O cheiro verde de São Tomé

Em São Tomé (Fer­nando Veludo/arquivo)

São 18h30 e já é noite cer­rada. Cá em casa, toda a gente dorme ou des­cansa debaixo das redes mos­qui­tei­ras. Este calor, esta humi­dade – hoje cho­veu todo o dia – mói. Até a cadela, a São, dorme numa esteira na varanda, ao meu lado. Tento escre­ver este texto, mas estou pra­ti­ca­mente às escu­ras cá fora, e ainda a per­ce­ber de onde vêm tan­tos peque­nos barulhos.

Che­gá­mos hoje a São Tomé – vie­mos visi­tar uma amiga que dei­xou Por­tu­gal em Agosto e veio para cá tra­ba­lhar. O céu recebeu-nos cin­zento, car­re­gado de nuvens. Quando saí­mos do avião, havia um cheiro forte no ar, a terra molhada. Reco­nheci aquele cheiro, é igual ao dos quin­tais no Verão, depois de se regar a relva. Mas aqui é dez vezes mais intenso. Aqui é tudo verde, até os sonhos, segundo me con­ta­ram, são ver­des — um são-tomense dese­jou a uma rapa­riga, por quem estava apai­xo­nado, sonhos verdes.

O Rambo, o guarda cá da casa, acaba de che­gar. Junta-se a mim e à São, na varanda mal ilu­mi­nada. Oferece-me milho, que ainda está quente. Não con­sigo recu­sar a sim­pa­tia, mas não me dá jeito nenhum escre­ver ao com­pu­ta­dor com um pedaço de milho na mão. Ama­nhã, se o sol nos dei­xar, vamos à praia.

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