O centenário do Zamalek

Um estádio quase cheio e uma festa para todas as idades

Os sabores fazem parte de qualquer viagem. Como os cheiros e os sons. Para mim, um jogo de futebol, sempre que possível, também.

Há dois grandes no Cairo, o Al-Ahly e o Zamalek. A história diz que o Al-Ahly é o mais popular (como o meu Benfica, Eusébio dixit; outra semelhança: o clube diz ter 50 milhões de adeptos, num país com cerca de 85 milhões de pessoas) e os habitantes do Cairo relacionam o Zamalek mais com os antigos colonizadores (na verdade, começou por ser o clube para os estrangeiros não ingleses do Cairo e o primeiro presidente era belga; só em 1923 passou a ser controlado por egípcios) e com as elites. Gostava de apanhar por aqui um jogo entre estas duas equipas. Mas as oportunidades não se perdem.

O Zamalek celebra o seu centenário e o pontapé de saída das festividades aconteceu a semana passada, num jogo contra o Atlético de Madrid. Uma espanhola (adepta do Osasuna e, em segundo lugar do Barça) falou-me no jogo e decidimos ir sem pestanejar (e sem saber se ainda havia bilhetes ou mesmo onde ficava o estádio). Depois de um percurso algo atribulado lá chegámos ao nosso destino, o Estádio Internacional do Cairo (é lá que o Zamalek joga em casa, já que aparentemente o estádio do clube não tem condições), com mais de 70 mil lugares, iluminado e magnífico, ali, à nossa frente e à nossa espera.

Decididas a recorrer a qualquer expediente necessário para conseguir entrar (se já não houvesse bilhetes, pensámos, tentaríamos usar a “carta espanhola” ou a “carta estrangeiras tontas”), lá passámos pelas várias entradas sem sermos paradas. Na última, onde deveríamos mostrar o bilhete, aproveitámos a boleia de uns egípcios que conheciam um operador de câmara que os esperava do outro lado (depois percebemos que a partir de certa hora tinham começado a deixar entrar toda a gente, pelo que não fomos as únicas a ver o jogo sem pagar) e, de repente, lá estávamos, onde queríamos estar.

Uma boa casa (o topo norte estava quase vazio, mas o resto do estádio cheio), muitas fotografias e uma banda antes do início do jogo, milhares de bandeiras, fogo-de-artifício antes e durante a partida (os jogadores do Atlético pareciam incrédulos quando os foguetes começaram a rebentar durante o jogo, mas depois lá se habituaram), canções entoadas durante quase todo o tempo, a claque com luzes na mão a formar o número 100, uma festa! Para além dos vendedores que há em todos os estádios do mundo, aqui havia também uns senhores de pincéis em punho para pintar as cores do clube e o 100 do aniversário no rosto de quem desejasse.

Quanto ao jogo propriamente dito, a maioria dos egípcios não prestou assim tanta atenção, a não ser para refilar com os jogadores que perdiam oportunidades de golo (ou de chegar à área do Atlético, pelo menos) ou para aplaudir os golos, independentemente da baliza em que as bolas entravam. Durante a segunda parte, por exemplo, muitos dos adeptos que estavam no nosso sector continuaram entretidos a tentar cumprimentar e a fazer-se fotografar com um avançado do Zamalek que durante o intervalo tinham descoberto ali mesmo, na bancada. Também houve o “momento Tiago”, quando o português, titular mas entretanto substituído passou ali por perto e todos se concentraram em acenar-lhe.

Nota à margem: Numa cidade com um metro segregado (carruagens Ladies), soube bem estar num estádio com muitas mulheres (e muitas famílias), sentadas lado a lado com a maioria dos espectadores, homens, naturalmente.

Uma festa do princípio ao fim. Ah, e o Zamalek perdeu 1:4 (marcou de penalty assinalado depois de uma falta… fora da área).

p.s. –  Há mais de duas horas a tentar carregar fotografias. Antes que dê em doida vou publicar assim mesmo, só com uma imagem.

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