Saïdia além da praia: da gruta do Camelo a Tafoughalt

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A primeira paragem é mesmo em Saïdia: a cidade, pequena, num canto encostado à Algéria, a estância balnear onde os hotéis tudo incluído não páram de aparecer (por exemplo, o Meliá Garden acabou de abrir e o Meliá Beach chega em Julho) e os aldeamentos turísticos são abundantes, e uma reserva natural, área protegida, bem ao lado dos hotéis. É aqui que paramos para mostrar que sem sair de Saïdia se pode “fazer uma escapada na natureza”. O turismo de massas fica para trás (por estes dias ainda não é bem de massas: em duas semanas começará a época alta, com o final do Ramadão e do ano escolar) e o edifício do futuro Centro Ambiental ergue-se, em madeira, à espera de interior (espaço interactivo, vocacionado para crianças). Estamos numa área protegida de três mil hectares, o mar para um lado, a zona húmida para o outro. Pelo meio, caminhos, trilhos pedestres e equestres, torres de observação de aves – “Entre Novembro e Janeiro está cheio de flamingos rosa a caminho de ‘África’, fazem reserva”, brinca Mohammed. “Agora também há alguns, mais sedentários, mas só se vêem bem cedo.” Não é “bem” cedo, ficamo-nos, portanto, pelos patos, alfaiates e gaivotas prateadas, entre 600 espécies de flora diferentes e um passeio até à foz do rio Moulouya que pode durar “entre meia e uma hora” (já me habituei ao relativismo marroquino).

Se seguíssemos a estrada costeira iríamos até Tânger, mas o desvio é para o interior. A região é agrícola. Há burros na estrada, apanha de batatas, campos com feno já em fardos; há sobretudo laranjas e clementinas – e há também um grande centro de transformação agro-alimentar, onde tanto se faz queijo Gouda, por exemplo, ou se extrai a sacarina das beterrabas para fazer açúcar. Passamos Madagh, pequena cidade rural e grande centro sufista, e paramos em Berkane, “cidade pequena”, de 150 mil habitantes. É o grande centro desta região, e a capital marroquina dos citrinos: o laranja é a cor predominante, seja nos táxis, seja nos autocarros, edifícios – e o símbolo da cidade é uma laranja de metal colocada numa rotunda. A avenida principal “está cheia de bancos onde os agricultores depositam o dinheiro”, as esplanadas estão cheias ainda que ninguém consuma (estamos no Ramadão) e se aqui paramos é apenas pelas cegonhas, espécie que “a cidade protege”. Os ninhos são presenças quase fantasmagóricas nos ramos das árvores de escassa folhagem e no topo do minarete no que parece ser a praça principal de Berkane.

Cidade para trás, Vale do Zegzel para diante. Se antes tínhamos laranjeiras a rodear-nos, agora são as nespereiras, em final de época. “Três quartos da produção nacional vem daqui”, sublinha Mohammed, que está em casa. É nado e criado na zona, embora agora viva em Oujda, depois de passagens por Paris e Genebra, onde estudou, e não esconde o orgulho que é poder mostrar a sua região. Aqui as montanhas têm cor laranja e as paredes são propícias a escaladas, os vales cobrem-se de nespereiras e no meio erguem-se minaretes e vêem-se algumas casas; à beira do caminho são figueiras da Índia (cactos de onde aqui se extrai um óleo essencial “muito caro” usado na cosmética)) que nos acompanham em troços. Há alguns canaviais, ainda que o rio ou esteja subterrâneo ou canalizado em levadas de cimento: é todo um conjunto onde a flora endógena se mescla com a agricultura disposta em socalcos (além das nespereiras, espreitam oliveiras, amendoeiras, romãzeiras).

Os montes Beni Snassen erguem-se excentricamente à nossa volta mas nenhuma forma é mais caprichosa, ainda que tosca, do que a da Gruta do Camelo. Tem esse nome pela forma exterior, o cume de um monte onde se distinguem as formas da bossa. A Gruta do Camelo foi descoberta durante o Protectorado Francês (1912-1956) e esteve fechada durante mais de 30 anos devido a conflitos locais entre várias agências governamentais e regionais. O consenso chegou e a gruta está preparada para receber visitantes: a longa escadaria exterior e as várias interiores, iluminação, música, controlo de temperatura e humidade. Só falta mesmo concessionar a exploração destas, portanto, o visitante que as quiser visitar tem de descobrir Hamdaoui, o “guardião da gruta”, um ancião de idade indeterminada e sorriso bondoso que guarda as chaves, e pagar 20 dirhams (dois euros). Quem é praticante de espeleologia tem uma brochura especial com um circuito distinto; quem vem, como eu, de chinelos, não tem qualquer dificuldade em circular, balizado que está o percurso por escadas. A maior parte da gruta calcária abre-se em grandes salões, onde estalactites e estalagmites desenham formas por vezes deslumbrantes e se vêem afloramentos de rosa de calcário, que brilham como cristais, ou de “mosaicos” naturais. No futuro, prevêem-se fazer, numa das “salas”, concertos, de música marroquina e europeia, com fins humanitários – a Orquestra Sinfónica de Viena já disse “porque não?” – e a prática de ioga também não está posta de parte.

Na pequena aldeia de Zegzel (120 habitantes), almoçamos em casa de família – por acaso na do “guardião da gruta”; há outras famílias que abrem a porta a forasteiros. No pátio da casa, à sombra de enorme nespereira, já despida de frutos, três mesas esperam as saladas generosas e as tajines de cordeiro que acabam de cozinhar diante de nós – para sobremesa há fruta, incluindo as “últimas nêsperas da temporada”.

Pelos vistos ainda há muitas nêsperas da temporada. De volta à estrada, paramos junto de dois rapazitos com baldes delas. Mohammed vai comprar, é o rapaz mais novo, franzino, quem negoceia. “Pediu-me 10 dirhams, se tivesse pedido 20 daria. Não ia regatear. Ajudar os mais pobres é um dos pilares do Islão, sobretudo no Ramadão”, explica. Vamos a caminho de Tafoughalt, aldeia de montanha que surpreende pelo colorido do casario. A vegetação vai-se adensando à medida que subimos: deixamos os ocres para trás e somos envolvidos por verdes. Não visitamos a Gruta dos Pombos, mas Mohammed explica-nos a sua importância arqueológica – tanta que se prepara uma candidatura a Património Mundial da UNESCO. Os trabalhos vão continuando à medida da disponibilidade financeira para as escavações, mas já foram encontrados vários esqueletos do Neolítico Superior, o Homem de Tagoughalt, que estão no Museu do Homem em Paris. Aqui, diz Mohammed, encontraram-se ferramentas de sílex e provas da realização da primeira trepanação; também se encontraram provas de um protótipo de beleza feminina pouco usual aos olhos de hoje: a retirada dos dois dentes da frente.

Em Tafoughalt não temos muito tempo, o suficiente para percorrer o pequeno mercado, cheio de sacos de especiarias mais ou menos reconhecíveis, ervas aromáticas, cereais, laranjas selvagens muito perfumadas, bancas de frutos secos, algum artesanato e mel. Esta é, aliás, uma região conhecida pelo mel e é costume as estradas estarem ladeadas de vendedores – como é Ramadão, tal não acontece. Eu comprei mel, depois de o provar – é quase impossível recusar provar algo, provei coisas de que não me recordo o nome, apenas fixei a alfarroba; e ouvi loas ao óleo de aragan. Esta é uma zona muito procurada ao fim-de-semana, quando os restaurantes se enchem de gente que vem pelas tajines. E se não há muito alojamento – três ou quatro turismos de habitação – já se vê o anúncio da construção de um resort de montanha à entrada da aldeia.

O regresso a Saïdia faz-se pelo outro lado da montanha. Numa hora estaríamos novamente à beira-mar, não fora o desvio para o centro equestre Club Yassmin, no meio de pomares de laranjeiras onde se fazem os passeios a cavalo – não tivemos direito porque não havia funcionários suficientes.

A última noite em Saïdia tem cheirinho a Marrocos – no buffett e na animação. Ouvimos pela primeira vez a reggada, o estilo de música típico de Berkane. E foi bonita a festa.

A Fugas viaja a convite do Turismo de Marrocos em colaboração com a Solférias e os hotéis Be Live

 

 

 

 

Eu regateio, tu regateias: portugueses tesos

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Abdul, para abreviar, brinca, é o guia do nosso segundo dia em Fez que é na verdade uma manhã – almoço incluído, o que em Marrocos pode significar duas ou três horas. Não caímos nesse erro e quando chegamos ao restaurante pedimos tudo ao mesmo tempo, entradas e prato principal, uma deliciosa tajine de carne de vaca que se desfaz com um garfo apenas.

Mas ainda faltam umas horas para o almoço quando saímos do hotel para uma visita a Fez-fora-da-medina. Primeira paragem: Palácio Real; primeira abordagem: vendedores (nada de novo); primeiro aviso de Abdul: não tirem fotos aos guardas reais. Estamos numa espécie de coração de Fez fora das muralhas, junto ao portão principal do palácio que, contrariando a vetustez de outras partes do enorme complexo (início da construção no século XIII, quando se tornou uma cidade imperial, se bem que a sua fundação remonte ao século IX), é bem recente, da década de 1960, inspirado no estilo marroquino-andaluz. A grande porta de bronze, “feita por artesãos da medina”, concentra todas as selfies, mas o conjunto com o trabalho de azulejaria impressiona.

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O tempo aperta e Abdul não tem complacências com “a família”. É sobre rodas que atravessamos a rua que divide o bairro andaluz, com varandas nas fachadas, do bairro judeu, com portas cinzentas – explicação simplista. Fez foi o porto de abrigo de muitos muçulmanos expulsos do último reduto ibérico pelo recém-criado reino de Espanha e pouco depois chegaram os judeus sefarditas, conhecidos por venderem ouro. Actualmente, a principal comunidade concentra-se em Casablanca, a capital financeira do país, mas Fez preserva um dos maiores bairros judaicos de Marrocos e mantêm-se, por exemplo, a sinagoga e o cemitério, última morada de rabis importantes e, portanto, ponto turístico para muitos judeus.

Vamos a caminho do Borj Sud, fortaleza numa colina do lado sul da medina que tem uma irmã do lado norte – tudo para reforçar a protecção da medina. A entrada na torre está vedada, mas a vista sobre a cidade é imperdível e a subida faz-se atravessando uma espécie de Monte das Oliveiras. Apesar da polícia, em modo relaxado, quase indiferente, os vendedores não se coíbem de oferecer produtos do lado de fora do gradeamento, onde os turistas se empoleiram para encontrar os melhores ângulos sobre a medina.

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Novamente regressamos à medina, para avançarmos até ao bairro dos curtumes, um dos produtos mais emblemáticos da cidade. Peles de vaca, cabra, cordeiro, dromedário transformam-se em carteiras, malas, porta-moedas, casacos e as incontornáveis babouches, os chinelos pontiagudos tão típicos destas paragens. Pelo meio, já mergulhados outra vez no dédalo da medina, a anedota mais comum entre os guias marroquinos: “Se encontrarem marroquinos de olhos azuis ou verdes não se admirem, são os turistas que se perderam e não regressaram.” Mais a sério, Abdul assume que são muitos os marroquinos que também se perdem por aqui e que nunca está longe um rapaz que se oferecerá para nos conduzir para fora da almedina – a troco de algum dinheiro, claro.

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Enquanto caminhamos, passamos as ruas dos tecidos, onde o barulho seco e regular dos teares é habitual. Os vestidos aqui podem custar entre 20 e 50 mil euros, afirma Abdul – uma companheira de viagem compra um por 150 euros; o preço começou nos 450, por isso pensamos que foi um óptimo negócio. Entre as ruas estreitas, tantas vezes cobertas como se fossem corredores interiores, o “túmulo de um homem santo” sobressai numa pequena fachada, singelo mas harmonioso, mas com o arco árabe e os azulejos como decoração.

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Vamos seguindo o guia até chegarmos ao curtume Chouara, que reclama o título de mais antigo de Marrocos e Norte de África (900 anos). O raminho de hortelã que oferecem à entrada pode parecer exagerado, mas rapidamente todo o grupo tem uma folha enfiada numa das narinas, pelo menos, tal a intensidade do cheiro. Subimos até ao último andar e são as vistas que cativam. IMG_7070Estamos quase sobre os tanques escavados (dizem que pelos fundadores da cidade) que vistos de cima parecem os favos de uma colmeia irregular: uns são brancos, do amoníaco e cal usados para o primeiro tratamento das peles; os outros são coloridos, sobretudo vermelho gasto, castanho ou amarelo, usados para tingir a pele. Os trabalhadores equilibram-se nas suas bordas para assegurar que as peles não se estragam. Mas o funcionário-guia não está interessado em que vejamos as vistas. Apressa-nos para a explicação – “Só trabalhamos com animais que comemos”, antes de passar à parte técnica debitada como se de uma metralhadora se tratasse –, que é apenas a ponte para chegar ao pragmatismo da venda. “Portugueses tesos”, escutamos novamente, com desprezo quando o grupo parte de mãos a abanar.

Não acontecerá o mesmo numa “ourivesaria”, onde parte do grupo chega antes. Várias compras e vendedor muito satisfeito com os clientes portugueses. Quem chega na segunda leva já nem precisa de regatear, os preços para os portugueses já estão mais baixos; as turistas espanholas que também estão na loja não têm a mesma sorte mas tão-pouco parecem interessadas em discutir preços.

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Ainda passamos pela zona dos latoeiros, o martelar ritmado e alguma desconfiança das máquinas apontadas. O que é normal, por isso o melhor é mesmo pedir para tirar fotos – anuências e recusas escutam-se na mesma proporção. Quando se tem tempo o melhor é esperar pacientemente em localização estratégica e discreta para fotografar gente, sempre com atenção ao trânsito: não há veículos motorizados, mas os burros carregados com “alforjes” modernos (como grades de Coca-Cola, por exemplo) ou carros de mão são comuns, e os marroquinos também são apressados, seja o pai com a família, seja a velhota nas compras. Porque, mesmo estando em período de Ramadão e os muçulmanos não possam comer entre as 3h30 e as 19h30, as bancas de comida estão cheias. Dos doces tradicionais, carregados de mel, à carne e peixe, passando pela fruta e as inevitáveis especiarias – a parte dos produtos frescos é a mais difícil de atravessar devido à esquizofrenia de cheiros.

O almoço no restaurante Palais La Médina é tipicamente marroquino, mas o nome engana. Estamos fora da medina e não sei o que é mais fascinante, se o espaço, como um palácio requintado, se a comida. Só sentimos algum remorso quando vemos Abdul a esperar-nos sem se poder juntar ao repasto, onde destacamos uma das entradas, espécie de chamuça com uma massa mais fina recheada de arroz com flor de laranjeira – sabor a canela e reminiscências de sonhos. Os portugueses, de Natal, num cenário das mil e uma noites.

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A Fugas viaja a convite do Turismo de Marrocos em colaboração com a Solférias e os hotéis Be Live

“Compra a Linda ou dá-me o dinheiro”

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Há sempre algo de mágico quando escutamos o muezzin chamar para a oração. Mas na medina de Fez quase passa despercebido perante as vozes que se multiplicam nas suas ruas, ruelas, becos apertados. O mais belo que escutei foi ao pôr do sol, já na varanda do hotel, com a medina no horizonte, metade já na sombra, outra ainda a brilhar com os últimos raios de sol.

IMG_6786Sabe especialmente bem ouvir o chamamento depois de um dia de calor e de muito caminhar. A medina é labiríntica e enorme: 15 quilómetros de muralhas encerram 350 hectares de área e mais de nove mil ruas (algo como 30 quilómetros) que servem a população que aí vive, 120 mil, e todos os que ali vão no dia-a-dia, incluindo, claro muitos turistas.

É evidente que não vimos grande parte da medina, não temos ilusões. E na primeira tarde aí não tivemos sequer muito tempo para observar o comércio, a actividade dominante na zona antiga de Fez, que é completamente autónoma, ou seja, tem desde bancos a escolas e outros serviços públicos e equipamentos em 14 mil edifícios. Não é um museu ao ar livre, é um local onde a vida se solta por todos os poros. Temos por guia um arquitecto que nos espera na porta Bab Boujloud, uma das principais, para nos mostrar o trabalho de reabilitação que está a ser feito por toda a medina. “Estamos 24 horas de prevenção”, explica, “se nos chamam de noite, vamos ver o que se passa.”IMG_6785

Os locais onde leva o grupo são icónicos deste trabalho: estão concluídos, embora nem todos já a funcionar. Mas também nos leva a uma das casas sinalizadas para reabilitação: no rés-do-chão funciona uma loja de tecidos e do pequeno pátio agora coberto vemos os três andares que se erguem em madeira. O dono oferece-se para nos mostrar a casa, visita rápida, e o terraço – subimos e caímos numa das armadilhas mais comuns: no final pede-nos dinheiro pelo que julgáramos ser uma cortesia. Resistimos à pressão – mas escutámos pela primeira vez “portugueses tesos” – e tivemos a primeira visão “aérea” da medina, que se pinta de bege, embora a cor da cidade seja o azul – todas as cidades imperiais têm uma cor associada. O mausoléu de Moulay Idriss (o fundador de Fez) com o seu telhado piramidal verde destaca-se, ao lado de um minarete, também ele com pormenores verdes, que pertence à universidade mais antiga do mundo, Quaraouiyine, fundada no ano 859; mais perto de nós, um dos locais de visita do dia seguinte, o curtume Chouara: vemos os tanques onde a pele é lavada e preparada e aqueles onde é tingida.

Uma das primeiras paragens é a madrassa, Bouinania construída no século XIV para receber estudantes de todo o mundo. É uma das cinco que foram recuperadas entre 2013 e 2016 – em breve voltará a receber estudantes, como uma espécie de residência universitária, já não escola corânica. A ideia da restauração das madrassas é “mostrar a tolerância do Islão” e a Fez chegam estudantes de todo o mundo.

IMG_6695Outra das passagens é o kissariat Al Kifah, o mais antigo mercado da medina, que ainda cheira a novo e tem poucas lojas abertas: sucedem-se as lojas, estreitas, em madeira, na estrutura coberta revestida a azulejos. “Quisemos recuperar este espaço histórico para manter o comércio e incentivar os jovens a não deixar a medina”, explicam-nos. Nova paragem num antigo fondouk (hospedaria) que já está preparado para receber actividades de artesanato apenas feito por mulheres. Porquê apenas mulheres? Porque neste local, nos séculos XIII e XIV, vendiam-se mulheres; mais tarde, também aqui, as mulheres recolhiam órfãos que amamentavam. A história foi contada a uma fundação norte-americana, que quis recuperá-lo para dar uma nova imagem das mulheres na sociedade marroquina. Vai ter uma creche e no terraço um café para permitir gerar receitas para que as mulheres consigam garantir a manutenção do espaço.

Numa das paragens à espera da reunião do grupo, disperso pelas fotos, entretenho-me com Mohammed, não mais de seis anos, francês algo macarrónico (um pouco como o meu, na verdade), que está sentado à porta de uma loja com a Linda, uma gata bebé, “trois mois”, diz, arruivada. Quando me despeço ouço: “Compra a Linda”. “O quê?”, é a única coisa que consigo dizer, desconcertada. Repete. Tento explicar que não a posso levar no avião (mesmo que quisesse). “Então dá-me o dinheiro da compra.”

Amanhã é um novo dia em Fez.

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L’argent dos dromedários e a vida num resort

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Ainda não saímos de Saïdia e ainda não estamos aborrecidos. Sim, a vida num resort tem as suas rotinas, que por estes dias começa por volta das 10h, quando a música começa a sair dos altifalantes numa das piscinas – a outra mantém-se mais recatada. Rapidamente, os anúncios das actividades, zumba ou ioga ou até um torneio de pingue-pongue. O Kids Club rapidamente enche, assim como as espreguiçadeiras em torno da piscina. Como o snack bar de apoio também abre a esta hora, há quem tome o pequeno-almoço aqui ao lado de uma mesa já com cocktails. Depois, há quem fique pela piscina, quem vá à praia, quem ande num ziguezague – e quem vá ao spa ou ao ginásio.

Às 18h a vida no Hotel Be Live Collection Saïdia muda de ritmo. Fecha-se o bar da piscina, a música pára e esvaziam-se as espreguiçadeiras. Ficam meia dúzia de resistentes que usufruem do pôr do sol em tranquilidade total. Em mês de Ramadão, os relógios atrasam uma hora e às 19h30 já as luzes das lanternas que desenham os caminhos do hotel – três edifícios de alojamento de três andares, separados por piscinas, um comprido, apenas rés-do-chão, social, e outro do spa – já estão acesas, dando um aspecto feérico ao espaço onde, claro, os motivos árabes são a regra (não faltam as torres à laia de minaretes). Começa o desfile nocturno. Uns levam a noite a sério (vemos mesmo lantejoulas), outros estão completamente relaxados – a maioria opta por um meio termo. Nessa altura, o Sports Bar é um ponto de passagem para uma bebida antes do jantar. Depois de jantar é novamente ponto de encontro e torna-se discoteca com animadores de serviço.

IMG_6537Este quotidiano percebemos ao terceiro dia, porque as nossas manhãs têm sido sempre preenchidas fora do resort: primeiro com atividades náuticas, depois com golfe no Saidia Med Golf. Hakim e Zidane são os professores de serviço para o que é a iniciação de todo o grupo no desporto. Com mais ou menos sucesso, todos acertam algumas tacadas – e descobrem-se alguns talentos escondidos (não no nosso caso). O almoço no Club House é um banquete servido com pompa. À tarde aventuramo-nos numa das actividades disponibilizadas pelo Hotel Be Live Collection (não-incluída-no-tudo-incluído), um passeio de dromedário pela praia. Quinze minutos com Mohamed a conduzir pacientemente a minicaravana de quatro dromedários, todos presos uns aos outros. É tão pacífica a experiência que Mohamed vai falando ao telemóvel – os animais são dóceis, com um ou outro capricho. Mohamed tenta tranquilizar os mais receosos de serem vítimas de algum capricho animal.

Mohamed, 34 anos, trabalha entre Saïdia e Marraquexe, de onde é originário. Passa cinco meses aqui, “enquanto os hotéis estão abertos”, e o resto do ano em Marraquexe. Sempre com dromedários. Nunca fez outra coisa e fá-lo há 15 anos. Não há qualquer tradição na família. “C’ est pour l’argent”, diz, com um sorriso rasgado.

Amanhã usufruíremos de outra actividade proporcionada pelo hotel – sempre com pagamento à parte: uma visita a Fez. Quatro horas para cada lado, de transfer. Nós temos sorte, passaremos uma noite na cidade imperial. Vemo-nos lá, portanto.

A Fugas viaja a convite do Turismo de Marrocos em colaboração com a Solférias e os hotéis Be Live

Des-pa-ci-to em Saïdia

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São 16h de domingo em Saïdia (província de Berkane, nordeste de Marrocos). Na praia diante do Hotel Be Live Collection, a zona concessionada, guarda-sóis toscos de palha como que a fazer a demarcação, poucos são os que aproveitam a sombra. São mais os corpos que se estendem ao sol nas espreguiçadeiras brancas, invariavelmente cobertas com as toalhas azuis do resort, do que os que procuram a sombra. Confesso: sou eu e mais meia dúzia de pessoas. Há quem se adentre no mar e caminhe metros e metros e continuamos a ver-lhes a cintura. Há quem rodeie os quatro dromedários que estão à espera de passeantes, mas só encontram fotógrafos e poseurs. Há vendedores que não insistem e quase fazemos, afinal, uma pintura de hena pelo sorriso com que nos respondem a uma nega. Há uma aragem persistente e pequenas ondas que quase não o chegam a ser – fica a espuma dos dias iniciais do período estival no Norte de Marrocos, com a Argélia à vista.

Nós chegámos no sábado, no primeiro charter da temporada saído do Porto; horas antes havia saído o de Lisboa. O destino é o aeroporto de Oujda. Daí, são 45 minutos de transfer, muitas vezes com o arame farpado da fronteira com a Argélia quase ao lado da estrada, até esta estância balnear criada quase de raiz para se tornar uma área de lazer. Continua, aliás, a crescer. Há inúmeros empreendimentos, casas e hotéis ainda em tijolo e cimento, e até um parque aquático que deveria abrir em Agosto mas pelo andar das obras será para o próximo ano.

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O Hotel Be Live não está nem a metade da ocupação. O português e o espanhol são as línguas mais ouvidas – uma companheira de viagem acerta: “É o Portugal dos pequeninos”. Mas, ainda no sábado, pouco tempo antes de o jogo Juventus-Real Madrid encher o teatro, escutamos italiano, francês e, horas mais tarde, no Sports Bar transformado em discoteca com animadores e tudo, ouvimos techno russo – discos pedidos por um casal da Rússia que, coincidência, ocupa as espreguiçadeiras contíguas à nossa, agora com os dois filhos.

Voltamos à praia. Há uma tranquilidade pouco habitual para os conhecedores da cacofonia das praias portuguesas. Além do mar, de vozes e risos, chega-nos o som abafado da música que anima um dos complexos de piscinas do resort – há um outro onde a tranquilidade é santo-e-senha. Tão abafado que é impossível discernir qual a música. Certo é que “Despacito” confirma-se como o grande hit (pré-)estival de 2017, ouvido a cada hora.

E se nesta tarde, enquanto escrevemos, a aragem se está a transformar em vento e a provocar uma pequena debandada da praia, a manhã foi de ausência de vento e o passeio de catamarã foi mais um embalo pelas águas mansas do Mediterrâneo. A saída foi da marina, 15 minutos a pé pela praia, nem cinco minutos de carrinha – não há trânsito, pelo menos por enquanto, em Saïdia. Com tamanha tranquilidade nas quase duas horas de catamarã, não resistimos depois à velocidade da lancha rápida que nos levou quase à fronteira com a Argélia: Marrocos à beira-mar, Argélia a meio do monte que constitui o promontório que nos barra o horizonte a oriente (a ocidente vemos os contornos de ilhas). Quando desembarcamos perguntam-nos, em francês, de onde somos. Portugal não chega. “Madeira?” Sim, o Cristiano Ronaldo está na boca das gentes (e nas televisões – veremos um documentário sobre ele, legendado em árabe, no Sports Bar).

E antes que o vento nos leve, vamos mergulhar no Mediterrâneo. Logo contaremos como estava a água.

P.S. A água estava perfeita. Difícil foi sair. Depois da saída, o vento não deixou muito mais tempo na praia. Vamos à piscina. “Frio”. Vamos ao bar, comemos um crepe e terminamos a tarde no jacuzzi do quarto – temperatura: ideal.

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Em Eticoga, as palavras não servem para nada

Deixamos Bubaque para trás e embarcamos em direcção a Orango, outra ilha do arquipélago dos Bijagós que apontamos no currículo. Já passa das 17h. Tinham-nos avisado que a travessia marítima seria tão mais difícil quanto mais nos aproximássemos do final da tarde – e não nos enganaram. Grande parte da viagem é feita com água a bater-nos na cara, na cabeça, nas pernas, em todos os centímetros de pele. Aportamos já a noite está a cair, encharcados até aos ossos, e pouco vemos do Orango Parque Hotel, o único da ilha, inserido no Parque Nacional de Orango, criado em 1998. Só queremos um banho quente.

Na verdade, o que há para ver não é aqui, em Ponta Anabaca, onde está este hotel simples, dedicado ao ecoturismo numa das ilhas com maior biodiversidade da Guiné-Bissau. O muito que há para ver em Orango está aqui à volta: é famosa a sua colónia de hipopótamos, mas não os encontramos porque, agora que se aproxima a época das chuvas, migram para zonas mais favoráveis. Também há tartarugas marinhas e manatins  africanos.

E depois há a tabanca Eticoga, onde temos uma das experiências mais intensas desta nossa viagem pelos Bijagós. Para lá chegarmos, seguimos Teófilo da Silva, guia do Parque Nacional de Orango e membro desta comunidade onde vivem umas 2000 pessoas. Temos que andar três quilómetros por um caminho de areia paralelo ao mar, debaixo de calor intenso – e ainda são dez da manhã. Mesmo assim, a caminhada faz-se sem sobressaltos e em pouco mais de meia hora estamos a entrar na tabanca, onde rapidamente somos recebidos por bandos de crianças sorridentes. Antes, porém, cumprimos o cerimonial que se impõe. Esta é a tabanca onde viveu Okinca Pampa, a rainha dos bijagós, e temos que pedir-lhe autorização para entrar. É um ritual breve, interior, que cada um cumpre para si. Em Roma, sê romano.

Okinca Pampa morreu em 1930 mas a sua presença continua muito viva em Eticoga. Logo à entrada, deparamo-nos com o Jardim Infantil Netos Pampa, onde os miúdos que aqui vivem aprendem que “a escola é orientada pela professora”, “a escola é a higiene”, a “escola é ser alguém na vida”. É também em Eticoga que está o túmulo da rainha, um lugar sagradíssimo para os bijagós, que visitamos na companhia do régulo da tabanca, Augusto Fernandes Pereira, 92 anos apoiados numa vara comprida e pontiaguda.

É difícil não cair no cliché quando se fala de lugares como Eticoga. E não há outra forma de dizer isto: esta é uma comunidade pobre. As casas de adobe e cobertas de palha falam por si e é por caminhos de terra batida e areia que nos movimentamos por toda a tabanca, entre baldes abandonados e porcos à solta. Agora sim, o cliché: a grande riqueza de Eticoga são as pessoas. Nem sempre a comunicação é fácil, vale-nos que temos Teófilo connosco e ele vai traduzindo o que é verdadeiramente indispensável. Tudo o resto não precisa de tradução: quando Graça, Sandra, Vânia, Ianisi ou Zidan nos dão a mão e nos guiam pela aldeia; quando pedem que lhes peguemos ao colo; quando põem uma branca num círculo e lhe afagam o cabelo com mãos pequeninas; quando nos acompanham até à saída da tabanca e ficam a acenar-nos quase a perder de vista, temos a certeza que as palavras, às vezes, não servem para nada.

Sandra Silva Costa (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam a convite da TAP e do Ministério do Turismo da Guiné-Bissau

Ninguém fale em betão a Adelino da Costa, ele é todo da natureza

Acorda-se cedo, não com as galinhas mas com toda outra sorte de bichos que não sabemos identificar. Ainda não são sete e meia e já andamos pela praia de Ponta Anchaca, a tirar a temperatura da água, um imenso espelho que só não brilha porque o sol ainda não se apresenta em todo o seu esplendor.

Preparamo-nos para cair no mar quando nos deparamos com eles: seis ou sete mulheres (e um menino, não mais de quatro anos, a brincar em roda delas) arrastam molhos de palha que vão usar para os telhados dos “bungalows”. Vivem na ilha em frente, Bubaque, e vêm a Rubane, onde ainda estamos, cultivar arroz, quando é época (de Maio a Novembro), ou então fazer trabalhos para o hotel. Foi essa a condição que Solange Morin viu estabelecida quando abriu o seu lodge.

“Reconstruí 19 casas na ilha em frente e já formei 42 jovens de Bubaque que trabalham ou trabalharam no hotel”, explica a francesa de 54 anos, que há dez vendeu os dois hotéis que tinha no Senegal para se mudar de armas, bagagens e coração para Ponta Anchaca e dedicar-se ao ecoturismo. “Estava farta de hotéis de betão.”

Ninguém fale em betão a Adelino da Costa. Ele é todo da natureza. Guineense da ilha de Jeta, no Noroeste do país, passou parte da infância e a adolescência em Portugal, no Bairro das Marianas, em Carcavelos, um lugar que o “formou para a vida”. Tem uma história longa e inspiradora, e dela daremos conta mais tarde, mas para o que aqui nos traz basta-nos uma versão abreviada. Enquanto manjaco, uma das muitas etnias da Guiné Bissau,  Adelino, “Da Costa” para os amigos, sempre teve na luta uma parte da sua identidade. “Os manjacos estão sempre a lutar, é cultural”, explica. Em Portugal, praticou karaté,  kick boxing, muay thai. “E depois percebi que queria ser campeão do mundo e tive que mudar de vida.”

Foi para os Estados Unidos, para o Harlem, onde começou “por lavar pratos num restaurante”. Trabalhava madrugada dentro e acordava “às seis da manhã” para ir treinar boxe. Chegou aos quartos de final no apuramento para os Jogos Olímpicos de 2004. “Perdi e ainda me dói”, recorda. Mas foi essa derrota que o impulsionou para o desafio seguinte: abriu um ginásio em Nova Iorque,  depois outro, e outro – e agora são cinco. E mais dois em Bissau.

No ano passado, abriu o Dakosta Beach Camping, em Bubaque. É um projecto de turismo ecológico composto por “bungalows” e tendas de “glamping” viradas para a praia de Bruce, esta mesma onde estamos agora, em mergulhos que têm tanto de rápidos como de retemperadores  – não esquecer que estamos na Guiné Bissau, o calor aperta de manhã à  noite.

Mas não é só de resorts para bolsas afortunadas que se faz a intervenção de Da Costa em Bubaque. Só para dar um exemplo: é ele o responsável pelo “bloco operatório” que se está a erguer na ilha e que “talvez no próximo ano” já esteja a postos para dar assistência aos cerca de 30 mil bijagós que vivem nesta ilha. “Não podemos estar à espera dos outros para fazermos coisas boas pelas pessoas”, justifica Adelino.

Pessoas como as que vivem na tabanca de Bruce,  por exemplo, onde entramos em passo de corrida e somos recebidos de braços e sorrisos abertos. Já tínhamos dito que esta é a língua franca da Guiné Bissau, lembram-se?

Sandra Silva Costa (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam a convite da TAP e do Ministério do Turismo da Guiné Bissau

Atrasos? “Ka tem problema”, temos uma ilha sagrada

Guiné-Bissau - Paulo Pimenta

Chega-se a Bissau à noite, 28 graus às 23h logo para inícios de conversa. Do aeroporto Osvaldo Vieira ao Hotel Ledger não são mais de cinco minutos e até lá pouco se cheira desta capital da Guiné Bissau (os mais fortes ainda vão à discoteca Balafon, mas dos fracos não reza a história…). Espera-se pela manhã e aí sim, eis-nos em África – e nem é preciso muito, basta que se cruzem os portões do hotel: táxis azuis em todas as direcções, buzinas alto e bom som, uma avenida forrada a poeira alaranjada, saldo de telemóvel à venda numa barraca plantada na rua, “mulheres-capulanas” de todas as cores com bacias à cabeça, crianças de uma escola corânica cantam e pedem fotografias. Falam português, mas pouco. “Eu chamo Emília “, “Eu chamo Patinho”. A alegria não precisa de mais, tem uma espécie de língua franca que se expressa com sorrisos abertos.

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E depois disto estamos prontos para o que há-de vir. E vem um trânsito caótico até ao centro de Bissau, cidade ainda a lamber feridas de cicatrizes várias. Passa-se o mercado do Bandim, o maior da cidade, e vê-se de tudo à venda: artesanato, roupa, televisões, frigoríficos, mangas e tudo o mais que vier à rede. “O que precisar, está tudo aqui”, conta Manuel Alípio da Silva, director-geral do Turismo da Guiné Bissau.

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Vamos em direcção ao porto, onde apanharemos um barco que nos há-de levar à ilha de Rubane, uma das 88 que compõem o arquipélago dos Bijagós, mas antes ainda passamos pela Praça dos Heróis Nacionais, gigantesca rotunda onde está instalada uma espécie de parque infantil e ponto de encontro das famílias de Bissau. Até à Fortaleza de São José da Amura é mais um instante e daqui ao porto uns quantos solavancos por estradas esburacadas. No porto, por fim, ainda esperamos mais de uma hora até zarparmos e nos entretantos vemos centenas de guineenses num barco apinhado – eles e pelo menos uma vaca e um porco.

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Nós largamos à segunda tentativa, que houve uma avaria que não estava no programa. Deixamos o cais às 13h e vamos contra a maré. A viagem há-de durar mais de três horas e a primeira é feita de emoções e vários banhos com que não contávamos. “Ka tem problema ” – “não tem problema” em crioulo: o sol está envergonhado mas cumpre a sua função.

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Chegamos ao Hotel Lodge Ponta Anchaca, da francesa Solange Morin, já depois das 16h e só nos resta mergulhar nas águas calmas e tépidas. Depois disto, um copo de vinho branco e mancarra (amendoim), outra vez para inícios de conversa. As malas ainda não chegaram, mas quem precisa de roupa lavada quando tem peixe fresco e uma ilha sagrada aos seus pés?

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Sandra Silva Costa (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam a convite da TAP e do Ministério do Turismo da Guiné Bissau

Um pneu furado com sabor a tarte de maçã em Solitaire

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“Welcome to Solitaire”, deseja o letreiro, ao lado de uns quantos destroços de carros antigos, enterrados na areia. Charmosos, claro, como qualquer poética ruína. Um pneu furado, pão nosso de cada dia para qualquer viajante de carro na Namíbia, determinou uma paragem prolongada aqui, a única civilização com posto de gasolina na estrada que liga Walvis Bay às famosas dunas de Sossusvlei, a quase 400 quilómetros de distância. E ao fim de três horas de viagem, com mais duas pela frente, por caminhos de gravilha com muitos altos e muitos baixos, a mensagem de boas-vindas soa algo irónica, sobretudo a olhar para o cenário apocalíptico que a circunda. E o nome, Solitaire. Que, viemos a saber depois, tem toda uma novela por trás, tendo inspirado inclusive o primeiro livro do escritor e realizador holandês Teo van der Lee, o terceiro habitante (de sempre) desta pequena terra.

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Por se encontrar à entrada do Parque Nacional Namib-Naukluft, onde se encontra parte do antiquíssimo deserto da Namíbia, Solitaire é um ponto de paragem obrigatório para muitos turistas. O que quer dizer muito para uma terra no meio do deserto que não aloja mais do que cem habitantes e que se resume ao tal posto de gasolina, um mecânico, uma loja, uma capela e um lodge. E, claro, à padaria-pastelaria Moose Macgregor Desert Bakery, conhecida pela tarte de maçã, “a melhor da Namíbia”.

Confirma-o Yvette Naris, a jovem supervisora da pastelaria, que todos os dias prepara tabuleiros e tabuleiros desta iguaria. Só no fim-de-semana de Páscoa foram mais de 20, sendo que cada um serve 12 generosas fatias. É fazer as contas. “Vem gente de todo o país para a comer”, afiança, enquanto serve mais um cliente. “Acabou de sair, está quentinha.”

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Natural de Tsumeb, a jovem chef recém-formada concorreu a este trabalho e foi aceite. Deixou a cidade natal há sete meses para se mudar para o deserto, a quase 700 quilómetros de distância. É “difícil”, confessa, as saudades da família apertam. Ainda agora regressou,  por isso só voltará a vê-los em Julho: ao fim de dois meses de trabalho (com folgas pelo meio) tem duas semanas livres, que usa para cruzar parte do país durante dois dias de viagem.

“Tem de ser”, vai dizendo, de sorriso aberto e olhos carregadinhos de futuro. Um dia, quer ter o seu próprio negócio: “uma pequena pastelaria e um pequeno restaurante”. “No deserto não”, talvez na sua cidade. A avaliar pela tarte (provada e aprovada) terá sucesso.Quem diria que um pneu furado saberia tão bem?

A Fugas viaja pela Namíbia a convite da Across

Do silêncio à chinfrineira, de Damaraland à Costa dos Esqueletos

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Se há coisa que não falta na Namíbia é espaço. É possível andar horas, muitas horas, por estradas infindáveis e só nos cruzarmos com duas mãos cheias de pessoas – e é bem provável que uns quantos sejam viajantes em jipes com tendas de campismo no cocuruto.

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O nome já dá uma pista: Namib tem origem Nama e significa “local vasto”. Estamos no 34.° maior país do mundo e não se vê vivalma. Idiossincrasias de um território com uma das mais baixas densidades populacionais do globo: pouco mais de dois milhões de habitantes no total, distribuídos (e de forma muito pouco homogénea) por 825 mil quilómetros quadrados de território. Fora os turistas – na ordem de um milhão por ano.

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Atravessar Damaraland, e palmilhar as inóspitas montanhas avermelhadas, ou percorrer a Costa dos Esqueletos, com as fotogénicas dunas que escondem cadáveres de navios afundados, é conhecer um verdadeiro silêncio, apenas interrompido de quando em quando pela passagem de mais uma caixa a motor com rodas (que perante esta imensidão se torna algo claustrofóbica). Territórios a perder de vista, tão diferentes entre si, que convidam, e incentivam, à introspecção, toda uma outra viagem em si própria. Já dizia Flaubert: “Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.”

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Até que à chegada ao Cabo da Cruz, onde um padrão junto à praia assinala a passagem de Diogo Cão, o primeiro europeu a pisar a costa da Namíbia em 1486, abre-se a porta da carrinha e… tudo é diferente. Já não há silêncio, antes uma cacofonia estridente de balidos. Um cheiro nauseabundo invade, sem piedade, o ar outrora límpido. Diferente de qualquer outro odor que já inebriou estas inocentes narinas, entranha-se em cada poro, pêlo, fiozinho de cabelo.

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Desfecha-se então todo um aparato: milhares de lobos-marinhos estendidos no areal – que mal se distingue entre os corpos prostrados – empilhados uns em cima dos outros. Feitos estátuas ao sol, outros aparentemente enfurecidos com o vizinho do lado, crias a berrar pela mãe, nadadores a atravessar as ondas. Existem três espécies destes mamíferos no sul de África e os lobos-marinhos-do-cabo (Arctocephalus pusillus) são uma delas. Nesta colónia, a 115 quilómetros de Swakopmund, vivem durante todo o ano entre 80 a 100 mil adoráveis animais. Nota-se. A chinfrineira – e o perfume – não enganam.

A Fugas viaja pela Namíbia a convite da Across