A guerra na Paz do Oeste

Xian, Paz do Oeste em chinês, jamais seria conhecida no mundo apenas pela fama das suas universidades na área da aeronáutica ou das telecomunicações. O facto de ter sido a primeira capital do Império do Meio, ou de ter servido de base aos derradeiros ataques de Chiang Kai-Shek para acabar com Mao Zedong na etapa terminal da Longa Marcha (1934-1935) não seriam igualmente motivos suficientes para que esta cidade vagamente anódina, meio feia até, fosse actualmente um dos lugares mais procurados da China pelos turistas de todo o mundo. A sua muralha de 14 km, que remonta ao século XIV, é de uma solidez e de uma estrutura que tornam os nossos castelos meras brincadeiras defensivas, o seu Pagode do Ganso Selvagem, que assinala a presença muçulmana desde os tempos em que Xian era ponto de partida da Rota da Seda, são belos testemunhos da história chinesa, mas património como este há em abundância por todo o país.

Não, o que torna Xian especial não é o que está na cidade, mas a 35 quilómetros de distância: o exército de terracota que o louco imperador Qin Schihuang mandou construir para o defender após a sua morte, já lá vão 2200 anos. Postos em linha dentro de valas que equipas de arqueólogos escavam há mais de 35 anos, esta legião de guerreiros com cerca de 1,80 metros de altura impressiona e comove. Impressiona porque além do que os olhos alcançam, sabe-se que haverá ao todo 8000 figuras como as que foram reconstruídas nos campos abaixo do monte Lu, onde o imperador mandou fazer o seu mausoléu. E comove porque, para que aquele exército fosse real e poupasse Qin (lê-se chin e é com ele que nasce o nome da China) às vinganças dos inúmeros inimigos que acumulou ao longo da sua vida, cada guerreiro teria de ter a sua própria face, o seu próprio corpo, a sua própria pose. Como na vida real. Ao todo, calcula-se que terão trabalhado naquele empreendimento mais de 700 mil pessoas, esculpindo o barro, cozendo-o a temperaturas entre os 800 e os 1200 graus, abrindo valas para os instalarem mais as suas armas, desenhando espaços para a infantaria, a cavalaria, os arqueiros, o estado-maior.

A um quilómetro e meio de distância, o mausoléu de Qin permanece intocado. Relatos da época falam de uma série de armadilhas que ameaçam os intrusos e os cientistas provaram que há mercúrio na zona, como diziam os textos da época, talvez em torno da própria tumba do imperador. Como a maioria dos que o construíram foram assassinados no local, tudo permanece em grande segredo. Os arqueólogos dizem não haver segurança suficiente para iniciar a sua descoberta efectiva. Os relatos também referiam a existência do exército, mas depois de toda a obra megalómana de Qin ter sido destruída após a sua Morte (foi um administrador zeloso, mas um comprovado sanguinário), o campo caiu no esquecimento. Até ter sido descoberto por acaso, por agricultores que faziam um furo à procura de água, em Março de 1974.

Desde então, o exército de terracota é uma das maravilhas arqueológicas do mundo. Estar à sua frente e imaginar a sua história é de algum modo contrastar no mesmo lugar o génio e a brutalidade da natureza humana. Apesar de o museu receber todos os dias milhares de pessoas, na sua maioria chineses ruidosos que são capazes de dar as mais vis cotoveladas para garantir o melhor ângulo para a fotografia, aquele lugar proporciona uma experiência inesquecível.

De regresso a Xian, a China de hoje impõe-se em toda a sua força, com centenas de torres em construção e um movimento no centro impressionante (tem 7,5 milhões de habitantes). Mas ao contrário de Pequim, nas suas ruas secundárias subsiste ainda a velha China dos negócios de rua, dos cheiros intensos, da confusão de motas, bicicletas, riquexós, carros e pessoas, muitas pessoas. Para quem não se abstrai da bondade da higiene ou da civilidade, essa Xian que se comprime em torno do bairro muçulmano pode ser hostil; para os que apreciam a diferença num mundo cada vez mais homogeneizado, até sabe bem.

2 comentários a A guerra na Paz do Oeste

  1. Concordo perfeitamente com a descrição de Xi´’An e do Museu dos guerreiros. São dois mundos juntos e opostos que vale a pena conhecer. Tentei registar o que vi em 2000 neste poema:

    XI’AN (zona Muçulmana)

    Vi dois mundos separados por um arco;
    dum lado a China moderna e pujante
    do outro a China do século passado:
    latões de carvão conspurcados
    a cozinhar petiscos p’ra eles apelativos
    e montes de gente neles mergulhados
    como em cenas de filmes bem antigos.
    O cheiro forte da comida, que agonia!
    as tendas de bugigangas, que confusão!
    a mescla de bicicletas e gente arrepia
    os vendedores nos chamam, mas em vão.

    M.Clara Costa

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  2. Xian…recordo com saudade a semana que lá passei, Fevereiro de 2007, enquanto me apercebia que o mundo era muito mais do que alguma vez poderia imaginar, e coloquei de lado todo e qualquer pre-conceito existente. Aceitar a diferença e aprender a apreciar o que nos rodeia e se entranha em nós. A China é um mundo, pode ser Xian, Pequim, Shanghai, Chengdu, Inner Mongolia…e tantos outros lugares que nos enchem os olhos e alimentam a alma.Um dia voltarei!

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