Portugal-Dakar Challenge: “Sana saâida”

E para con­ti­nuar este 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, ainda por cami­nhos lusos, uma etapa para “acon­che­gar a baga­gem”. A baga­gem e os espí­ri­tos. Embora esses já este­jam mais do outro lado do Medi­ter­râ­neo do que pelos tri­lhos ibé­ri­cos por onde ainda cir­cu­la­mos. A pas­sa­gem do ano fez-se por Por­ti­mão – um jan­tar e ceia no Tivoli, onde pas­sá­mos a última noite antes de Mar­ro­cos. I.e., antes de se ini­ciar “a ver­da­deira aven­tura”, confirmam-nos uns quan­tos olha­res de ansiedade.

Ainda sem o céu afri­cano a per­der de vista e livres das agru­ras que as pai­sa­gens desér­ti­cas podem pro­por­ci­o­nar, o segundo dia, pelos cami­nhos de terra que ligam Beja a Sil­ves e, daqui, por estrada, até ao Autó­dromo do Algarve, já deu para duas coi­sas: asse­gu­rar que nenhum dos veí­cu­los se “des­man­chará” ao mínimo impre­visto e ali­men­tar a von­tade de seguir para tri­lhos ainda mais arro­ja­dos. Tam­bém deu para que várias via­tu­ras, na impos­si­bi­li­dade dos seus par­ti­ci­pan­tes (ou mesmo por limi­ta­ções da pró­pria máquina) se man­te­rem na prova ao longo de duas sema­nas, se jun­tas­sem com ânimo nesta expe­di­ção para as duas eta­pas naci­o­nais. A Fugas seguiu de Toyota Land Crui­ser, numa comi­tiva que incluía ainda um Range Rover, uma Mazda BT-50, pre­pa­rada para com­pe­ti­ção, um Mit­su­bishi Pajero e uma Ténéré.

A bordo de um muito con­for­tá­vel Land Crui­ser, gra­ças ao sis­tema refor­çado de amor­te­ce­do­res, o baru­lho da tra­lha acu­mu­lada pode ainda não ser ensur­de­ce­dor, como nos avisa o nosso con­du­tor desta etapa, Fer­nando, um emprei­teiro que des­co­briu o gosto pelo todo-o-terreno quase ao mesmo tempo que Mar­ro­cos. Mas já impõe res­peito e já deixa adi­vi­nhar o que nos espera. O certo é que a garan­tia é de que “isto ainda não é nada!”. Fica o alerta.


Ainda assim, já há der­ra­pa­gens, char­cos, alguma lama e mui­tos bura­cos para que se per­ceba o gosto de brin­car que atra­vessa toda a caravana. Ainda com várias pre­cau­ções: ficar em Por­tu­gal por causa de uma brin­ca­deira de fra­cos resul­ta­dos “seria como mor­rer na praia”. É por essa razão que a pista de todo-o-terreno do Autó­dromo Inter­na­ci­o­nal do Algarve é enca­rada com pre­cau­ção. Mesmo deva­gar, a pista impõe res­peito, quer pelos ângu­los íngre­mes de subi­das e des­ci­das, quer pelas cur­vas aper­ta­das. O “sô” Rogé­rio segue à frente na volta de reco­nhe­ci­mento. É neste grupo quase um guru. Conhece como pou­cos as manhas do todo-o-terreno e tem um ins­tinto de nave­ga­ção que lhe con­quis­tou o direito de seguir a maior parte do tempo em pri­meira posi­ção da cara­vana – um direito que tem como brinde poder via­jar de jane­las aber­tas sem uma refei­ção de pó por acrés­cimo. Por isso, quando o “sô” Rogé­rio avisa para se ter cui­dado, a adver­tên­cia é levada a sério. A pri­meira volta é cui­da­dosa e, dada a hora tar­dia, já com o sol a bater de frente, difi­cul­tando a visi­bi­li­dade. Na segunda, já bem afas­ta­dos uns dos outros, a con­versa é outra e a expe­ri­ên­cia já dá direito a sal­tos e peões. E, para Javier, que, depois de no ano pas­sado ter vindo com o pai de jipe, viaja em duas rodas, deu quase direito a uma apa­ra­tosa queda: “fiquei assim [e apro­xima os dedos dei­xando um inter­valo de uns dois cen­tí­me­tros] de ir ao chão”, explica bem-disposto.

Mas, finda a etapa, nin­guém caiu, nenhum carro reve­lou neces­si­dade de inter­ven­ções de maior, nin­guém pre­ci­sou de ser rebo­cado. Já a carga, essa, ficou de facto mais acon­che­gada. Pronta para seguir via­gem que, ao ter­ceiro dia, tem pela frente uma etapa de quase 800km. Ao fim do pri­meiro dia do ano já esta­re­mos em Rabat a dese­jar “Sana saâida”. Que é como quem diz: “Feliz Ano Novo”.

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Carla B. Ribeiro acom­pa­nha o 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, a con­vite da orga­ni­za­ção, de 30 de Dezem­bro a 13 de Janeiro. Infor­ma­ções gerais sobre o evento no pri­meiro post 

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