Carnaval no Rio? Cadê? Só se for disfarce de praia!

Praia de de Ipanema vista do Arpoador

Não é a coisa mais simpática para se dizer da capital mundial do Carnaval, mas o Rio de Janeiro, quanto a folia de antecipação, é mentira!

Nove da manhã, céu limpo, 32 graus centígrados. A Lagoa Rodrigo de Freitas ainda está calma e, multidões, só perto da entrada no “Bondinho”, para o Pão de Açúcar. Percorre-se Copacabana a pé, pára-se para a primeira caipirinha do dia – de limão, carregadinha de açúcar – e é esse o verdadeiro consolo de alma que compensa aquele passeio largo de calçada portuguesa, que só será giro para quem o observa de helicóptero ou o fotografa em plano picado a partir de um apartamento bem elevado, porque para o povinho que cá anda hoje – para o “povão”, aliás – aquilo é só uma marginal plana, cravejada de gente em trajes menores e com as carnes todas de fora, qualquer que seja a qualidade do produto.

Montras decoradas para o Entrudo? Aqui só há disso em quiosques ambulantes e a coisa quase se limita a imitações dos colares de flores do Tahiti! Fantasias de Carnaval? Em milhares e milhares de pessoas, só houve um bebé trajado a rigor, dois teenagers a caminho da praia com cabeleiras de carapinha, um grupinho de Irmãos Metralha com fatos de presidiários frescos e um ou outro mascarado perdido na rua, sem convicção ou entusiasmo, em disfarces remediados ou só com um adereço discretinho, que só dá mais nas vistas quando o detentor é um estrangeiro, de pronunciado sotaque inglês .

Por Ipanema

“Carnaval, p’ra muito brasileiro, é mais um feriado só”, explica um paulista com raízes no interior. “O povo aproveita p’ra descansar, viajar p’ra fora, fazer praia…”.

A verdade é essa: se em Ovar, Torres Vedras, Estarreja, o domingo à tarde é de desfiles organizados, no Rio os dias da época de Carnaval são só praia. Saindo do restaurante do almoço em direcção a Ipanema, os prédios que ladeiam a estrada ocultam-nos a visão e é quando ela acaba que caimos “na real”: o Rio está todo apertadinho na areia, claustrofobicamente encostadinho ao vizinho, numa praia que nunca foi pequena mas hoje até parece. A visão chegaria a assustar não fosse o espírito “boa onda” que se nota em toda a gente, assim alheia a esses 32 graus sem vento, e o que se estranha mais é que, sendo tão pouco o espaço vago no areal, o mar esteja quase desabitado.

“É que a água do Rio é gelada”, explica o meu acompanhante, muito sério. E eu nem páro para lhe explicar como o mar de Espinho me faz doer os ossos e sigo caminho, sempre à espera que daqui a “mais um pouquinho” haja mais espaço e eu possa ir molhar os pés; sempre à espera que daqui a “mais um pouquinho” haja mais sombra fresca; sempre à espera que daqui a já-já-já eu possa beber mais qualquer coisa gelada e sentar-me a apreciar esta loucura de gente que não tem mais que peça do que uma faixa pequenina de areia – ou, à falta disso, uma faixa pequenina de muro ou calçada, que qualquer lugar lhes serve para se estenderem ao comprido, sem qualquer prurido quanto aos milhares de pés em havaianas que caminham por todo o lado, mesmo ali a rasarem-lhes a pele. O cenário prolonga-se pela Avenida Atlântica e até quem já viveu no Rio confessa: “Nossa, este ano é de mais! Assim desse jeito hoje ninguém diz que Copacabana é bonito!”

E então pára-se para outro suco e ouve-se o Carnaval a chegar. O forró não engana, segue-se a direcção dos decibéis e lá está o “trio eléctrico de um bloco de Carnaval”, que é como quem diz um autocarro com músicos em cima e mais alguns bateristas a pé, a abrirem caminho com a ajuda de uns 30 polícias que desviam o trânsito para o povo poder dançar –  sendo que os 30 polícias são quase tantos como os foliões que se deixam ficar sem grande entusiasmo junto ao eléctrico, cujos animadores também já parecem ter dado à causa tudo o que havia para dar.

Carnaval no Rio, portanto, é para esquecer. Está reservado para o sambódromo, à noite, e mais vale mudar de cenário.

É entao que, na viagem para Niterói, a cidade se revela mais serena, bonita e verde. Começa a descobrir-se no Aterro do Flamengo, limpo e novo; define-se melhor na ponte sobre a Baía de Guanabara, cheia de morros recortados no azul e cruzeiros gigantescos a rasgarem o mar; e confirma-se toda na linha de costa junto a esse disco voador com que Oscar Niemeyer marcou, de forma depurada e simples, um recanto tranquilo, sossegado – domingueiro, afinal – em que há churrasco na praia, buracos na areia para as criançaas e, claro, essa coisa linda que é a vista para o Corcovado, o Pão de Açúcar e todos aqueles morros fofos, que parecem de brincar.

Diz-se aqui que o melhor de Niterói é a vista para o Rio de Janeiro. Pode ser. Se calhar é mesmo por essa paisagem deslumbrante que eu acho mais justo que seja Niterói a cidade realmente “maravilhosa, cheia de encantos mil”. Porque oferece essa vista magnífica sem exageros de gente, está cheia de pescadores que manobram a cana com cuidado entre a copa das arvores, tem praias vagas em que os miúdos jogam pelada entre “traves de gol” marcadas a chinelos e serve ao pôr do sol caipirinhas de maracujá das potentes, acompanhadas com linguiça e salada de cebola regada a azeite Gallo. Sim, azeite do nosso, do português, que até nisso Niterói me soube bem.

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Alexandra Couto é jornalista e colaboradora da Fugas. Aqui, escreve em directo do Rio de Janeiro, uma das escalas de uma viagem de dez dias pelo Brasil. As fotos são também da sua autoria.

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