Portugal-Dakar Challenge: Todos na Terra de Ninguém

Na Terra de Ninguém

Sete horas. Mais coisa, menos coisa. Foi esse o tempo que levá­mos a sair de Mar­ro­cos e a entrar na Mau­ri­tâ­nia. Qua­tro qui­ló­me­tros, desde o último posto de abas­te­ci­mento, já a ape­nas alguns pas­sos da porta de saída do pri­meiro país, mas ainda a um mundo de dis­tân­cia do segundo. E nem as seis horas da alvo­rada nos per­mi­ti­ram des­pa­char um pouco mais depressa.

Ainda do lado de Mar­ro­cos, há TIR de várias naci­o­na­li­da­des cola­di­nhos uns aos outros, dis­tri­buí­dos por várias filas, alguns car­ros ava­ri­a­dos – como o caso de um modelo a gaso­lina que teve direito a uma refei­ção die­sel para depois o seu pro­pri­e­tá­rio aca­bar com o petisco de desar­ru­mar a imensa baga­gem que nin­guém per­cebe de onde sai (e muito menos como vol­tará a caber) –, turis­tas autó­no­mos, expe­di­ções de aven­tura (pelo menos duas: a nossa e a de um grupo de fran­ce­ses com que nos cru­zá­ra­mos no mesmo com­plexo em Dakhla). Depois há guar­das, agen­tes adu­a­nei­ros, mili­ta­res, gen­dar­mes e outros tan­tos que não che­ga­mos a per­ce­ber o que lá fazem. Con­tro­los a atra­ves­sar até ao último cen­tí­me­tro marroquino.

As dili­gên­cias até que nem cor­rem mal. Mas isto é demo­rado; não há outra volta a dar. Para mais, desta vez, a cara­vana tem de seguir com­pacta. Sair junta de Mar­ro­cos; entrar junta na Mau­ri­tâ­nia. E, acima de tudo, atra­ves­sar unida a lín­gua de terra, apro­pri­a­da­mente deno­mi­nada “Terra de Nin­guém”, que separa os dois paí­ses. Uma dis­tân­cia de 3,5km, onde não há lei. Onde nin­guém manda. Ao longo da pista o que mais se vê é lixo, sucata, car­ros des­man­te­la­dos. No entanto, algo nos diz que se um qual­quer dos car­ros tivesse um pro­blema, depressa bro­ta­riam do nada mais de uma vin­tena de seres cujo sus­tento se encon­tra pre­ci­sa­mente neste limbo “que depressa se pode trans­for­mar num inferno”, como nos descrevem.

Nin­guém se queixa ou mesmo revela quais­quer sinais de ner­vo­sismo. Mas, ao che­gar ile­sos à entrada da Mau­ri­tâ­nia, arris­ca­ría­mos falar de um sen­ti­mento de alí­vio que atra­vessa a cara­vana: safamo-nos a pneus fura­dos, moto­res gri­pa­dos, car­ros atascasdos.

Ainda não entrá­mos no país e per­ce­be­mos ao longe o que nos aguarda: horas e horas de espera. Pelo menos assim o fazem crer os qua­tro pos­tos de con­trolo, sepa­ra­dos por não mais de 50m, além da obri­ga­to­ri­e­dade de parar para fazer um seguro auto­mó­vel válido no país. O que, fazendo con­tas por alto, com 26 veí­cu­los (23 jipes, duas motos e um camião) a uma média de (vamos ser bon­zi­nhos), diga­mos, cinco minu­tos cada, tería­mos ainda pela frente mais de duas horas. Mas aqui o melhor é não fazer con­tas. Melhor ainda é esque­cer o reló­gio e rela­xar. Nin­guém vai a lado nenhum sem tudo resol­vido e a des­con­trac­ção pode ser a melhor coisa a pôr na baga­gem quando se decide enfren­tar uma incur­são por estes lados.

Ape­nas uma coisa nos pre­o­cupa: a fron­teira encerra às 18h. Haja boa von­tade e algu­mas contrapartidas.

Os pos­tos de con­trolo até que se pas­sa­ram bem (um deles, a Fugas pas­sou a pé, enquanto par­ti­ci­pava num esforço con­junto de fazer café entre as filas que inclui um mini­fo­gão dali, café e cafe­teira dacolá e ainda o tra­ba­lho arte­sa­nal de criar peque­nas chá­ve­nas a par­tir de gar­ra­fas de água). Já os segu­ros das via­tu­ras impli­ca­ram uma longa e exte­nu­ante espera. Num buraco escuro, em cujo letreiro sobre a porta se lê “Café / Res­tau­rant”, fazem-se segu­ros à luz da lanterna.

Já pas­sava das sete e meia da tarde quando a cara­vana teve ordem para arran­car. Daí até ao acam­pa­mento tou­a­reg, onde nin­guém teve a capa­ci­dade de mul­ti­pli­car pei­xes para o jan­tar, ainda pal­mi­lhá­mos cerca de 200km – os últi­mos 40 em pista, ilu­mi­nada por uma gigan­tesca lua e escol­ta­dos por mili­ta­res que nos têm acom­pa­nhado desde a saída do asfalto – à velo­ci­dade pos­sí­vel para o camião que não dá mais de 83km/h.

E hoje é dia de semi­des­canso em Arkeis: dor­mi­mos em jai­mas, emba­la­dos pelas ondas, desta vez atlân­ti­cas e acor­dá­mos para um dia tran­quilo numa praia só para nós.

Enquanto mon­tá­mos escri­tó­rio, desta vez junto a uma pequena duna, com vista mar, há quem esteja a apa­nhar bur­riés – ou cara­mu­jos, como lhes chama Omar, um dos ocu­pan­tes do 19 que vêm da Madeira –, a foto­gra­far alfor­re­cas, a cor­rer na linha d’água, a mer­gu­lhar em águas mul­ti­co­lo­res como se não hou­vesse ama­nhã, a pas­sear. Neste dia, por causa das marés que deter­mi­nam se o nosso cami­nho está ou não livre, a etapa só arranca depois de almoço e no fim do dia esta­re­mos em Teishott.

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Carla B. Ribeiro acom­pa­nha o 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, a con­vite da orga­ni­za­ção, de 30 de Dezem­bro a 13 de Janeiro. Infor­ma­ções gerais sobre o evento no pri­meiro post

3 comentários a Portugal-Dakar Challenge: Todos na Terra de Ninguém

  1. Obri­gada Antó­nio Araújo pela cor­rec­ção sobre as ten­das. Em Arkeis, a infor­ma­ção reco­lhida apon­tava para que fos­sem tua­reg. A cara­vana foi de facto acom­pa­nhada por guias da Asso­ci­a­ção dos Ami­gos do Banco de Arguin – guias esses que se reve­la­ram incan­sá­veis ao longo do tra­jecto e que vol­ta­ram a atra­ves­sar a Mau­ri­tâ­nia com o grupo que regres­sou por terra. À falta de refe­rên­cia ao facto nes­tes bre­ves apon­ta­men­tos de via­gem, deixo aqui o meu agra­de­ci­mento pes­soal a todos eles.

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  2. Os eco-guias da Asso­ci­a­ção dos Ami­gos do Banco de Arguin gui­a­ram a cara­vana entre as duas fron­tei­ras da Mau­ri­ta­nia. Nenhuma refe­rên­cia a esta orga­ni­za­ção pro­fis­si­o­nal cons­ti­tuida por gente do Par­que Naci­o­nal do Banco de Arguin. É pena! As ten­das não são tua­regs, são mauritanas.

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  3. Obri­gada pelas infor­ma­ções que vai pos­tando. Se fôr pos­sí­vel, manda cum­pri­men­tos para o Ale­xan­dre, o do camião que só dá 83km/h e ao Hugo. Tudo de bom para todos. Ass: Fer­nanda, Júlio, Raquel e Mariana!

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