Portugal-Dakar Challenge: A ratoeira da areia

É certo e sabido por todos os que andam ou que já alguma vez anda­ram no todo-o-terreno. A che­gada à areia traz atas­canço na certa. Sobre­tudo quando a mai­o­ria achou que não valia a pena redu­zir a pres­são de ar dos pneus por­que o grau de difi­cul­dade dos rios are­no­sos que se tinham pela frente não impu­nha tal medida. Ou assim o achavam.

Só é pre­ciso que um único comece a cavar. Por uma hesi­ta­ção, uma mudança mal metida, um chei­ri­nho de tra­vão. A par­tir daí, é carro sim, carro sim. E mesmo os que pare­cem pas­sar ile­sos, aca­bam por cair na rato­eira. Tal­vez ins­pi­ra­dos pela auto­con­fi­ança de quem aca­bou de atra­ves­sar o Sara sem mácula.

Há quem con­siga esca­var a sua saída ape­nas tirando ar aos pneus (e até saia dis­pa­rado para que não se repita o desaire que dá sem­pre azo a algum gozo de quem assiste, mis­tu­rado com alguma brin­ca­deira e, claro, de regis­tos para a pos­te­ri­dade) e quem pre­cise de uma ajuda extra. Quando o caso não é grave, um guin­cho de um outro qual­quer veí­culo pode ser a solu­ção – e foi essa a res­posta para vários. Mas há tam­bém casos mais com­pli­ca­dos, em que mesmo um con­junto de guin­chos pre­cisa de uma mão­zi­nha extra. Ou, melhor, de uma pá de apoio (e pelos dois exem­plos abaixo des­cri­tos parece ser este um ele­mento essen­cial para quem anda nes­tas andanças).

Pri­meiro foi um carro junto ao mar, que se pas­se­ava, junto à aldeia pis­ca­tó­ria onde dor­mi­mos de domingo para segunda, para obser­var caran­gue­jos e aves. O lodo não per­doou e depressa o cha­mou a si.
A BT-50, o pri­meiro carro a acu­dir, desis­tiu, cor­rendo o risco de tam­bém lá ficar. O segundo, o Range Rover onde a Fugas seguia, quase voou ao per­ce­ber via rádio a urgên­cia: o Land Crui­ser estava a afundar-se, a cada minuto que pas­sava, na areia. E a maré have­ria de subir. Mas, lá che­gado, depressa com­pre­en­deu a arma­di­lha que o ter­reno repre­sen­tava. E o guin­cho, quando acci­o­nado, trouxe mais desâ­nimo, ao reben­tar e fun­ci­o­nar como um chi­cote. Che­gou um ter­ceiro veí­culo, um Toyota HDJ, cujo guin­cho pare­cia dar con­fi­ança sufi­ci­ente para sacar o bicho atolado.

Mas o caso agravava-se a cada ins­tante e foi pre­ciso recor­rer a uma das tais essen­ci­ais pás. Escavou-se de frente, de lado, por baixo. O lodo pare­cia estar deci­dido a engoli-lo. Segundo carro ancora ter­ceiro; ter­ceiro dá guin­cho à vítima; vítima prende o seu pró­prio guin­cho ao ter­ceiro. Não chega. Seria neces­sá­rio um quarto guin­cho a puxar para, ao fim de um tempo – que pare­ceu inter­mi­ná­vel, par­ti­cu­lar­mente para o pro­pri­e­tá­rio do Toyota – se dar a bata­lha por vencida.

Desde este inci­dente até à bor­bu­lhante St. Louis, ainda have­ría­mos de apa­nhar outro grande susto. Tão grande quanto o camião. E a ape­nas uns dez minu­tos da fron­teira entre a Mau­ri­tâ­nia e o Sene­gal, país a que che­gá­mos ao 13.º dia de via­gem (mas que esti­ve­mos quase, quase a não che­gar: a fron­teira fechava às 18h e às 17h20 já íamos com cinco ten­ta­ti­vas de puxar o camião do lodo sem quais­quer pro­gres­sos positivos).

© Nata­cha Brigham

Pou­cos per­ce­biam como teria aquele que pas­sou os últi­mos dias a safar tudo e todos se enfi­ado num “buraco” daque­les. Bas­tou um segundo para a roda dian­teira direita res­va­lar e a par­tir daí só houve a ten­ta­tiva – bem-sucedida, feliz­mente para a Fugas que seguia a bordo – de segu­rar o pesado que se foi arras­tando e mer­gu­lhando no lodo. Pri­meiro estava a ser ape­nas chato tal acon­te­cer. Mas quando o pos­sante guin­cho se reve­lou frouxo, foi pre­ciso recru­tar mais do que o Defen­der e o HDJ 100 que esta­vam pron­tos a aju­dar. Os refor­ços che­ga­ram da fron­teira sob uma nuvem de fuma­rada: um TD5, um Pajero, um HDJ 80.

Posicionaram-se por trás, mon­ta­ram guin­chos. Nada. Muda­ram para a frente, vol­ta­ram a unir via­tu­ras. E nada. Cavaram-se trin­chei­ras, limpou-se o ter­reno à volta dos pneus. E tudo na mesma. Da fron­teira iam che­gando ins­tru­ções para que qual­quer pes­soa que não esti­vesse a fazer nada se diri­gisse à saída da Mau­ri­tâ­nia. O pro­blema é que não havia con­du­tor de mãos a aba­nar. Os que não tinham guin­cho para aju­dar, não se fize­ram roga­dos e pega­ram nas pás. E os outros tinham por­que tinham de regis­tar o momento – além de for­ma­rem uma espé­cie de equipa do apoio moral. Terá sido à quinta ten­ta­tiva que se con­se­guiu res­ga­tar o camião à lama que se estava a trans­for­mar em pedra mais depressa do que pode­ría­mos supor. Às 17h30, os car­ros arran­ca­ram ver­ti­gi­no­sa­mente em direc­ção à saída da Mau­ri­tâ­nia. Cerca de dez minu­tos depois, a longa cara­vana final­mente ficava com­pleta. Bie­ve­nue au Senegal!

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Carla B. Ribeiro acom­pa­nha o 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, a con­vite da orga­ni­za­ção, de 30 de Dezem­bro a 13 de Janeiro. Infor­ma­ções gerais sobre o evento no pri­meiro post

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