No Rio, o Carnaval saiu à rua – e foi choroso

Rio de Janeiro, segundo dia, menos dois graus e o corpo ainda mais pesado, que é pre­ciso andar sem carro e a rua não tem ar con­di­ci­o­nado. Fora o sono a que o calor apela, tudo corre como o pre­visto: come-se fruta ao pequeno-almoço, caminha-se de Bota­fogo para o Pão de Açú­car e já lá estão ao sol cen­te­nas de pes­soas, numa fila um boca­di­nho maior do que o cos­tume por­que é segunda-feira de Car­na­val. Numa hora de espera há gela­dos, con­versa, tele­fo­ne­mas, espanto pelos alpi­nis­tas que sobem aquele pri­meiro morro quase em ângulo recto e, de repente, entra-se no “bondinho”.

A pri­meira para­gem do tele­fé­rico é o Morro da Urca, a 220 metros de altura, onde há jacas gigan­tes, pás­sa­ros pró­xi­mos das objec­ti­vas e mais filas para a pró­xima via­gem pelos ares do Rio. Então entra-se nova­mente no tele­fé­rico e damos por nós a pen­sar em cer­tas ami­gas que fica­riam em pânico, como a turista bra­si­leira que, ao nosso lado, vai a gri­tar bai­xi­nho, agu­da­mente: “Nossa! Nossa! Santa Mãe de Deus! Qu’ideia tão má ter vindo!”

Na segunda para­gem, mesmo no Pão de Açú­car, já não se tem tanta paci­ên­cia como no pri­meiro morro, mas claro que se tiram as fotos pos­sí­veis, con­si­de­rando que aí é tudo mais aper­ta­di­nho e está lotado. “E agora que tal irmos embora, que eu ainda não vi Car­na­val de jeito e já estou cheia de estar aqui?”

É depois disso que se vai vendo que a festa já saiu à rua. São duas da tarde, está uma tosta des­co­mu­nal e come­çam a che­gar mas­ca­ra­dos ao ver­me­lho do semá­foro. Tra­zem ban­do­le­tes da Minie, tutus de bai­la­rina, fatos elás­ti­cos de Flash Gor­don, são reis e outras per­so­na­gens de época, com plu­mas, pêlos e teci­dos quen­tes. No cha­mado “Shop­ping das Esca­das”, que antes tinha uma Sears e agora nos faz zigue­za­guear de piso em piso até aos res­tau­ran­tes, há mais fan­ta­sias, mas quase todas saem para a rua sem pas­sa­rem pela espla­nada, onde só alguns turis­tas sabem que a vista pano­râ­mica per­mite fotos-postais das boas, para ofe­re­cer no Face­book a quem ficou longe.

Na rua, o cami­nho faz-se agora em direc­ção ao cen­tro do Rio. Há lixo nas ruas, cheira a urina em mui­tas delas e con­ver­sa­mos sobre a Copa e os Jogos Olím­pi­cos, que moti­vam que o Governo esteja a ten­tar aca­bar com esta “cidade deca­dente, que ainda tem o com­plexo de ter dei­xado de ser a capi­tal do Bra­sil” – pala­vras dos meus ami­gos locais, que eu não sei da missa a metade. Sinais dessa mudança com­por­ta­men­tal? Uri­nóis públi­cos em toda a parte, em maior número do que nou­tros car­na­vais; monu­men­tos envol­tos em tapu­mes com sina­li­za­ção a expli­car que a cidade está a recu­pe­rar o seu patri­mó­nio; e até um inves­ti­mento quase omni­pre­sente na “Ope­ra­ção Lei Seca”, com que se apela a um menor con­sumo de álcool.

No resto, dizem os meus acom­pa­nhan­tes que a festa con­ti­nua a mesma e só eu é que a vejo com novos olhos – vejo o povo que se aglo­mera rela­xado na Cine­lân­dia, a beber ao som de música car­na­va­leira; vejo os foliões mas­ca­ra­dos que che­gam pelo lado desse Rio mais cos­mo­po­lita, em que o edi­fí­cio da Petro­bras repro­duz uma molé­cula de car­bono e a cate­dral parece uma pirâ­mide em betão; vejo as dan­ças que se des­co­brem ao virar de uma esquina com miú­das de saias roda­das e mui­tas bate­rias; vejo os con­cer­tos nou­tra praça mais adi­ante, para um público com cara de uni­ver­si­tá­rio; e vejo depois a Ave­nida Rio Branco, cheia de gente que cami­nha em passo domin­gueiro até des­fi­lar mais um grupo de samba daque­les que não tem direito a tempo de antena na televisão.

Nessa altura, já penso que sou feliz no Rio. O cen­tro da cidade só vive Car­na­val, a música acompanha-nos as pas­sa­das e nota-se no ar uma vibra­ção estra­nha, de des­po­ja­mento negli­gente e do pri­mi­tivo ins­tinto que nos leva a não pen­sar em coisa sérias, a rele­var e a deixarmo-nos emba­lar ape­nas pelo calor e pela música.

A cami­nho de casa, há mais cai­pi­ri­nhas de mara­cujá e kiwi – “a sua ‘tá mais forte por­que o gar­çon quer-te embe­be­dar”, explicam-me – e depois é que come­çam os pro­ble­mas quando me dizem que não posso levar nada para o Sam­bó­dromo. Nada. Mali­nha de senhora? Pul­sei­ri­nha? Fio? Na-da.

Vocês estão lou­cos! Algum dia eu posso sair sem mala?” Tento expli­car que pre­ciso pelo menos da câmara, do tele­mó­vel, do porta-moedas e de um aga­sa­lho para mais tarde, e eles insis­tem: “Você não vai levar na-da. ‘Tá louca se pensa que vai com essa máquina para ser rou­bada, celu­lar nem pen­sar e frio não vai ter, que aqui nunca esta­rão 15 graus como em Por­tu­gal”. Não, não e não, e então vejo-me empur­rada para a rua sem assi­mi­lar que, logo eu que tenho sem­pre comigo a tra­lha toda, para asse­gu­rar qual­quer even­tu­a­li­dade, vou ficar na rua até de manhã vazia, sem nada que segu­rar nas mãos, de bra­ços caí­dos a dar-a-dar. A única con­ces­são foi a máquina foto­grá­fica – “só por causa da Fugas”, note-se – e mesmo essa vai numa mochi­li­nha muito dis­creta que se con­funde com a cor da t-shirt do Ricardo e à qual eu tenho que pedir auto­ri­za­ção para ace­der de cada vez que quero tirar uma foto, não vá o sítio não ser reco­men­dado para exi­bi­ci­o­nis­mos desses.

Muita gente na rua, ok, e, ao che­gar ao Sam­bó­dromo, eu acho que esse zelo foi todo um exa­gero, por­que a malta quer é pas­sear e tem pressa de che­gar à pista. Eis então que o Rei­naldo pára de repente e põe a mão ao pes­coço, onde devia estar o fio de ouro fini­nho que a mãe lhe deu em cri­ança e que ele usa sem­pre, fora da vista, sob a t-shirt. “Ten­ta­ram me rou­bar”, diz ele, apal­pando a cami­sola. Fico eu de boca aberta a pen­sar que o gatuno era mesmo hábil e logo depois ele sorri a mostrar-nos o fio que, afi­nal, ainda con­se­guiu segu­rar a tempo e aca­bou só rebentado.

Seguiu-se o roteiro da can­donga, que os bilhe­tes da ban­cada popu­lar esta­vam esgo­ta­dos e a única solu­ção era espe­rar que alguém nos topasse e se pro­pu­sesse vender-nos bilhe­tes por baixo do pano. Eu angus­ti­ada a pen­sar que cor­ria o risco de não ver o cli­ché do Car­na­val da tv e apa­rece então alguém que nos vende três pas­ses a 40 euros cada, para aque­les que são lite­ral­mente os pio­res luga­res do sam­bó­dromo. “Mas é aqui que o povão vê o des­file!” – e eu con­tente na mesma, que sou do povo e pobrezinha.

Entrá­mos quando a União da Ilha estava mesmo a aca­bar a sua apre­sen­ta­ção e essa foi a altura ideal – por­que assim eu pude sen­tir todo o impacte físico e emo­ci­o­nal do lugar, e dar por mim, “feita babaca”, de pele arre­pi­ada e olhos húmi­dos. “Mas que é que te deu? Tu nem gos­tas disto, pá!”. Dei gra­ças pelas pau­sas ao cami­nho, por todas as cir­cuns­tân­cias que nos fize­ram abran­dar ou ace­le­rar o passo. Por­que assim che­guei na hora exacta e evi­tei a desi­lu­são que seria – naquele ponto espe­cí­fico do fim da pista, ao lado das ban­ca­das com luga­res a 100, 300 ou 600 euros — ouvir a música no ar e só avis­tar à minha frente uma pista deserta, à qual os dan­ça­ri­nos demo­ra­riam mais de 20 minu­tos a chegar.

O sam­bó­dromo é aquele mito da infân­cia, em que durante a tarde nos fan­ta­siá­va­mos de via­nen­ses mas a altas horas da noite pará­va­mos para ver o Car­na­val do Rio em directo, como se aquele fosse o lugar mais mágico do mundo nesse dia. Ontem, con­tudo, não vi os pla­nos de por­me­nor das tele­vi­sões, os voos rasan­tes que as câma­ras móveis fazem sobre o cor­tejo, a pele bri­lhante das bai­la­ri­nas de plu­mas que são capa de revista. Repa­rei antes que a Esta­ção Pri­meira de Man­gueira, suces­si­vas vezes cam­peã, foi este ano algo ata­ba­lho­ada, num des­file de ritmo irre­gu­lar em que cen­te­nas de foliões des­li­za­ram mais rápido do que outros tan­tos, deixando-nos com tro­ços de pista vazia por mais tempo do que gostaríamos.

Ontem repa­rei tam­bém na logís­tica monu­men­tal do evento, com ave­ni­das veda­das para con­cen­tra­ção das esco­las, gruas que colo­cam e reti­ram os bai­la­ri­nos nos pon­tos mais altos dos car­ros ale­gó­ri­cos, o estú­dio trans­pa­rente da Globo, mon­tado mesmo no final da pista, os téc­ni­cos que lim­pam todo o piso do cor­tejo entre uma escola e outra, e os cro­nó­me­tros que exi­bem o tempo do des­file, para que os gru­pos acer­tem o passo de forma a que o corso demore exac­ta­mente entre 65 e 82 minutos.

E o mais impor­tante é que ontem emocionei-me a segunda, a ter­ceira, a quarta vez, sem­pre dis­far­ça­da­mente, por­que a melo­dia dos Uni­dos da Tijuca vai ficar-me para sem­pre no espí­rito mesmo que eu não tenha per­ce­bido nada da letra; por­que os car­ros dessa escola eram com­ple­xos e joa­ni­nos, e eu apre­cio a carga de tra­ba­lho que ali está; por­que essa nem é a maior escola do Rio, mas faz-se de milha­res de pes­soas que dan­çam só para as ver­mos peque­ni­nas ao longe e às vezes fazem-no em posi­ções des­con­for­tá­veis, com ges­tos rigo­ro­sos e con­tro­la­dos, só para nosso deleite visual.

Ontem emocionei-me mesmo, feita estú­pida, quando o último grupo de bai­la­ri­nos da Man­gueira se dei­xou ficar um boca­di­nho de mais na pista e o povo se foi levan­tando nas ban­ca­das, num cres­cendo de agi­ta­ção que eu não per­ce­bia de onde vinha. E então repa­rei que o cro­nó­me­tro ofi­cial mar­cava 1h21 minu­tos e que toda a gente gri­tava, afi­nal, para eles dan­ça­rem mais rápido e mais para a frente, por­que era pre­ciso pas­sar o por­tão da pista e eles seriam pena­li­za­dos se não o fizes­sem antes de o reló­gio mar­car 1h23.

Eu sei que os bai­la­ri­nos fica­ram ali de pro­pó­sito, a empa­tar, como que a tes­ta­rem o nosso entu­si­asmo. Mas o que inte­ressa é que à 1h22 a Man­gueira saiu da pista, o por­tão fechou-se a cor­rer atrás dela e o sam­bó­dromo ficou ao rubro, em delí­rio, que aquele último passo foi de nós todos! Nesse segundo pre­ciso, eu ri-me como uma cari­oca, e aplaudi de pé, e gri­tei, e cho­rei outra vez feita idiota.

A feli­ci­dade está nas coi­sas peque­nas e um por­tão que se fecha na hora certa é uma ale­gria imensa, explo­siva, daque­las que ficam con­nosco a vida toda!

____

Ale­xan­dra Couto é jor­na­lista e cola­bo­ra­dora da Fugas. Aqui, escreve em directo do Rio de Janeiro, uma das esca­las de uma via­gem de dez dias pelo Bra­sil. As fotos são tam­bém da sua autoria.

Esta entrada foi publicada em Brasil, Rio de Janeiro com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/emviagem/2012/02/21/no-rio-o-carnaval-saiu-a-rua-e-foi-choroso/" title="Endereço para No Rio, o Carnaval saiu à rua – e foi choroso" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

*

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>