O regresso

Eram 18h00 do dia 28 de Outubro. Mais minuto, menos minuto. E ela chegou. Vinha altiva, graciosa. Com a certeza de encontrar tudo tal qual deixou. Afinal, aquele espaço é o seu — arduamente conquistado e muitas vezes disputado. É o seu lar, o canto a que chama de casa.

É a primeira vez que a vejo, mas não é a primeira vez que chega. Porém, é a primeira vez que alguém a vê chegar. Noutras alturas, quando deram pela coisa, já ela chegara e se instalara. Desta vez, parece ter esperado a altura certa para ter a plateia composta e até máquinas em riste — excepto a de quem lhe escreve; o assombro do momento não conseguiu ser captado por uma máquina incorporada num telefone que serve para pouco mais do que “momentos kodak” familiares.

Mas, voltemos ao que interessa. Voltemos a ela que, com arrogância, chega sem sequer se fazer anunciar. Sem cerimónias, começa a pôr tudo ao seu jeito, deitando fora o que lhe parece estar a mais. Sem qualquer sentido ecológico ou noção de reciclagem de resíduos, atira todo o lixo para o chão. Pensará talvez que alguém o recolherá por si.

E quando, por fim, sente a casa arrumada e pronta a receber o seu amado — o mesmo de sempre, com o qual partilhará vida e até filhos — ergue-se segura. Abre as asas e, numa dança acrobática de fazer inveja ao mais conceituado coreógrafo, levanta voo.

É 28 de Outubro e as cegonhas estão de volta ao Alentejo, prontas a embelezar a paisagem, ocupando os ninhos que mantêm durante anos, mas também a emocionar quem lhes dedica um pouco mais do que um olhar. Foi o que aconteceu a Sónia, uma portuense que, com a mesma graciosidade daquela cegonha, adoptou a alentejana Herdade do Sobroso. Em plena planície, conta-me como aquela ave (esta mesma que se vê na foto) a levou quase às lágrimas uns meses antes. Era um dia de chuva, torrencial. Com os ovos quase a eclodirem, uma ficou no ninho sob o temporal enquanto a outra voou para longe. Mas, pouco tempo depois, voltou. Voltou e no bico trazia uma folha de papel. “E as duas, com muito cuidado, cobriram as crias por nascer.”

© Herdade do Sobroso

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