No Uzbequistão, a publicidade anda a tapar o etno-soviético

Este mural pintado na empena de um prédio de habitação, a dois passos da zona monumental de Samarcanda não consta de nenhum guia da segunda maior cidade uzbeque. Dá nas vistas pela localização e pela graça, mas é apenas um entre centenas de murais que decoram os blocos de habitação construídos durante o período de industrialização da cidade. O modelo de construção é o mesmo internacionalismo monolítico de toda a União Soviética, mas nesta, como noutras repúblicas da Ásia Central, ganhou expressões mais exóticas como estratégia de aproximação a populações maioritariamente islâmicas.

Imagens folclóricas de usos e costumes locais, mas também a geometria abstracta da arte islâmica foram assim convocados para decorar fachadas e empenas, motivos sempre filtrados segundo a batuta do neo-realismo soviético.

Para os locais, representam um passado opressivo e traumático e é perfeitamente compreensível que os andem agora a tapar com enormes painéis publicitários de multinacionais. É pena, por outro lado, porque estas peças de decoração urbana constituem uma forma original de arte de rua, um património único das antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central. Oferecem, para já, um guião completamente alternativo para descobrir Samarcanda e um excelente pretexto para o turista independente meter conversa com os locais.

 

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