti­lhar estas fotos,e como des­creve o quanto de fas­ci­nante, encon­trou nesta via­gem até Trindade!Fez me sentir,com os pul­mões cheios de ar puro…cuja tam­bém vontade,e quem sabe de um dia.… con­se­guir des­fru­tar desse paraíso!!

    Grata
    Ana

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>