A penumbra no meio do Império do Meio

Esqueçam Frankfurt, o De Gaulle de Paris ou o O’Hare de Chicago; o terminal três do aeroporto de Pequim é moderno como os primeiros, mas gigantesco como nenhum. A chegada à China faz-se assim com um estalo de imponência, de ambição e, vá lá, de algum bom gosto na arquitectura. O espaço é imaculadamente limpo, a passagem pelos serviços de fronteiras é célere, e apesar de ter de se apanhar um comboio para chegar às bagagens, nada é confuso, nem burocrático, nem cansativo.

Quem viu Pequim em vésperas dos Jogos Olímpicos pode admirar essa “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como dizia Caetano Veloso de São Paulo. Com uma diferença: as árvores plantadas na época estão maiores, há novos arranha-céus futuristas que revelam o caminho para onde o país quer ir, e se as auto-estradas que levam ao centro continuam congestionadas, ao menos a capital chinesa perdeu aquele ar de estaleiro que tinha antes dos jogos.

Com o jet lag a latir nas têmporas e a majestosa irritação de saber que a mala ficou algures no espaço aéreo europeu, o primeiro dia de Pequim deu ainda para ir ao lindíssimo Templo do Céu, embora desta vez não se tenham por lá visto tantos locais a dançar, a tocar ou a representar como há alguns anos. Há muitos, sim, mas a jogar as cartas, mas nada a ver com a feira popular que era hábito de outrora. Para uma economia poder crescer dez por cento ao ano, há tradições que têm de ser erradicadas, supõe-se.

Mas, agora como sempre, o que confere a Pequim o ar de uma estranha aura nostálgica que contradiz a sua natureza é a penumbra de humidade e CO2 que a envolve e torna o horizonte invisível. Nas zonas tropicais sente-se muito este ar que se cola à pele, mas talvez não tanto como aqui. Os gigantes imóveis das avenidas novas, na sua ostentação de vidro e aço, perdem com a névoa, mas o templo onde os imperadores Ming e Qing sacrificavam animais para pedir boas colheitas, ou a Cidade Proibida, ou o Palácio de Verão, ganham até um especial encanto com o véu misterioso que as encobre. Estará mais sol, amanhã?

[foto: David Gray/Reuters]

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