Esqui “by night”


Cada um é para o que nasce – e eu não nasci para o esqui, está visto.

Penso nisto quando estou a salvo, no spa do Hotel La Sivolière. Depois de um dia inteiro com as botas de esqui enfiadas, não podia pedir melhor recompensa do que uma massagem de relaxamento. Dura uma hora e Michèle deixa-me os músculos preparados para aguentar o embate do esforço nos próximos dias.

Caiu entretanto a noite e hoje é dia de “Verdons at night” – que é como quem diz, de pistas de esqui abertas entre as 18h e as 20h. Para mim, é tempo de vestir o fato de espectadora. São 18h52 e o termómetro marca 12 graus negativos – desde que cheguei a Courchevel nunca senti tanto frio. A caneta, gelada, não desliza no bloco de notas e não me resta alternativa que não seja gravar tudo com os sentidos.


É um belíssimo espectáculo, observar este esqui nocturno. O céu está escuro, a neve branca, branca, brilha sob os holofotes deste fim de pista e quem termina aqui a jornada exibe um genuíno sorriso de satisfação. “C’est super, super!”, comenta Jean Christophe com os amigos. São de Paris, “habitués” nas estâncias de esqui, mas só hoje se estrearam no esqui nocturno. Olham para o relógio e calculam que ainda têm tempo para mais uma descida. Despedem-se, apressados, e tomam as gôndolas.

Faço o mesmo daqui a nada, num acto quase irreflectido: os meus companheiros de viagem vão descer a esquiar e percebo então que vou ter de voltar sozinha. Medo, muito medo. Subir custa menos, tenho companhia e sempre me distraio das vertigens. Lá em cima, abandono a gôndola para vê-los deslizar montanha abaixo. De repente, sou quase só eu. Há dois ou três grupos de esquis nos pés – mas ninguém para apanhar boleia para baixo. Pânico – e o pânico impede-me de apreciar a solidão da montanha.


Respiro fundo e entro na gôndola, gelada a esta hora – o relógio marca 19h27 quando começa a descida. Fecho os olhos com força e tento esquecer-me que estou aqui sozinha, a uns bons metros do solo e do topo das árvores cobertas de branco. Algures, alguém estará a rir-se de mim: a banda sonora dentro da cabina não podia ser mais adequada. “I’m on the highway to hell…” Na “mouche”.

São sete penosos minutos até alcançar terra firme. Saio da gôndola logo que posso e caminho pelas ruas de Courchevel, que, a esta hora, com todas as luzes acesas, mais parece uma vila de eterno Natal. Cai uma espécie de chuvinha cristalizada, faz um frio dos diabos, mas estou contente por ter os pés bem assentes no chão.

Tudo está bem quando acaba bem.

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San­dra Silva Costa (texto) e Enric-Vives Rubio (fotos) via­jam a con­vite da TAP e do Hotel La Sivolière

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