A despedida, entre o que nos é familiar e estranho a toda a hora

O bote a ser empur­rado para o mar

Este será muito pro­va­vel­mente o último texto que escre­ve­mos em São Tomé – e, feliz­mente, ainda o con­se­gui­mos enviar — é que nem sem­pre temos acesso à Inter­net. Temos andado a apro­vei­tar cada minuto dos últi­mos dias e as pau­sas para orde­nar o bloco de notas tornam-se mais apertadas.

Praia, cho­co­late, aven­tura e gas­tro­no­mia con­ti­nuam a tomar conta do nosso tempo – e ele cá corre de forma dife­rente. Tal­vez seja por isso que, quando com­bi­na­mos algo com são-tomenses, eles nos dizem “daqui a uma hora do reló­gio esta­mos lá”. O tempo dos reló­gios não é igual ao das ilhas.

Ilhéu das Cabras

No Ilhéu das Cabras, por exem­plo, onde fomos pas­sar parte da manhã e da tarde, o sos­sego era tão grande que as horas pare­ciam suspensas.

Não vamos ter sau­da­des de tudo, tal­vez nem deste tempo tão demo­rado, mas vamos segu­ra­mente lembrar-nos, mui­tas vezes, desta natu­reza sel­va­gem, deste céu car­re­gado, desta humi­dade, das pes­soas que gos­ta­mos e que ficam cá.

Uma das mai­o­res inqui­e­ta­ções de São Tomé é quando a noite se põe escura. Ontem, fomos dor­mir à Roça de S. João de Ango­la­res. Depois de jan­tar­mos – o dono, João Car­los Silva, deu-nos a pro­var, entre outros petis­cos, ovas com papa de man­di­oca, sopa de coen­tros sel­va­gens, doce de manga e limão, e manga assada no forno a lenha com flor de sal -, dei­xá­mos a ampla varanda e subi­mos para os quar­tos. Foi por volta das 23h, quando ficá­mos sem luz, que a vimos – à noite, mis­te­ri­osa e impe­ne­trá­vel. Fomos contemplá-la da varanda que cir­cunda os quar­tos: cin­zenta, húmida, pesada com as nuvens. Só a lua ilu­mi­nava aquela vege­ta­ção luxu­ri­ante. Se já na cidade à noite, os baru­lhos nos inqui­e­tam como adi­vi­nhas, ali nem con­se­gui­mos dor­mir. O rio, os bichos peque­nos que nos pare­cem mais acor­da­dos de noite, o ruído do voo repen­tino dos mor­ce­gos. E, depois, uma chuva intensa que se aba­teu sobre os telha­dos: mesmo que tudo nos pare­cesse mágico, o certo é que quase não pre­gá­mos olho.

Em São Tomé, a sen­sa­ção de tanto nos sen­tir­mos em casa como a milhas dela é des­con­cer­tante. Não temos sos­sego: anda­mos entre o que nos é fami­liar e estra­nho a toda a hora. E ainda não sabe­mos bem o tama­nho do des­lum­bra­mento e do can­saço. Se calhar, só daqui a muito tempo, bem depois de ater­rar­mos em Por­tu­gal, é que vamos per­ce­ber até onde nos levou esta viagem.

P.S. – Já fomos pro­var o famoso cho­co­late Clau­dio Corallo, com direito a uma visita ori­en­tada pelo pró­prio, e tam­bém nos aven­tu­rá­mos numa cami­nhada de mais de uma hora até à Lagoa Amé­lia, um pân­tano numa cra­tera de um vul­cão, onde nas­cem todos os rios de São Tomé. À hora que nos estará a ler, já fomos tam­bém ao Ilhéu das Rolas. De cá, não deve­mos visi­tar mais o blo­gue. É a noite da des­pe­dida. E vamos que­rer aproveitá-la.

 

 

3 comentários a A despedida, entre o que nos é familiar e estranho a toda a hora

  1. S. Tomé é o paraíso
    Tal­vez uma das melho­res férias da minha vida.
    A pai­sa­gem, as gen­tes, os chei­ros, a natu­reza.
    Pena a pobreza enorme daquele povo.

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  2. Em São Tomé, a sen­sa­ção de tanto nos sen­tir­mos em casa como a milhas dela é des­con­cer­tante” — Não pode­ria ter des­cre­vido melhor a sen­sa­ção que tive ao visi­tar este Pequeno Paraíso…

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