Eles andam entre as gotas da chuva

São Petersburgo, Hermitage - Foto de Adriano Miranda

Há uma certa aura de mistério em São Petersburgo. Uma névoa fantasmagórica que, mesmo não se vendo, parece cair como um véu sobre a cidade, alterando tempos, geografias, personagens, climas. Uma certa magia, talvez; definitivamente dramática (bom dia, sr. Dostoiévski), quase absurda (bom dia, sr. Gogol).

Olha-se nos olhos de São Petersburgo e ainda assim não se a apreende, há sempre um contorno que parece escapar-nos. Rasputine, morto aqui mais do que uma vez, devia saber disso. Os czares, os grandes e os pequenos, os nobres, os sovietes, os novo-democráticos. É talvez a sua origem pantanosa, as suas águas por todo o lado, o seu rio Neva, a sua espartilha em canais e ilhas, a ajudar a essa personificação imperial, sobranceira, que se veste de Roma e Vaticano, de Paris e Viena, de luz do Norte e Versalhes, raramente de Moscovo.

Novíssima de três séculos, São Petersburgo é assustadoramente sedutora. Palácio atrás de palácio, museu atrás de museu, detalhe após detalhe, a cidade brilha até quase ofuscar tanto quanto as cúpulas de algumas das suas igrejas ou das suas caixas de jóias. Mas a desmesura das suas catedrais, o complexo de gigantismo do museu Hermitage, o braço de Lenine levantado no ar frente à Estação Finlândia onde chegou para lançar revolução, a ostentação que se respira por todo o lado podem ser só detalhes.

Para sentir em todos os poros da pele que São Petersburgo é realmente um mistério basta, como nos aconteceu, correr para a protecção da copa de uma grande árvore num qualquer jardim assim que caia uma chuvada à São Petersburgo (no nosso caso, gotas gordas e geladas como balas vindas em nortada apesar de Junho).

Aconteceu-nos ali mesmo no centro da cidade, quando dos distraíamos a deambular à descoberta. A chuva cai, nós corremos para a protecção do teatro Alexandrinsky, o Pushkin, ele próprio sob a bênção lá no alto de Apolo e seus cavalos. A chuva pára, nós corremos para o jardim onde se ergue nas alturas a estátua a Catarina a Grande com seus dignitários, e nós também, aos pés. A chuva recomeça e nós descobrimos que as árvores aqui são chapeús-de-chuva.

E ali ficámos, mesmerizados, a ver as pessoas passarem indiferentes à água. A rapariga de gabardine sentada no banco de jardim com um chapéu de chuva aberto enquanto come um corneto. A mãe que empurra o carrinho de bebé vestido todo ele para a chuva. O rapaz-galã, alto loiro espadaúdo, um príncipe que passeia de mãos nos bolsos ao ritmo das gotas. Depois haveremos de ver esse desfile por toda a cidade, pelas margens do Neva, pelos subúrbios enlameados, pela praça de oiro do Hermitage. É impressão nossa ou parece  que não se molham?

Sim, o verbo chover, aqui, não deve ser impessoal. O povo deve ter aprendido a arte de andar entre as gotas da chuva.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu.

Bateram as cinco da tarde no lago Ladoga

GORITSI MOSTEIRO DE São Cirilo do LAGO BRANCO

Bateram as cinco da tarde no lago Ladoga. O navio Andrei Rublev, nos seus traços anos 1980 recauchutados, desliza lentamente na direcção do Báltico. Um imenso céu azul expande-se como um mar que de vez em quando ondula em nuvens brancas como cinema. Cruzamos o rio Svir, a cujas águas -… um momento, vou só espiar… -, diria, acastanhadas, já chegámos vindos do gigantesco Volga, o maior rio da Europa, e do Onega, lago tão grande que lhe chamam mar. O sol brilha no meu ecrã enquanto tento captar em letras a beleza monocórdica das verdes margens que nos cercam. Um verde contínuo, de bosques e arbustos baixos, entrecortados por canais ou braços de água, aqui mais prado, ali mais floresta cerrada. De vez em quando um vilarejo, umas casinhas de madeira, um barco ancorado, raramente, à excepção das paragens, avisto pessoas em terra.

À minha frente, turistas franceses viram as cadeiras para o sol e conversam sobre a Rússia e a França. Um senhor calvo, kispo azul, fala com trejeitos De Gaulle enquanto aponta os binóculos para a margem. “La naturequelque chose, “les russes“, quelque chose, oiço.

Nas notícias, diz-se que as tensões entre russos e os países da NATO estão a aumentar para os lados do Báltico. As notícias parecem ser velhas mas são de hoje. Mas as notícias estão muito longe do solário da coberta do 5.º piso do Andrei Rublev, barco com nome de pintor santo. O Báltico é que está muito perto, é já amanhã.

Indiferente às notícias, aos turistas e aos jornalistas, a passarada continua a esvoaçar, as gaivotas continuam a espairecer pelo navio a ver se apanham algum resto, a brisa continua suave, o sol continua a brilhar, o Andrei Rublev continua a pintar as suas ondas com uma lentidão zen.

O fotógrafo-videoman corre à coberta a chamar-nos, temos que ir todos: venham ver a vossa viagem, venham ver a vossa viagem, senhores e senhoras venham ver a vossa viagem (mas isto em francês). É o vídeo e são as fotos que muitos vão comprar e sobre a qual rios de tinta ainda irão correr (em papel e nos ecrãs da sua revista, claro está). Paro aqui a nossa conversa. Vou só espiar e já vos conto, até porque como tenho feito de turista sou capaz de aparecer e também preciso de ver se estou bem. Estão cá todos: franceses, espanhóis, russos, israelitas, alemães, belgas, americanos, noruegueses…, etc, etc, isto é um mundo, só em passageiros são umas 15 nacionalidades bem contadas. Claro que não faltam portugueses, somos oito, contados os dois espiões da Fugas.

O hino russo enche a sala, pelos janelões já não sei se é o rio se é o navio que se move, no ecrã começamos a surgir nós. Sim, lá estamos na Praça Vermelha, no Kremlin, nas catedrais, o inesquecível Metro estação a estação. Ah!, o momento mágico em que nos fizemos definitivamente à água e deixámos a cidade para trás. E fomos parando em atracções turísticas, preguiçando em catedrais únicas, sendo levados pelo turbilhão do novo turismo e pelo vento da História.

CRUZEIRO PELO RIO VOLGA RUSSIA

O campanário da igreja , as igrejas iconográficas de Uglich, a modista que desfila vestidos patrióticos na margem do rio como se falasse ao telemóvel com Fellini, a estátua da Mãe Volga que esvoaça sobre o rio, os grandes lagos, o mosteiro de Cyril-Belozersky e o pequeno Cyril que vende souvenirs na loja do avô, a ilha de Kizhi que é uma vírgula de terra no meio do maior lago da Europa e é património da Humanidade e das 200 pessoas que vivem e fazem esta ilha-museu natural e de madeira, o Eugeni que finge ser um carpinteiro do tempo dos czares e a Dasha que vende chocolates com um sorriso, o Dimitri que cuida de peles de javalis que parecem ursos, o Sergej que bate ferro e fogo no meio das águas em Mandrogi e a Tatiana que parece a Ninotchka da Greta Garbo, a Olga que fala espanhol com uma beleza incomensurável, a Darya que nos traz comida com um sorriso escrito por Tolstoy, o casal idoso que dança a Nikita no Volga. Os momentos são monumentos, como bem o sabiam os grandes das letras russas que nos ensinaram a escrever.

Os dias passaram como água, tão devagarinho mas recheados de tantas Rússias. “A Rússia tem destas coisas. Tanto se pode admirar um cosmonauta como uma casa feudal”, escreve o meu camarada Adriano Miranda no seu Facebook (uma pequena indiscrição, Adriano, mas crónica oblige).

O Adriano esteve há 35 anos na Rússia, tinha então 15 anos, veio com os avós. À visita à URSS, a essa primordial primeira viagem da sua vida, o Adriano deve muito, inclusive a compra da sua máquina fotográfica Kiev, que lhe mudou a vida. E eu devo ao Adriano um filme paralelo ao desta viagem, o que a tornou superlativamente superior a qualquer passeio turístico. “A minha avó caiu nas frenéticas e vertiginosas escadas do metro de Moscovo”, começa assim uma história do Adriano.

O que fica das viagens? Eu leio o Adriano, oiço-o, vejo nos seus olhos a viagem que estou a fazer, acabo agora mesmo de ver a primeira escolha de imagens (uma fotogaleria ainda com mais de uma centena, esperem para ver). Eu sou apenas um leitor da viagem do Adriano, tal como o leitor é da nossa e, neste exacto momento, os turistas são da sua própria num telefilme.

No ecrã, vejo o mesmo céu e água que nos circundam para lá das janelas, onde agora se reflectem rostos comovidos de turistas com a sua própria experiência revisitada. Aplaudem o seu filme, que termina subitamente. A memória não está completa, eles sabem-no bem, aplaudem até o que aí vem, a meca, o final desesperadamente feliz, São Petersburgo, a cidade que por três vezes mudou de nome, nunca de grandiosidade. Um monumento à memória, no final do rio, no princípio do mar.

Olho em frente. Andrei Rublev continua o seu lento deslizar. A memória continua.

RIO VOLGA RUSSIA

À frente da catedral levantada do chão, a fábrica Outubro Vermelho inventa futuros

MOSCOVO RUSSIA

Ainda haveremos de parar na Catedral do Cristo Salvador, por um motivo especial: ver como uma catedral do séc. XIX, deitada abaixo por Estaline para construir um Palácio dos Sovietes – o que nunca aconteceu, a área foi usada para piscina pública –, foi reerguida das cinzas em toda a sua imensidão no final do séc. XX, igual à original, mais de 100 metros levantada do chão. Foi inaugurada no ano 2000 e é ver para crer.

A dois passos da catedral, há mais passado em transformação. Só tivemos tempo para dar um salto, cheirar o ar dos tempos e beber uma cerveja mas vale a pena passar a belíssima ponte pedestre chamada do Patriarca sobre o rio Moscovo, descer a primeira escadaria para a direita e entrar na “ilha” da antiga Fábrica de Chocolate Outubro Vermelho (Krasny Oktyabr, um ícone para gerações e gerações). No aterro de Bersenevskaya, a sua fachada de tijolos vermelhos e o seu antigo e doce logo nos ares chama-nos as atenções.

A fábrica saiu daqui há uma década e as instalações e armazéns têm vindo a ser renovados e recebem empresas, media, bares, restaurantes, ginásios, galerias. Mais cool ou mais hipster? Mais cultural, criativo, energético? Não sabemos e ficamos mesmo com pena de não termos tido mais tempo para descobrir.

Mas se der entretanto um salto a Moscovo, faça favor, tem aqui um sítio que vale mais que um salto para mais descobertas urbanas. Para mais e não em vão – nada em vão, decerto – fica aqui o Strelka, que se resume como o Instituto para Imaginar o Futuro, organização não-governamental que quer revolucionar a cultura urbana, a cidade, as cidades – arquitectura, design, media, urbanismo são as suas preces. Parece que é o Strelka que mexe os cordelinhos e serve de motor e atracção para a transformação desta ilha. Também tem um bar-esplanada de design prometedor. Mais até, porque isto anda tudo ligado, estando nós de partida para o rio Volga, não é que o nome do instituto também nos remete tanto para uma confluência do Volga com outro rio como para um extremo da ilha de Vasilyevsky, em São Petersburgo – também quer dizer outras coisas e é o nome de uma famosa cadelinha espacial soviética, mas isso são contas de outro rosário. Para mais, o Strelka também se dedica a estudar o Volga e as suas vidas e mutações.

Com pouco tempo entre mãos – esta é a paragem final antes de começarmos a fugir para o barco que nos levará a navegar para São Petersburgo -, sentamo-nos no Primitivo, restaurante e bar cercado de madeira e jardim vertical, e ficámos a beber uma cerveja enquanto observávamos dois trabalhadores a terminar as obras numa parede onde brilha o grafitti de um astronauta (Gagarin, espero). Garanto que fizemos um brinde a Moscovo e saiu tão natural como a nossa própria sede*.

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*E não é que o Primitivo, que é também bar de vinhos, tem uma longa carta onde até, vá lá, surge um vinho português? Só por curiosidade: um Dão Reserva de 2011 da Quinta dos Roques. Um luxo a 60 euros a garrafa.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

A grande aventura da arte no metro de Moscovo

MOSCOVO RUSSIA

São quase 23h quando a nossa guia, Lídia, conduz o grupo de turistas (e seremos uns 25) numa deambulação pelo Metro de Moscovo, outra das grandes atracções da cidade, ainda por cima económica, “fácil” (se guiada ou com muita, muita paciência e troca de sinais com agentes das estações) e fabulosa.

Uma aventura para qualquer pessoa que pense num metro tão célebre por ser uma série contínua de galerias de arte como por ser usado por milhões e milhões a alta velocidade, ter escadas rolantes quilométricas a pique e, para mais, com quase tudo apenas em cirílico, obrigando a uma descodificação contínua que por vezes se torna, admito, impossível. “Há já algumas no centro que têm tradução e há também intercomunicadores de apoio”, informa Lídia.

Como não é fácil, Lídia repete o sistema que vamos usar duas, três, quatro, vezes. Fala em inglês para todo o grupo e trata-nos por “dearest” a cada duas indicações. Regras, aprenda: Fixar exactamente a estação para que se vai e contar sempre o número exacto de paragens que faltam (como não dominamos russo nem o cirílico decidimos não confiar noutro sistema…).

É assim que entramos na primeira, Park Pobedy (no parque da Vitória). O grupo avança como uma manada com medo de passar um rio agitado durante uma migração. Pés na escada rolante e… descida vertiginosa durante longos minutos. Provavelmente, uma das mais longas escadas rolantes que já vi, o que é natural sendo a estação mais funda de Moscovo (e uma das mais fundas do mundo), 85m abaixo da superfície. Já as escadas rolantes perfazem 126m, 740 degraus. Mas esta, embora imponente, é novíssima, tendo aberto em 2003. Ainda assim segue-se o registo geral que celebrizou o metro moscovita: amplitude e muito mármore. E um mural dedicado a Kutuzov, o general que parou Napoleão.

Paragem seguinte: Kievskaya, um outro mundo, aqui palaciano, dos anos de 1950. Corredores infindáveis, galerias adornadas, lustres gigantes, pilares de mármore, nas paredes frescos com motivos ucranianos. A amizade entre Rússia e Ucrânia é o tema da estação: numa parede, um gigantesco mosaico celebra 300 anos de união entre as duas nações…

As carruagens mesmo agora seguem cheias e grande parte dos passageiros nem nos liga; já decerto habituados a estes turistas do metro, ocupam-se antes com telemóveis e derivados (o metro oferece rede wi-fi e boa). Segue-se na linha a estação de Smolenskaya, seguindo os anos de 1950, design sóbrio com sinais de poder e cerimoniais, paredes ornamentadas, mais mármore e granito, uma obra em relevo homenageia os soldados soviéticos.

O tempo corre contra nós e o passeio guiado tem final marcado por volta da meia-noite na Praça Vermelha. Por isso, saltemos para a Ploshchad’ Revolyutsii, que nos levará à Praça Vermelha. Esta vem do final dos anos de 1930 e é mais um extraordinário museu, perfilando-se estátuas de bronzes de figuras iconográficas da revolução soviética – o operário, o soldado…

Daqui vamos a caminhar para a Praça Vermelha, para espiá-la à noite e ver-lhes os traços luminosos. É tudo o que veremos, os traços. “Fecharam-nos a praça, não posso crer!”, lamenta-se Lídia. E porquê? “Acontece às vezes, fecham a praça, alguma visita ilustre, alguma segurança de Estado…” O certo é que caíram as grades e a praça encerrou de ponta a ponta. Fim de passeio.

No dia seguinte ainda haveremos de fazer a prova final do metro: sem guia. Bem acompanhados por dois casais portugueses que fazem o mesmo cruzeiro que nós, vamos os seis a caminho, tentando decifrar, do porto ao centro da cidade, o metro e as suas manhas. Bilhetes comprados, dúvidas esclarecidas, seguimos o sistema que no nosso caso é facilitado: é sempre a mesma linha (verde). Só temos de encontrar o comboio certo (igualmente fácil: é uma estação terminal a nossa) e sair na Teatralnaya.

Não é tão fácil quanto parece, porque russo e cirílico ainda nos confundem. Mas conseguimos chegar a bom porto. Para mais, a Teatralnaya, também dos anos de 1930, abre-se em mais uma peça de arte de tectos trabalhados, elegância ornamental, iluminação e temática teatral. No regresso, voltaremos a apostar no metro e até com mudança de linha (foi a partir da Biblioteka imeni Lenina, outra estação imponente dos anos 1930), desta feita, entre a pressa e a incerteza, recorrendo a muita linguagem gestual e perguntas de mapa na mão a quem encontramos pelo caminho. Pode ter sido sorte mas, verdade seja dita, só encontrámos gente prestável que nos apontou sempre para o bom caminho.

Moscovo está a ficar mais simpática ou foi só impressão?

Aliás, Moscovo costuma surgir sempre na frente dos tops das cidades mais inamistosas ou menos acolhedoras do mundo para os visitantes. No nosso caso, ou por sorte ou por acerto, realmente não tivemos essas experiência e nem me refiro a quem trabalhou directamente connosco – guias, etc: das perguntas nas ruas a cidadãos comuns ou a agentes de segurança, a pedidos de ajuda a funcionários, no metro, nos cafés, nos quiosques (excepção seja feita aos agentes de segurança do Kremlin e aos seus berros e apitos, mas isso deve fazer parte da imagem de marca  ainda assim, houve dois que deram o seu “da” a tirar uma fotografia turística com este seu escriba – eu juro que esperava ouvir um rotundo “niet”…).

Não demos por um grande, grande amor mas também não demos por falta de simpatia ou reacção, sequer por gélida indiferença. Muito pelo contrário. Em Moscovo, não dominando nós o russo, demos apenas pela falta do domínio do inglês (ou de outra língua de contacto) e de uma língua franca para além da gestual e pela nossa absoluta frustração frente a qualquer inscrição em cirílico com mais de três ou quatro letras, como burros a olhar para um palácio.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

Ver Moscovo sob outras luzes

MOSCOVO RUSSIA

À noite, somos levados pela Lídia de autocarro pela noite de Moscovo. A ideia é mostrar-nos a cidade que tantos temem sob uma outra perspectiva ainda mais feérica, numa encenação que esconde partes e sublinha a luz tragédias, alegrias, esperanças e, claro, muito betão, muito vidro, muito mármore, muito granito.

Ora uma tour Moscow by Night, assim só pelo nome, pode enganar. Mas no nosso caso não há ilusões: a massa dos turistas é formada por casais com uma média etária que rondará os 70 anos. É uma slow Moscow by slow Night. O que permite ir apreciando os postais nocturnos da capital moscovita, que, realmente, como nos dizia Elena no início, não parece parar.

O trânsito parece ainda na mesma quantidade mas ter triplicado de velocidade. Prédios e mais prédios, modernos, antigos, modernos soviéticos, antigos russos, cintilam em luz. Ao longe, o recorte da zona financeira, ultramoderna área com edifícios infinitos e envidraçados que recortam um skyline entre à americana e à Dubai – rezam as crónicas que o projecto deste business district não está a correr bem mas não fomos lá ver.

As fachadas iluminadas, com linhas palacianas sublinhadas e cúpulas de igrejas a tornarem a noite ainda mais policromática, desfilam como se a cidade se tivesse vestido para sair à noite. Se Moscovo fosse uma pessoa diria que não lhe falta uma certa vaidade e que parece estar a tentar não só cuidá-la como reinventá-la, com um blush de passado aqui, um batom moderno ali, um ar dos tempos pelos ombros caídos. Haverá muitas zonas escuras e semiescuras nesta Grande Moscovo de 10 milhões de habitantes mas aos nossos olhos, em turismo toca-e-foge, nada disso surge.

O nosso destino: colina de Poklonnaya, área do Museu Central da Grande Guerra Patriótica (a 2GM para a Rússia). Toda a área, que se eleva sobre a cidade, está cenicamente iluminada. O museu perfila-se em galerias abertas e oferece uma vista de tirar o fôlego: para Moscovo e para a história. Isto é para não esquecer e para evidenciar na permanência os feitos do passado, por isso, estamos aos pés do cavalo de São Jorge que mata o dragão na base de um obelisco. É o Obelisco da Vitória que se ergue em luz para os céus nos seus 141,8 metros, 1 metro por cada dia que a URSS esteve na guerra. Tem forma de baioneta e lá no alto, a 100 metros, esvoaça como que saída do obelisco uma estátua de 25 toneladas de bronze da deusa da vitória, Nika, rodeada de anjos que tocam as suas trompetes da glória da nação.

Uma obra escultórica de engenharia impressionante: basta saber que com tudo isto ali se mantém de pé há duas décadas. Sim, esse é o detalhe: foi inaugurada em 1995 sob a égide de Ieltsin. Entre o obelisco e o museu arde uma chama eterna e, lá muito ao fundo, após uma longa abertura que deixa todo o espaço ao obelisco, avista-se uma alameda de chamas vermelhas a ondular (são fontes que lançam água vermelha ao ar, água sangue memorial).

Um pouco mais à frente está um outro monumento que também vinca o passado no presente: um monumento aos heróis da Grande Guerra. Na noite, destaca-se a figura de uma estátua singular em homenagem ao soldado russo. Outro detalhe: é o primeiro monumento similar e foi inaugurada por Putin no âmbito das cerimónias do 100.º aniversário da Grande Guerra, há menos de dois anos.

Tal como toda a cidade, a zona aqui também parece em obras, mas estas são para mais um evento. Enquanto pela longa avenida-autoestrada Kutuzovsky a noite é continuamente cruzada por aparentes provas de F1 urbana, aqui, no parque da Vitória, colocam-se as instalações centrais das celebrações do Dia da Rússia, que está quase aí: é a 12 de Junho, dia que marca a declaração de “independência” da Rússia em 1992 da URSS.

São as voltas dos tempos. Antes de descermos para as profundezas, levamos no olhar o gigantesco e iluminado relógio de flores criado num braço verde do parque, onde também se escreve, a flor vermelha, Mockba. As flores marcam a hora e é tempo de mergulharmos no metro. Mas já lá vamos.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

Ir ao Kremlin e não ver o Papa

MOSCOVO RUSSIA

Como o nosso hotel (e restaurante) em Moscovo é flutuante, andaremos do barco para a cidade e da cidade para o barco entre almoços, jantares e dormires até à partida pelo rio Volga fora. A grande viagem é a deslizar nas águas rumo a São Petersburgo mas, claro, estando em Moscovo, mesmo que de fugida há imperdíveis a ponderar. Infelizmente, há demasiados. Portanto, fazendo as contas ao tempo, dinheiros, geografias, é ir decidindo com o mínimo de frustração possível. Vamos ficando pelos básicos e uma ou outra escolha mais pessoal.

Se a Praça Vermelha é primordial, obviamente que ir a Moscovo e não ver o Kremlin… Aqui há uma surpresa para aqueles um pouco mais desatentos, habituados que estamos a pensar no Kremlin como sinónimo de presidência russa, algo como o Palácio de Belém. Não está mal visto mas o Kremlin, na verdade, é muito mais do que isso: é toda a cidadela do poder, a fortaleza (kreml) onde a cidade começou no séc. XII. Fogos e revoluções, imperialismos, fascismos, comunismos, democracias, ópios do povo, nada, nada fez o Kremlin em pó. Pelo contrário: é agora um símbolo ainda e sempre de poder mas que parece ultrapassar a mera existência terrena. É no Kremlin, não sei se é na terra.

Lá dentro (é preciso pagar bilhete para entrar no complexo) está a residência do presidente mas esta (também) mega-atracção turística é um extraordinário conjunto que soma mais de uma dúzia de catedrais, palácios (incluindo os do Patriarca, o líder ortodoxo, e os do Estado), torres, monumentos ou os adjacentes Jardins de Alexandre. Nota: há muitos operários e agentes de segurança no Kremlin mas há ainda muitos, muitos mais turistas.

Às 16h50, o sol parece ainda queimar nesta tarde de Junho. Passeamos pelo complexo (sempre são 250 mil m2 entre muralhas de 2o metros de altura) e, confesso, sempre a ver se por acaso aparece (o verdadeiro…) Putin de algum recanto. “Elena, e quando vamos visitar o Presidente?” A nossa guia sorri. “Deve estar a trabalhar, não tem tempo.” Está mais que visto que não vamos ver Putin. Mas, enquanto isso, vemos séculos de história, o epicentro do poder dos czares ao Estado soviético, passando pela igreja e o Estado actual. Todos os poderes parecem encontrar-se aqui.

Vamos cirandando entre o moderno e envidraçado Palácio do Estado – a construção mais moderna, ainda durante a URSS nos anos de 1960 como Palácio dos Congressos, que agora recebe espectáculos -, observando as 11 cúpulas que parecem fazer o Palácio de Terem, o Palácio do Patriarca (que é actualmente um museu de artes do séc. XVII), as igrejas e catedrais, o Arsenal (museu das riquezas dos czares). O Kremlin é acima de tudo religião e a sua arte e história mostram-se aqui em todo o esplendor, cada uma das catedrais mais impressionante do que a outra, entre a dimensão, as cúpulas, as paredes corridas a frescos. Da Catedral da Assumpção (cuja magnitude advém do séc. XIV, um luxo policromático e dourado onde o poder era coroado e os patriarcas da igreja eram enterrados) à Catedral da Anunciação ou do Arcanjo (onde os túmulos contam mil e uma histórias, incluindo a tomba levitada de Dmitri, o filho assassinado de Ivan O Terrível, considerado anjo e por isso não enterrado sob a terra).

Lá ao fundo, fica ainda o setecentista Grande Palácio do Kremlin, mas para aí não podemos virar. É dar um passo na direcção errada e um agente dá um berro ou um aviso sério. Turista segue caminho de turista, não vira para a residência oficial do Presidente. Podemos antes apreciar os jardins, cuidados ao detalhe – por isso víamos tantos jardineiros a cruzar o Kremlin, ou fazer a volta dos colossos, como O Maior Canhão do Mundo ou o Maior Sino do Mundo (ambos séc. XVI).

A visita sai curta e não temos tempo para cada uma das jóias que compõem o Kremlin (cada uma pode demorar muitas horas a ser percorrida, assinale-se). Saímos, sem glória sim, mas com um bom resumo do poder russo, para os adjacentes Jardins de Alexandre, que incluem passeios públicos, fontes ou um canal por onde se perfilam de entre as águas estátuas que evocam fábulas russas. Com o dia quente que está, passeiam-se famílias e há mesmo crianças a mergulhar por aqui para se refrescarem.

Se na outra muralha do Kremlin, à praça Vermelha, fica o túmulo de Lenine (e não só), aqui também se continuam a homenagear mortos e heróis caídos em combate, milhões deles até, porque aqui fica também o Túmulo do Soldado Desconhecido onde, desde a sua inauguração em 1967, arde uma chama em homenagem aos russos que morreram na Segunda Guerra Mundial. O corpo de um soldado anónimo está enterrado sob o monumento, vigiado por uma guarda de honra – vimos noutra passagem o render da guarda (às 13h) e é digna de ser acompanhada toda a cerimónia.

A nossa visita panorâmica por Moscovo ainda passará por ícones únicos, grande parte que só temos tempo de apreciar de fachada, do Teatro Bolshoi na praça dos teatros (onde permanece o último monumento a Karl Marx) ao Palácio dos Romanov, do Museu Pushkin ao parque Gorki ao assustadoramente sólido edifício do ex-KGB na praça de Lubyanka. Todo o centro de Moscovo (por Kitay Gorod e Sadovoye Koltso) é um sem-fim de opções.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

O meu nome é Praça Vermelha

MOSCOVO RUSSIA

Há momentos de ignorância na vida de uma pessoa que só uma boa viagem altera. Por exemplo: estava de auricular enfiado no tímpano, a ouvir a nossa guia Elena, mestra russa que fala um espanhol impecável, quando assim fiquei a saber que Vermelha foi sempre a Praça. Sim, está aí pelos guias e wikis desta vida. Mas não tinha dado pelo detalhe: o nome actual data do século… XVII, Krasnaya. E Krasnaya derivará de krasny que “significava bonito mas que veio derivar também na palavra vermelho”.

Chegámos à praça no pico do sol e, além da desilusão de não poder cruzá-la – por causa dos tais arranjos da feira do livro -, é surpreendente a invasão turística. Quer-me parecer que chegámos no dia em que não só o Japão e a China acabaram de invadir a Praça Vermelha como trouxeram amigos turistas do mundo inteiro (até nós).
A Praça Vermelha, para além da sua imponência metafórica e visual, é, já e cada vez mais, rezam as lendas, um parque de diversões cercado de turistas por todos os lados (o delimitador Kremlin, e não só, segue o mesmo rumo, mas já lá vamos). A quantidade de pessoas com pauzinhos a tirar selfies na Krasnaya Ploshchad – ou, em versão Disney internacional, Red Square – é assustadora. Admitamos, quem resiste a pôr os pés aqui e não tirar uma foto (uma que seja)?
Por não se poder caminhar na praça, a massa turística é ainda mais colossal. Como estamos de visita panorâmica, vamos passeando pelos monumentos que a enquadram. De um lado a catedral de São Basílio parece lançar chamas coloridas para os céus com as suas cúpulas em forma de cebolas amarelas, verdes, azuis, multicolores, uma altaneira coroa dourada. No lado oposto frontal, o Museu Histórico do Estado (esse sim, num vermelho-vermelhão).

MOSCOVO RUSSIA

Na lateral, as galerias comerciais GUM, imponente série de galerias comerciais em luxo palaciano arquitectónico dos finais do séc. XIX, depois passadas a mercado soviético e, agora, a luxo palaciano de inícios do séc. XXI com centenas de lojas a cintilarem em branco, luz e dinheiro (todas as Hermès e Vuitton deste mundo estão aqui). Ali ao lado,  a Catedral de Kazan, destruída por Estaline e reconstruída no pós-sovietes.

Moscovo, Mausoléu de Lenine - Foto de Adriano Miranda
Com o tempo contado, escolhemos uma das “atracções”. À frente, no outro lado da praça, a sacrossanta sobriedade do mausoléu de Lenine, um gigantesco túmulo que se abre em negro ao nível do solo numa porta orfeíca encimada apenas pelo nome em russo do líder: Ленин. É difícil fazer esquecer o colorido da praça embora os responsáveis do mausoléu tentem. Como em praticamente todo o lado, para entrar (gratuitamente) é preciso passar por uma segurança suposta e electronicamente apertada e, desde logo, esperar numa longa bicha (que, abençoada, se esvai rapidamente). Convencidos os agentes de segurança, demorámos menos de um quarto de hora a circundar Lenine. A múmia, sob uma religiosa iluminação amarelada sobre o rosto, está no seu túmulo transparente no centro de uma sala a negro. Os visitantes devem contornar o túmulo sem parar. Temos alguns segundos para ver Lenine assim como que beatificado. A saída faz-se para outro espaço memorial, a necrópole da muralha do Kremlin onde se perfilam as homenagens póstumas a Estaline ou a Brejnev, mas também a dezenas de figuras da História do país e da URSS, de Gagarin a Gorki.
Claro que, se lhe acontecer, como a nós noutra ocasião, começar a serpentear pelas ruas em redor da Praça Vermelha e descobrir figuras históricas subitamente à sua frente, não se admire. A nós aconteceu-nos ver, subitamente, Lenine piscar o olho para Estaline. Este puxou do maço de notas e começou a estalar rublos entre os dedos. Ivan o Terrível, porém, há que dizê-lo com toda a frontalidade, é que controlava a cena toda, tenho quase a certeza. Havia algo no seu olhar. Especialmente quando mirava de soslaio para Putin e parecia trespassar-lhe as lentes dos óculos de sol. Ora passava-se isto tudo a dois passos da praça, revés Kremlin. Como pode um turista resistir?

MOSCOVO RUSSIA

 Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

Moscovo, cidade aberta (para obras)

Não estamos cá por políticas mas de visita por terra, por água e pelo povo. Alguém diz que não é de bom tom fazer perguntas políticas, por isso, para já, falemos politicamente apenas sobre o tempo: está um Verão de rachar!; esqueçam Moscovo gélida, esta é calorosa!; as temperaturas máximas sobem pouco acima dos 20ºC mas a sensação térmica chega aos 30ºC aqui e ali! (Aliás, se tudo correr bem, vamos ter uma semana toda ela quentinha). Isto é que vai ser um cruzeiro!
Exclamações à parte, o nosso navio, o Rublev, está ancorado nos arrabaldes da cidade, numa doca de Severny Rechnoy Vokzal, mais precisamente na Leningradskoe shosse, em Khimki. Mais simples: Porto Norte do canal de Moscovo, como quem vai pela estrada de Leninegrado. Nem de propósito, que a lógica russa continua funcional: é daqui que vamos navegar 1800km de Moscovo à antiga Leninegrado. São Petersburgo aguarda-nos na próxima semana mas até lá temos um plano de animação a bordo e de atracções em terra que só visto.
O nosso navio, de seu nome completo Andrei Rublev (homenageia o pintor pater daquelas imagens religiosas da inconografia ortodoxa russa), pertence a um gigante histórico da navegação russa, a Mosturflot, que também já comercializa em Portugal estas viagens que se querem relaxantes e só para gente anti-stress (deslizar a meio quilómetro por hora num rio não é para todos, há que ter coragem).
É, por isso, que cedo de manhã – lembram-se decerto de como à chegada fomos salvos por Jesus e caímos na cama já de dia -, sem pregar olho (sublinhar psicologicamente), entramos no autocarro que nos vai dar uma prometida “excursión panorámica por la ciudad de Moscú” – não se admire, isto vai continuar tudo em espanhol, porque o nosso grupo de turistas é uma união ibérica, a coroa está com Madrid e a língua oficial é o castelhano.
1160_blogue - obras
É assim que levamos a primeira impressão de Moscovo, entre um bafo quente e um bafo de… obras. Obras. Obras. E, um pouco mais além… Sim. A capital russa é a capital das obras. A nossa guia, Elena, vai apontando para a esquerda, onde se parte e reparte o estádio do Dínamo de Moscovo, para estradas e avenidas, para passeios a serem repavimentados, para o centro histórico, para a frente do Teatro Bolshoi e para as portas da Praça Vermelha. Para onde quer que olhemos: obras. Obras. Obras. Haverá muitas razões políticas mas como está muito calor lembremos, desde já, uma tão redonda que é evidente: daqui a dois anos, o Mundial de Futebol é na Rússia (por acaso, o estádio do Dínamo até ficou fora da lista de campos oficiais do evento).
O programa da nossa viagem dá, na prática, dia e meio para passear em Moscovo. Um tempo algo aflitivo para uma megalópole com tanto para ver. Mas, ei, a verdadeira viagem é pelo rio, mais logo. Portanto, teremos que consciencializar-nos: vamos ter uma sucessão de visitas panorâmicas à cidade, o que já dará, pelo menos, para senti-la.
O passeio começa, assim, por uma visita guiada pelo incrível trânsito de uma cidade que, garante-nos Elena, “não pára, é 24h por dia, há muita coisa que funciona dia e noite sem parar”. Durante uma hora e meia vamo-nos adentrando em Moscovo, enfileirados em engarrafamentos causados especialmente pelas obras, o que, nota-se claramente, janela de carro a janela de carro, não alegra os moscovitas.
Elena vai contando História e histórias para ocupar o tempo aos turistas. Enquanto os mongóis invadem Moscovo, nós atascamo-nos num engarrafamento memorável. Pelo caminho, um desfile de grandes carros de grandes marcas, decerto frustrados porque não podem dar o ar da sua aceleradela e se vêem condenados à velocidade do nosso minibus. Num mundo cirílico, que para mim é grego, vou apontando referências internacionais para melhor nos situarmos: McDonalds, Coca-Cola, Café Beverly Hills, Glenfields, Braciiolini, Meat Stop, Massimo Dutti et al. Isto já não é novidade para ninguém, certo?
Por fim, atingimos a nossa meca desta manhã: Praça Vermelha. Surpresa! Está ladeada de obras! Melhor ainda, também está, ela própria, em obras – se bem que, no caso, aparentemente temporárias: está a ser instalada a feira do livro, stand a stand, palco a palco, estando toda (toda…) a praça ocupada pela estrutura e gradeamento da obra da feira. Acredite, não é coisa de postal ilustrado. Por outro lado, acredite, é quase mais bonito: é coisa da realidade.
Mesmo sem pregar olho, arregalo os olhos para esta praça do mundo, epicentro de tanto e de tudo. Enquanto lanço um olhar para catedral e igrejas, outro para museu e galerias comerciais, um catrapiscar solar para o mausoléu de Lenine e outro olhar de soslaio para o Kremlin, vou circundando as grades da emergente feira do livro. “Os moscovitas adoram fazer tudo na Praça Vermelha”, vai-nos dizendo Elena. “Tudo tem de acontecer aqui.”
Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

Aterrar em Moscovo nos braços de Jesus

Sheremetievo

Moscovo, madrugada de 1 de Junho. Voo da KLM, vindo de Amesterdão, aterra na perfeição no maior aeroporto da capital russa. O relógio regista precisamente 1h35. Processamento rápido. Poucos minutos depois, Luís e Adriano, texto e fotos (excepto a de cima), cruzam sem problemas as portas da segurança.

“Portugal? Portugueses? Lisboa-Amesterdão-Moscovo?”, pergunta-nos um grande agente de segurança com um semblante que nos transporta para velhos filmes.

“Sim, sim, sim”.

Passagem garantida.

Cá fora, somos recebidos por dois braços que acalentam uma placa – uma daquelas que dá gosto ver quase às duas da manhã quando se cai de pára-quedas numa cidade absolutamente desconhecida e previamente carregada de estereótipos assustadores. “Sr. Luís Santos”, leio sob um sorriso. É o sorriso de Jesus.

No caso, um Jesus com um sotaque cubano que dá logo um calorzinho e traça na noite um arco histórico entre continentes, oceanos, décadas, políticas, vidas, enfim, acredito que pensem, como eu, que nem vale a pena prosseguir com redundâncias.

Portanto, Cuba recebe-nos na Rússia e leva-nos pela noite fora, pela estrada fora, para um absoluto desconhecido. Jesus é o nosso guia. Este de seu nome completo Jesús Piñera Caso. Ao seu lado, ao volante, um par de mãos russas. Alexey é silencioso e eficiente. Jesus habla todo o caminho para nos relaxar e informar. Vão levar-nos, a uma hora destas, para o nosso destino, um navio de cruzeiro num dos ancoradouros num dos portos de Moscovo. Tirando o facto de não saberem qual ancoradouro nem qual porto, tudo corre bem.

Até porque Jesus enche a noite e salva-nos do sono e do cansaço. Não demora um farelo a passar do resumo geográfico de Moscovo à História dos últimos 100 anos. São duas e pouco da manhã e 12 horas de viagem no corpo, metade delas a voar, metade em aeroportos, e uma voz cubana situa o nosso carro no exacto sítio onde as tropas soviéticas aniquilaram e fizeram retroceder as tropas nazis na batalha de Moscovo. Os nossos ossos – moídos, ainda assim – conseguem sentir um pozinho de rejubilação, de quase orgulho, de quase soerguer dos olhos semicerrados para os lugares invisíveis entre estradas para onde Jesus aponta.

Saímos da auto-estrada por onde correm carros como se fosse de dia e entramos numa estrada secundária. Bosque e árvores de segurança. Falsa entrada. Um agente informa que não, não estará por ali o nosso barco. Batalha perdida. Retrocedemos, voltamos a enfileirar forças, nova entrada, grades, agente, batalha vencida, o nosso barco está ali escondido.

Entre o sono e a vontade quase tenho pena de deixar Jesus, até porque só veio dar uma ajuda a vir buscar-nos, não o voltaremos a ver, é apenas um agent provocateur. Desconfio que este cubano tem muito para contar mas a noite e o cansaço interpõe-se.

Eu pergunto, para começar, defeito profissional:

Jesus, vive há muito em Moscovo?

Ele responde, às 2h30:

Vais à net, pões Jesus Piñera Caso e está lá tudo sobre mim.

Eu não pergunto mais nada. Fui agora à net, escrevi Jesus Piñera Caso. Posso garantir-lhes que estou muito arrependido de não ter perguntado mais nada a este hidrogeólogo nascido em Havana em 1950, cubano e espanhol, asturiano, que já foi professor universitário ou “limpiador nocturno de la cocina en un restaurante ruso“. Acontece-nos a todos numa viagem ou noutra, não é? A pessoa certa, o momento errado, o tempo a correr, no caso a noite a matar-nos. Ou a manhã.

“Vamos que está a amanhecer”, diz Jesus.

Amanhecer? Às duas e picos? Sim, tinhas esquecido as noites, no caso de Moscovo, mais ou menos brancas? O céu negro é já furado por clarezas. Depois de mais uma hora e tal perdida à espera de cama (houve por aqui umas confusões de quartos, transfers, até um casal que teve que safar-se por sua conta e risco vindo de taxi – isto é uma aventura), finalmente caio na cama.

São quatro da manhã. Abro ligeiramente a cortina. Lá fora é de dia. Noite em branco, Jesus.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

Pelas oito da manhã no Mercado dos Lavradores

Mercado dos Lavradores - Foto de Daniel RochaÉ cedo quando chegamos ao Mercado dos Lavradores, no centro do Funchal. É verdade que os planos para chegarmos de madrugada e ver os vendedores a montar as bancas ficaram pelo caminho, mas oito é uma boa hora. Cá fora, as vendedoras de flores, vestidas com trajes tradicionais, já estão nos seus postos, rodeadas por uma explosão de cores.

Combinámos com uma amiga madeirense, que aqui costuma vir às sextas-feiras de manhã fazer compras antes do trabalho. É que, se o mercado se tornou uma das maiores atracções turísticas do Funchal – e daqui a pouco já vão começar a chegar os grupos de turistas – continua, felizmente, a ser frequentado pelos locais. É preciso, no entanto, saber em que bancas comprar para fugir das armadilhas para turistas, onde, entre dulcíssimos maracujás e outras tentadoras frutas exóticas, os preços disparam.

É muito antiga, anterior mesmo à existência do edifício, a tradição de aqui vender produtos da terra. Este foi, desde há muito, o ponto de encontro dos lavradores que, vindos de várias zonas da ilha, aqui apresentavam os seus produtos. Em 1940, com a construção do edifício, de mercado informal passou a ser um luxo, com instalações de fazer inveja a muitos outros mercados nacionais.

O projecto é do arquitecto Edmundo Tavares e o estilo é emblemático da época modernista, dos anos 40. Tomamos café numa loja nova, cheia de produtos de qualidade, regionais e não só, e com banca de gelados voltada para a rua. E, com dois vistosos ramos de flores num saco, entramos para o pátio interior, descoberto, do mercado. Aqui percorremos várias bancas, com a nossa amiga a servir de guia e a dar-nos informações que fazem toda a diferença: aquelas que nos permitem perceber quais os produtos que são, de facto, madeirenses, e quais os que são apresentados como tal mas vêm de paragens distantes.

O mercado tem a zona das flores, com mais de uma dúzia de floristas de traje típico. Espalhados pelos três andares, há dezenas de bancas e lojas de frutas e legumes que nos deixam fascinados. Anonas enormes, cachos de bananas, cestas cheias de pitangas, papaias, goiabas, abacates, nêsperas, inhame, couves, batatas, cenouras e, deixando turistas e “continentais” de boca aberta, as imensas variedades de maracujás, de diferentes cores, feitios e sabores, e o curioso fruto a que chamam monstera deliciosa. Já nos imaginamos no Brasil ou noutro país tropical e, meio atordoados, perguntamos como se usa, como se cozinha, como se come.

Passamos depois para a zona do peixe. Primeiro espreitamos do cimo das escadas, de onde se tem a melhor vista para as bancadas de pedra onde se estende o atum, o peixe-espada preto, o bodião e outros peixes dos mares da Madeira, para além das deliciosas lapas. Depois descemos e vemos tudo mais de perto.

Queríamos levar um pouco de cada coisa, mas temos um longo dia pela frente. A nossa amiga também vai trabalhar, mas ainda tem tempo para deixar as compras em casa, por isso pode levar algumas coisas. Comprou verduras numa senhora que “traz sempre coisas diferentes” e despede-se de nós, acenando, enquanto desce a rua com os ramos de flores coloridas a espreitarem da borda do saco.

Mercado dos Lavradores - Foto de Daniel Rocha

Alexandra Prado Coelho (texto) e Daniel Rocha (fotos) viajam com o apoio da Associação de Promoção da Madeira 

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