Uma história quase em ruínas

Para quem chega de barco a Santa Maria, a primeira impressão directa é dada pelo pequeno cais acolhedor, a que se segue o curto trajecto até Vila do Porto, a única vila da ilha. A partir daí irradiam todas as vias que levam ao interior da ilha, à Ponta do Castelo e à Maia, à baía de S. Lourenço (acessos e baía em obras há mais de um ano e, por isso, de evitar por agora), Anjos e, fechando o círculo, o aeroporto, com a mais extensa pista de todo o arquipélago.

A importância estratégica da ilha entre os anos 1940-1970 explica a singularidade de um aeroporto grande que quase só recebe voos regionais. Os sinais desse passado mais grandioso ainda são bem visíveis, a começar pela antiga torre de controlo, em mau estado de conservação, mesmo ao lado da nova. E na estrada entre Vila do Porto e o aeroporto, numa vasta plataforma de território e com uma largura que provavelmente não se encontra em mais nenhuma via da ilha, são detectáveis a espaços os sinais da antiga presença americana em Santa Maria, durante a Segunda Guerra Mundial – velhos barracões militares e armazéns, mas também bandas de casas que acolheram os militares estrangeiros e suas famílias (dizem-nos que estavam rodeadas de pequenos jardins muito bem tratados, dos quais não há rasto).

Depois da guerra, ali fizeram escala durante algumas décadas os aviões das grandes companhias aéreas que ligavam os dois continentes, num tempo em que a autonomia de voo das aeronaves não tinha nada a ver com a de hoje. O mítico Concorde parou aqui nos anos 1970 e o nome do restaurante que existe no aeroporto faz questão em não deixar isso cair no esquecimento.

A viagem entre a vila e o aeroporto produz o mesmo efeito. Respira-se por toda a parte memória, história, presenças fantasmáticas que deixaram marcas vivas nos habitantes de uma pequena ilha perdida na imensidão das águas atlânticas. Não surpreende, por isso, que haja marienses que considerem essencial a criação de um núcleo museológico para resgatar ao esquecimento esse passado tão marcante na vida de várias gerações. Se isso não for feito, é uma questão de tempo até tudo se perder.

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