O primeiro treinador de David Beckham

Stu­art Underwood (Foto­gra­fia: Miguel Manso)

Reg­gae Beach, St Kitts & Nevis, algu­res nas Caraí­bas, numa espla­nada tosca de madeira, com um pequeno gre­lha­dor à frente de onde saem ham­búr­gue­res, frango assado e entre­costo. Bebe-se Carib, a cer­veja local e não há luga­res vazios por­que tinha come­çado a chover.

A con­versa começa de forma rela­ti­va­mente sim­ples, uma per­gunta à empre­gada sobre a herança bri­tâ­nica da ilha. Da mesa ao lado res­ponde uma senhora com sota­que bri­tâ­nico. É Betty quem fala. A res­posta é afir­ma­tiva e é o ponto de par­tida para a troca de cro­mos, o que, nas Caraí­bas e entre turis­tas, é igual a dizer, que ilhas é cada um visi­tou e que vai visitar.

Sim, é o nosso pri­meiro cru­zeiro. Olhe, nós já esti­ve­mos em Por­tu­gal, fomos até Setú­bal, de carro, desde Ingla­terra”, res­ponde Stu­art. A pró­xima per­gunta do inglês para os por­tu­gue­ses é: “Gos­tam de fute­bol?” Logo a seguir: “Fui o pri­meiro trei­na­dor do David Beckham, estive com ele desde os sete até aos 16 anos, quando ele foi para Man­ches­ter United.”

Stu­art Underwood, 74 anos, adepto do West Ham Uni­ted, é um homem alto, cerca de 1,85m de altura, antigo guarda-redes que nunca jogou na pri­meira divi­são. Tam­bém nunca foi trei­na­dor pro­fis­si­o­nal, ape­nas trei­nava miú­dos. Ainda nos anos 80, Stu­art pôs um anún­cio no jor­nal para fazer trei­nos de cap­ta­ção no Rid­geway Rovers. “Apa­re­ce­ram 44 miu­dos no campo, fica­ram 18 e cinco tornaram-se pro­fis­si­o­nais. O David apa­re­ceu com uma cami­sola do Man­ches­ter Uni­ted e disse-me logo que era no Uni­ted que ele que­ria jogar”, recorda Stuart.

O talento era evi­dente desde os pri­mei­ros momen­tos, acom­pa­nhado de dis­ci­plina de tra­ba­lho e von­tade de apren­der: “Era um dos que se des­ta­cava. Não era um joga­dor rápido, daque­les que passa um adver­sá­rio em velo­ci­dade ou tem dema­si­a­dos tru­ques, mas o passe e o remate eram excep­ci­o­nais, nunca tinha visto nada assim. Tinha uma téc­nica extra­or­di­ná­ria. E sem­pre foi um rapaz que ouvia o que eu tinha para dizer.”

A qua­li­dade de Beckham e dos outros rapa­zes do Rovers atraia a aten­ção dos olhei­ros dos mai­o­res clu­bes ingle­ses. O Tot­te­nham ou o Norwich foram alguns dos que ten­ta­ram ficar com Beckham ainda em novo, mas Stu­art con­se­guiu con­ven­cer os pais que era melhor para o jovem joga­dor ficar na sua equipa por­que cor­ria o risco de ser igno­rado pelos treinadores.

O papel de Stu­art na vida des­por­tiva de Beckham aca­bou quando ele foi em defi­ni­tivo para o Uni­ted aos 17 anos. Ainda cum­priu um ano empres­tado ao Pres­ton North End, mas foi logo para o banco da equipa prin­ci­pal uma semana depois de ter regres­sado a Old Traf­ford. Não demo­ra­ria até se fixar na equipa de Alex Fer­gu­son tal como mui­tos outros de uma talen­tosa gera­ção de joga­do­res com Ryan Giggs, os irmãos Neville, Paul Scho­les ou Nicky Butt.

E o resto, como se diz, é his­tó­ria. Títu­los, fama, dinheiro. No Uni­ted, no Real Madrid, no AC Milan, nos Los Ange­les Galaxy. “Para ser honesto, fiquei sur­pre­en­dido que ele se tenha dado tão bem. Sabia que ele era bom, espe­rava que ele se desse bem, mas não acre­di­tava que ele fizesse aquilo que fez”, diz Stu­art, agra­de­cido a Beckham por nunca se ter esque­cido dele, che­gando a compará-lo a um sar­gento: “Sem­pre fui duro com os miú­dos, tal­vez dema­si­ado para alguns, mas não que­ria que eles ganhas­sem maus hábi­tos. Sinto orgu­lho por ter con­tri­buído para a car­reira do David e agradeço-lhe que ele nunca se tenha esque­cido de mim. Convidou-me para o casa­mento, para uma festa durante um Mun­dial e fala muito de mim em entrevistas.”

Já tinha parado de cho­ver e a con­versa estava quase no fim. Betty já tinha ido para o sol e Stu­art, ainda com o gra­va­dor do jor­na­lista ligado, faz a reve­la­ção: “Há qua­tro ou cinco anos que tenho can­cro. Sinto-me bem, tirando umas dores que tenho às vezes, e quem me conhece diz que tenho bom aspecto.”

A doença não é um assunto que Stu­art, que ainda treina equi­pas de cri­an­ças, queira desen­vol­ver e a con­versa acaba como come­çou, o amor que tem ao fute­bol. “Ado­rei todos os segun­dos que pas­sei no fute­bol. Ado­rava ter sido pro­fis­si­o­nal. Foi fan­tás­tico. E a minha mulher aguentou-me durante 47 anos com o fute­bol ao lado, o que não é nada fácil.”

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Marco Vaza (texto) e Miguel Manso (foto­gra­fia) via­jam pelas Caraí­bas a con­vite de Melair/Celebrity Crui­ses e da TAP

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