O sítio mais pacífico do Uzbequistão

O velhote de barba branca e fatiota tradicional parecia ter sido colocado de propósito, ali no meio do pátio do Palácio de Verão do último emir de Bukhara. De propósito para nós turistas estrangeiros melhorarmos o nosso desempenho fotográfico. Por isso, quando se dirigiu a nós com um sorriso de orelha a orelha todos julgámos que vinha recolher umas moedas em troca dos serviços prestados a título de modelo instantâneo. Mas também já se sabe que os clichés turísticos já não são o que eram.

Uzbequistão - Foto de Luís Maio

Na verdade, o que o velhote pretendia é que fôssemos nós a posar abraçados a ele para a câmara do filho. Mais do que isso, o que ele queria mesmo era meter conversa com gente de fora. Porque também ele e os colegas estavam em Bukhara a fazer turismo. Eram um grupo de professores de engenharia, na maior parte aposentados, originários de Andijon, cidade na ponta nordeste do país, ou seja, a coisa de mil quilómetros do lugar onde nos encontrámos.

Andijon é a maior cidade do vale de Fergana, que o velhote fez questão de nos apresentar como o mais fértil e tradicional do Uzbequistão, a verdadeira quintessência da Ásia Central. Um lugar onde toda a gente é amigável e hospitaleira – e “convido-vos desde já a visitarem-me e a ficarem lá em casa o tempo que quiserem”.

Andijon, recorde-se, foi palco de um tremendo massacre a 13 de Maio de 2005. Uma manifestação pacífica de protesto contra a prepotência governamental foi brutalmente reprimida pelas forças da ordem, alegando ligações dos manifestantes aos extremistas islâmicos. Terão morrido centenas ou milhares de civis (conforme contas do Governo ou oposição) e Andijon ganhou a ingrata reputação de sítio mais inseguro do Uzbequistão. Mas como é que é possível um velhote tão simpático ser assim um mentiroso tão grande?

2 comentários a O sítio mais pacífico do Uzbequistão

  1. Engraçado, mas quando antes de ler o texto olhei para a foto do senhor barbudo, pareceu-me que tinha um ar sereno e sábio, mas depois da leitura, a sua expressão parece que se transformou num homem que queria dar o golpe a esses turistas ocidentais maravilhados pelo Uzbequistão.

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