Sagração da pinavera (I)

Em Wuppertal (Alemanha) até terça-feira, para descobrir os passos da coreógrafa Pina Bausch, que morreu em 2009, mas que a partir de dia 6 parece regressar para junto de nós, com as peças que se apresentam no Teatro Nacional São João (Bamboo Blues, 6/7 e Sweet Mambo, 12/13) e os filmes que se estreiam dia 12 (“Pina”, de Wim Wenders, e “Sonhos dançados”, de Anne Linsel). Até lá, diários a tentar perceber o mito.

É primavera quando chegamos a Wuppertal. Sentamo-nos uma, duas, três horas à frente do Tanztheater Wuppertal, numa rua anónima, ocultada por um edifício estranho e só pensamos no serpentear do Reno e que, apanhado em Frankfurt am Main, mostra, no topo das colinas onde nem o luxuriante verde consegue esconder a rudez das pedras, castelos, torres de menagem e casas senhorais e, nos sopés dessas colinas, no baixo leito de um rio que corre tranquilo, os alemães que se instalam com as suas auto-caravanas, as casas pequenas, mormente em redor de uma igreja da qual só vemos o agudo cone.

Olhamos para as paredes brancas deste edifício estranho e só nos lembramos do sol que marca o rio. E então pergunta-nos o que terá doído a essa mulher, Pina de seu nome, para se vir isolar aqui, cidade feia, onde nem a beleza metafórica do industrial a salva. É como se a solaridade das suas peças precisasse desta luz negra, de chumbo, cinzenta, para apanhar os raios de sol do Reno. É como se os batelões que carregam carvão e terra só fizessem sentido se a trouxessem para o palco da “Sagração da Primavera”.

Sentamo-nos e esperamos pela resposta. Porque é que ela se veio esconder aqui? Nem os filmes, nem as peças o explicam. Nem mesmo ela o explicou. É essa arte do indizível.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>