Em Koh Kood, a levitar

Koh Kood,Deixámos Samed para trás e escondemo-nos na selva de Koh Kood, a quarta maior ilha da Tailândia, muito próxima já do Camboja, durante três dias. A viagem ainda foi longa: 20 minutos de barco até Rayong, duas horas e meia por estrada até Laemsok, na província de Trat, e daqui mais uma hora a sulcar as águas azul-turquesa do golfo da Tailândia. Entretanto, bem-vindos ao Soneva  Kiri. Ou, se preferirem, welcome to the jungle.

Koh KoodChegamos numa hora de sol forte, o que ajuda a dourar o cenário: a areia fina resplandece, para o azul do mar não há adjectivos e o verde da vegetação parece ter sido retocado de propósito. Não vemos a hora de cair na água, de boiar de olhos bem abertos para este céu que não acaba. Antes, porém, vamos conhecer a Amp – “De amplifier”, ri-se ela –, que nos recebe descalça no deck sobre o mar. Só mais tarde percebemos a ausência de sapatos. A filosofia do resort, que abriu em 2009, é esta: no news, no shoes. Isto quer dizer que os hóspedes também são convidados a andar de pé descalço (não, obrigada) e que a televisão do quarto, escondida numa enorme mala de viagem, só funciona com vídeos pedidos na recepção. Internet há, mas não em todo o lado, e a rede de telemóvel também não é universal.

Ficamos alojados na villa 61, que é composta por quatro quartos e uma piscina comum. A vista para o mar é incrível e depois ainda há uma infinidade de salas: duas ou três no segundo andar, uma de bilhar, uma pequena copa e um ginásio, e na volta ainda não vimos tudo. Algumas casas de banho são praticamente ao ar livre, resguardadas por uma paliçada de bambu, material que, aliás, está em grande destaque neste eco-resort. E isto quer dizer, naturalmente, que há aqui bichos com fartura, mas preferimos não pensar nisso, pelo menos por enquanto. Entremos, portanto, neste espírito Robinson Crusoe completamente assumido: até os mordomos à disposição de cada uma das villas se chamam Mr./Ms. Friday. Amp é a nossa Ms. Friday, já perceberam.

Algumas das 36 villas do Soneva Kiri têm acesso directo ao mar, mas “a” praia está a uma curta travessia de barco. Bastam menos de cinco minutos para chegarmos ao idílio. Escolhemos uma espreguiçadeira protegida do sol por uma fiada de coqueiros e corremos para a água, quente que quase nem refresca. Tínhamos prometido boiar e é o que fazemos, olhos fixos num céu azul pontilhado por algumas nuvens (ainda há-de chover forte enquanto aqui estivermos de molho, mas não é agora e na verdade a chuva não vai incomodar, antes pelo contrário). Ficamos dentro de água a pensar que esta imensa piscina cristalina, onde de vez em quando vemos cardumes de peixes listados, nos pertence por inteiro: há pouco, os quatro outros hóspedes do Soneva Kiri apanharam o barco, deixando-nos sozinhos nesta praia do Norte.

Perdemos a noção do tempo, mas estamos no mar até que os dedos das mãos quase desapareçam de tão engelhados. Os três funcionários que connosco permanecem na praia servem-nos água fresca e espetadas de fruta. Precisaremos de mais?

A não ser que nos ofereçam uma massagem no spa e, a seguir, uma aula de meditação que nos mostra que, afinal, talvez seja possível levitar.

Quando subimos as escadas de madeira que nos levam à sala camuflada pelo arvoredo já Vinay Kaushik está sentado no colchão. Imitamos-lhe a postura e ouvimo-lo explicar que o que hoje vamos praticar é ioga nidra – um estado de consciência entre o sono e o despertar que permite um relaxamento total do corpo. Deitamo-nos no colchão e a partir de agora simplesmente obedecemos à voz do indiano Vinay. “Fechem os olhos e concentrem-se na respiração.”

O canto dos pássaros e o restolhar das folhas das árvores torna-se cada vez mais longínquo e a voz suave mas firme de Vinay encaminha-nos para o lugar certo. “Concentrem-se no lado direito do vosso corpo”, pede o professor – e não é que o corpo obedece e quase se levanta sozinho? “Pensem no vosso joelho direito”, e o joelho parece ter vida própria e erguer-se ao comando de Vinay. O mesmo com o braço, o cotovelo, o ombro. O que é que se passa aqui?

Passamos ao lado esquerdo e a experiência é praticamente a mesma. Quando Vinay pede para olharmos para o nosso corpo como um todo, é realmente quase como se o estivéssemos a ver de fora. Repetimos: alguém sabe explicar-nos o que é que se passa aqui?

Koh Kood

A Fugas viaja a convite da Autoridade de Turismo da Tailândia e da Destination Asia

Alguém falou em tempestade?

praia Kiew Na Nok

Acordamos às 4h50 com um dilúvio. E, pouco depois, os trovões começam a estourar sem dó nem piedade. Debaixo da rede mosquiteira que protege a nossa cama, ainda resistimos alguns minutos a ir ver o espectáculo, mas o som acaba por tornar-se magnético. Corremos as cortinas e pensamos que toda a água do mundo deve estar a cair aqui. No céu riscam-se relâmpagos atrás de relâmpagos. E sempre aquele “cabruuuum” que até faz estremecer a nossa villa. Não é medo, é respeito, voltamos para os lençóis mas damos voltas e voltas até pegarmos no sono de novo. “Cabruuuuum”.  

Foram duas horas de pestana aberta, a cruzar os dedos para que a tempestade não nos estrague a festa. Temos só este dia para aproveitar Koh Samed e se a chuva se mantém vai tudo literalmente por água abaixo. Sentimos que acabámos de adormecer quando o despertador toca, às 8h15. Continua a chover, mas muito menos. 

Estamos no Paradee Resort, na ponta sul de Koh Samed. Pela sua proximidade com Banguecoque – umas duas horas e meia por estrada até  Rayong, mais uma travessia marítima que dura entre 20 a 30 minutos, consoante o barco que se apanhe no cais de Ban Phe -, esta ilha é muito popular como destino de fim-de-semana para quem vive na capital tailandesa e arredores. É também muito procurada por mochileiros, que alugam os bungalows com vista para o mar ou camuflados na floresta, que aqui é densa e protegida – Samed está inserida numa reserva nacional.  

praia Kiew Na Nok

A ilha é um protótipo das ilhas tailandesas: um mar quente e parado (esta costa encontra-se no golfo da Tailândia), praias de areia branca, coqueiros e palmeiras e pouco mais. Apesar de ser um destino importante para os jovens de Banguecoque, que muitas vezes a escolhem como viagem iniciática logo depois de terminarem os estudos, Samed parece ainda não ter sido grandemente descoberta pelo turismo de massas internacional. Está a léguas das hordas de turistas de Koh Samui, também no golfo, ou de Phuket, no mar de Andaman. Até porque, apesar de reunir todos os clichés de postal ilustrado, sai ainda mais ou menos ilesa da indústria turística. Há muitos hotéis – só o grupo Samed Resorts, que detém o Paradee, tem mais seis – restaurantes e bares, mas a uma escala relativamente comedida. Comprar souvenirs, por exemplo, não é nada fácil, a não ser que se queira optar por vestidos de praia ou chinelas que tanto podiam ser compradas aqui, na China ou em Portugal. 

praia Kiew Na NokÉ certo que estamos na época baixa, e alojados num dos mais exclusivos resorts da ilha, mas, pelo que vimos, Samed pode muito bem ser um reduto de tranquilidade. Comprovámo-lo nesta manhã que se foi limpando das marcas da tempestade. Pelas 10h, quando andávamos a conhecer os cantos à casa, alguns empregados varriam a praia Kiew Na Nok, como que a pôr no sítio certo cada grão desta areia que é mais fina que farinha. De resto, mais ninguém. Ao mar ainda lhe faltava, diriam alguns, aquele tom Photoshop, mas mais pelo meio-dia é vê-lo em todo o seu esplendor azul, uma única ondinha a rebentar na praia. Olhamos em volta e contamos: para além de nós, estão cá mais sete pessoas, de molho na água ou a procurar refúgio do sol que queima debaixo das árvores.  

Alguém falou em tempestade épica esta noite? Foi um sonho, de certeza.

Kiew Na Nok

A Fugas viaja a convite da Autoridade de Turismo da Tailândia e da Destination Asia

“You made my day”, Koming

Chatuchak

É verdade que nos ensinam na faculdade que o jornalista não deve nunca ser a notícia, mas abrimos uma excepção porque a causa é boa e no fundo isto não é uma notícia. Andávamos nós a destilar suor por todos os poros, depois de duas horas e meia a palmilhar a loucura que é  Chatuchak, quando procurámos descanso para as pernas e sombra para o corpo num banco à entrada daquele que é um dos maiores mercados de rua do mundo. Elas aproximaram-se em pezinhos de lã e, educadamente e em voz muito baixa, explicaram que estavam a fazer um trabalho para a escola e precisavam de entrevistar “estrangeiros”. Quando dissemos que sim, desfizeram-se em sorrisos e agradecimentos, notando que estavam quase a desistir, pois já tinham abordado “vários grupos” e levado várias negas. Vamos a isso, meninas.

Foram perguntas muito básicas, preparadas de antemão e escritas num caderno. Uma fazia as perguntas, outra filmava com o telemóvel e uma terceira acertava o som num pequeno microfone. Enquanto durava a entrevista – “É a primeira vez que vem à Tailândia? Gosta da comida tailandesa? O que é que mais gosta na gastronomia do nosso país?” – ainda apareceu um rapaz,  mas não chegámos a perceber a função que lhe tinha sido atribuída no âmbito deste trabalho de grupo.

Foram poucos minutos, dois ou três,  mas percebi claramente que salvei o dia a Koming, 16 anos, e ao restante grupo de alunos da The Demonstration School of Ramkhamhaeng University. Nem de propósito, são estudantes de Turismo. Não souberam por mim, porque não perguntaram, qual é a minha profissão, mas quando “a nossa amiga Olga”, a guia que por acaso se chama Tupsida e porque fala português nos acompanha nesta viagem pela Tailândia, lhes disse que sou jornalista abriram ainda mais os sorrisos e pediram para tirarmos fotos. E quando eu pedi o mesmo sorriram mais e mais. No fim, tive direito a uma prenda: é um pequeno saco de tecido azul.

Despediram-se de mim com vários kop khun ka, que é como quem diz, obrigada. O rapaz, claro, disse kop khun krub. Eu, que a esta altura ainda não sabia agradecer, usei o sa waddee ka, que é o cumprimento mais usado na Tailândia. Foi mal aplicado, naturalmente, mas serviu bem o propósito. Koming ainda voltou atrás e segredou-me : “You made my day, thank you,  madam.” Só não gostei do “madam”.

Chatuchak

E Chatuchak?  Chatuchak é mais ou menos isto: 14 hectares de tendas e lojas, perto de 10 mil, onde se vende tudo. Pense, por exemplo, em cães, gatos, peixes e tartarugas: estão lá; em sabonetes artesanais, também; em antiguidades,  idem; em roupa, livros, calçado; em ananases bem pequeninos vendidos em sacos de plástico; em flores e plantas; em inaladores de ervas para as vias respiratórias; em música; em bijuteria; em imitações de marcas finas mais ou menos perfeitas. Chatuchak, o mercado que há 66 anos funciona aos sábados e domingos das 9h às 18h, tem tudo e um par de botas. E se estas por acaso estiverem a magoar os calos, também tem massagens aos pés,  30 minutos por 150 bahts, não chega a quatro euros, numa tenda climatizada e com Wifi.

Portanto, só tem mesmo de se fazer à estrada e seja o que os deuses quiserem. Todos os guias dizem que é bom chegar cedo, que Chatuchak pode ser um inferno (há dias em que passam por aqui 200 mil pessoas), mas a nossa experiência foi bem mais tranquila. Chegámos pelas 10h, mais coisa menos coisa, e o calor era o que mais oprimia. O mercado está dividido por secções, para tornar mais fácil a orientação de quem vai às compras com objectivos específicos,  mas tem mais graça deambular pelas ruelas a deitar o olho às bancas. Regatear é obrigatório, mas também é uma arte. E se porventura comprar mais do que devia e se acabarem os bahts, os vendedores,  mesmo que não tenham um terminal,  arranjam uma maneira (segura)  de pagar com cartão.

Também há comida em Chatuchak, mas neste particular tem muito mais interesse o vizinho mercado de Or Tor Kor, que é um regalo para os olhos. As frutas compõem uma paleta bem colorida, e entre elas contam-se cocos, mangostões, melancias e durian, uma espécie de fruta nacional da Tailândia. Olga comenta que hoje está muito caro, o durian.  “Cento e oitenta bahts por 100 gramas”, 4,70 euros. Também há arroz, todo um sortido de especiarias, uma miríade de frutos secos, fios de ovos, herança da presença portuguesa na Tailândia no século XVI, carne grelhada, peixe frito.
Já se comia qualquer coisa, não?

Ortor kor

A Fugas viaja a convite da Autoridade de Turismo da Tailândia e da Destination Asia

Kiin kiin, Banguecoque

É verdade que é um lugar-comum, mas há aqueles aos quais não podemos resistir. A Tailândia vive-se nas ruas, frenéticas em Banguecoque, essa metrópole  onde moram mais de seis milhões;  sonha-se nas praias de postal ilustrado – e prometemos novidades para breve; mas também se saboreia à mesa. E eis que chegamos ao lugar-comum: a gastronomia tailandesa é um notável festival para os sentidos. Mesmo quem não aprecia os paladares exóticos, perfumados e picantes muitas vezes em igual medida, não consegue ficar indiferente às verdadeiras obras de arte comestíveis que se servem praticamente em qualquer canto e esquina. Seja nas bancas de comida de rua de Khao San Road (isto, claro, se fizermos vista grossa às espetadas de escorpião e só atentarmos nas esculturas de frutas coloridas), numa das salas do Issaya ou do Long Table ou, a cereja no topo do bolo, no requintado Sra Bua by Kiin Kiin.

Instalado no Hotel Kempinski,  o  Sra Bua é a extensão em Banguecoque do Kiin Kiin,  em Copenhaga – e este restaurante na capital dinamarquesa é “o único” tailandês no mundo com direito a uma estrela Michelin, lê-se na sua página online. Obra do restaurateur Lertchai  Treetawatchaiwong e do chef Henrik Yde-Andersen,  também júri no conhecido programa de televisão Masterchef, o Kiin Kiin abriu em 2006 e ganhou entretanto o reconhecimento dos inspectores do Guia Vermelho.

Em Banguecoque, o Sra Bua estreou-se com a abertura do hotel, em 2010,  e em 2014 foi considerado um dos 50 melhores restaurantes da Ásia. O chef do Kiin Kiin instalou o Sra Bua, formou a equipa que trabalha em Banguecoque em Copenhaga e todos os meses de Julho regressa à Tailândia, em busca de inspiração para novas criações e também para garantir os níveis de qualidade no restaurante do Kempinski.

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Na primeira noite que passamos em Banguecoque, ainda sob os efeitos de uma diferença de seis horas em relação a Portugal, provámos a que sabe esta comida de base tailandesa vestida de nouvelle cuisine. Não é coisa propriamente barata – 2900 bahts, a que acrescem 10% de taxa de serviço e outros 7% de imposto,  o que há-de perfazer uns 90 euros por um menu de degustação de 11 pratos que pode durar três horas –, mas a experiência, podemos garantir,  vale cada euro investido.

Tudo começa pela decoração do espaço, com sofisticado ambiente tailandês e dominado por um lago de flores de lótus, que é justamente o que significa o nome do restaurante. A mesa mais cobiçada da sala é a que se abriga por baixo de um trabalhado telhado de madeira de teca, mas todas as outras estão também elegantemente postas para a função.

O jantar está pronto, meninos – e não dizemos isto só para fazer inveja. É que kiin kiin é a fórmula utilizada pelos tailandeses para avisarem as crianças que chegou a hora de comer. Kiin kiin,  portanto.

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Começamos com uma selecção  de appetizers baseados na comida tailandesa de rua mas com twist de chef: uma deliciosa tosta crocante de camarão com um exímio merengue de caju; uma típica salada tailandesa de chili,  lima, cebola, alho, coco, amendoim e camarão seco servida num pequeno corneto; snack de galinha com gelado; espetada de porco com salsicha de galinha; tártaro de vieira em flor de lótus, uma criação que impressiona pela sua beleza simples; e cajus crocantes servidos num saco de plástico (de gelatina) comestível.

Já conquistados pelo sabor e pela originalidade das entradas, eis-nos finalmente nos pratos principais. Não vamos cumprir o menu completo, que a esta mesa já há quem peça clemência, ficamos-nos “apenas”  por quatro referências. A primeira chega à mesa acompanhada por uma seringa. À estupefacção inicial sobrepõe-se o divertimento: é suposto injectarmos o conteúdo para uma taça onde está um caldo e lá deixarmos cozinhar os nossos próprios noodles. Acompanha com crocantes de camarão.

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Nota 10 para o pato com pepino e amendoim, que  chega à mesa numa espécie de algodão doce decorado com coentros. Quando lhe derramam um molho por cima, o algodão desfaz-se e deixa à vista o pato embrulhado no pepino. Este é um prato muito fresco e perfumado, e um dos favoritos da noite,  a provar que a comida de autor vai muito além dos efeitos cénicos.

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Cénico é também o momento em que é servido aquele que é o prato de assinatura do Kiin Kiin (primeira foto deste post): trata-se de um caril vermelho gelado com salada de lagosta, abacate e longana, uma fruta muito usada na gastronomia thai. Tem ainda amendoim e espuma de líchia e é finalizado com uma nuvem de nitrogénio líquido. A intenção é que se misturem todos os elementos e que à medida que se come eles atinjam o blend perfeito. Depois disto, falar do vaso de atum com crumble de cacau pode parecer demasiado simples,  mas a verdade é que uma refeição no Sra Bua é isto mesmo: uma conjugação harmoniosa de coisas simples com outras surpreendentes.

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Quando achávamos que já não havia estômago para mais, impossível resistir à sobremesa: um levíssimo soufflé, gelado explosivo de laranja (com Peta Zetas) e maracujá. Haveria melhor forma de terminar a noite? Só com noodles de pandan e coco.

Kiin kiin, Banguecoque.

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A Fugas viaja a convite da Autoridade de Turismo da Tailândia e da Destination Asia

Eles andam entre as gotas da chuva

São Petersburgo, Hermitage - Foto de Adriano Miranda

Há uma certa aura de mistério em São Petersburgo. Uma névoa fantasmagórica que, mesmo não se vendo, parece cair como um véu sobre a cidade, alterando tempos, geografias, personagens, climas. Uma certa magia, talvez; definitivamente dramática (bom dia, sr. Dostoiévski), quase absurda (bom dia, sr. Gogol).

Olha-se nos olhos de São Petersburgo e ainda assim não se a apreende, há sempre um contorno que parece escapar-nos. Rasputine, morto aqui mais do que uma vez, devia saber disso. Os czares, os grandes e os pequenos, os nobres, os sovietes, os novo-democráticos. É talvez a sua origem pantanosa, as suas águas por todo o lado, o seu rio Neva, a sua espartilha em canais e ilhas, a ajudar a essa personificação imperial, sobranceira, que se veste de Roma e Vaticano, de Paris e Viena, de luz do Norte e Versalhes, raramente de Moscovo.

Novíssima de três séculos, São Petersburgo é assustadoramente sedutora. Palácio atrás de palácio, museu atrás de museu, detalhe após detalhe, a cidade brilha até quase ofuscar tanto quanto as cúpulas de algumas das suas igrejas ou das suas caixas de jóias. Mas a desmesura das suas catedrais, o complexo de gigantismo do museu Hermitage, o braço de Lenine levantado no ar frente à Estação Finlândia onde chegou para lançar revolução, a ostentação que se respira por todo o lado podem ser só detalhes.

Para sentir em todos os poros da pele que São Petersburgo é realmente um mistério basta, como nos aconteceu, correr para a protecção da copa de uma grande árvore num qualquer jardim assim que caia uma chuvada à São Petersburgo (no nosso caso, gotas gordas e geladas como balas vindas em nortada apesar de Junho).

Aconteceu-nos ali mesmo no centro da cidade, quando dos distraíamos a deambular à descoberta. A chuva cai, nós corremos para a protecção do teatro Alexandrinsky, o Pushkin, ele próprio sob a bênção lá no alto de Apolo e seus cavalos. A chuva pára, nós corremos para o jardim onde se ergue nas alturas a estátua a Catarina a Grande com seus dignitários, e nós também, aos pés. A chuva recomeça e nós descobrimos que as árvores aqui são chapeús-de-chuva.

E ali ficámos, mesmerizados, a ver as pessoas passarem indiferentes à água. A rapariga de gabardine sentada no banco de jardim com um chapéu de chuva aberto enquanto come um corneto. A mãe que empurra o carrinho de bebé vestido todo ele para a chuva. O rapaz-galã, alto loiro espadaúdo, um príncipe que passeia de mãos nos bolsos ao ritmo das gotas. Depois haveremos de ver esse desfile por toda a cidade, pelas margens do Neva, pelos subúrbios enlameados, pela praça de oiro do Hermitage. É impressão nossa ou parece  que não se molham?

Sim, o verbo chover, aqui, não deve ser impessoal. O povo deve ter aprendido a arte de andar entre as gotas da chuva.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu.

Bateram as cinco da tarde no lago Ladoga

GORITSI MOSTEIRO DE São Cirilo do LAGO BRANCO

Bateram as cinco da tarde no lago Ladoga. O navio Andrei Rublev, nos seus traços anos 1980 recauchutados, desliza lentamente na direcção do Báltico. Um imenso céu azul expande-se como um mar que de vez em quando ondula em nuvens brancas como cinema. Cruzamos o rio Svir, a cujas águas -… um momento, vou só espiar… -, diria, acastanhadas, já chegámos vindos do gigantesco Volga, o maior rio da Europa, e do Onega, lago tão grande que lhe chamam mar. O sol brilha no meu ecrã enquanto tento captar em letras a beleza monocórdica das verdes margens que nos cercam. Um verde contínuo, de bosques e arbustos baixos, entrecortados por canais ou braços de água, aqui mais prado, ali mais floresta cerrada. De vez em quando um vilarejo, umas casinhas de madeira, um barco ancorado, raramente, à excepção das paragens, avisto pessoas em terra.

À minha frente, turistas franceses viram as cadeiras para o sol e conversam sobre a Rússia e a França. Um senhor calvo, kispo azul, fala com trejeitos De Gaulle enquanto aponta os binóculos para a margem. “La naturequelque chose, “les russes“, quelque chose, oiço.

Nas notícias, diz-se que as tensões entre russos e os países da NATO estão a aumentar para os lados do Báltico. As notícias parecem ser velhas mas são de hoje. Mas as notícias estão muito longe do solário da coberta do 5.º piso do Andrei Rublev, barco com nome de pintor santo. O Báltico é que está muito perto, é já amanhã.

Indiferente às notícias, aos turistas e aos jornalistas, a passarada continua a esvoaçar, as gaivotas continuam a espairecer pelo navio a ver se apanham algum resto, a brisa continua suave, o sol continua a brilhar, o Andrei Rublev continua a pintar as suas ondas com uma lentidão zen.

O fotógrafo-videoman corre à coberta a chamar-nos, temos que ir todos: venham ver a vossa viagem, venham ver a vossa viagem, senhores e senhoras venham ver a vossa viagem (mas isto em francês). É o vídeo e são as fotos que muitos vão comprar e sobre a qual rios de tinta ainda irão correr (em papel e nos ecrãs da sua revista, claro está). Paro aqui a nossa conversa. Vou só espiar e já vos conto, até porque como tenho feito de turista sou capaz de aparecer e também preciso de ver se estou bem. Estão cá todos: franceses, espanhóis, russos, israelitas, alemães, belgas, americanos, noruegueses…, etc, etc, isto é um mundo, só em passageiros são umas 15 nacionalidades bem contadas. Claro que não faltam portugueses, somos oito, contados os dois espiões da Fugas.

O hino russo enche a sala, pelos janelões já não sei se é o rio se é o navio que se move, no ecrã começamos a surgir nós. Sim, lá estamos na Praça Vermelha, no Kremlin, nas catedrais, o inesquecível Metro estação a estação. Ah!, o momento mágico em que nos fizemos definitivamente à água e deixámos a cidade para trás. E fomos parando em atracções turísticas, preguiçando em catedrais únicas, sendo levados pelo turbilhão do novo turismo e pelo vento da História.

CRUZEIRO PELO RIO VOLGA RUSSIA

O campanário da igreja , as igrejas iconográficas de Uglich, a modista que desfila vestidos patrióticos na margem do rio como se falasse ao telemóvel com Fellini, a estátua da Mãe Volga que esvoaça sobre o rio, os grandes lagos, o mosteiro de Cyril-Belozersky e o pequeno Cyril que vende souvenirs na loja do avô, a ilha de Kizhi que é uma vírgula de terra no meio do maior lago da Europa e é património da Humanidade e das 200 pessoas que vivem e fazem esta ilha-museu natural e de madeira, o Eugeni que finge ser um carpinteiro do tempo dos czares e a Dasha que vende chocolates com um sorriso, o Dimitri que cuida de peles de javalis que parecem ursos, o Sergej que bate ferro e fogo no meio das águas em Mandrogi e a Tatiana que parece a Ninotchka da Greta Garbo, a Olga que fala espanhol com uma beleza incomensurável, a Darya que nos traz comida com um sorriso escrito por Tolstoy, o casal idoso que dança a Nikita no Volga. Os momentos são monumentos, como bem o sabiam os grandes das letras russas que nos ensinaram a escrever.

Os dias passaram como água, tão devagarinho mas recheados de tantas Rússias. “A Rússia tem destas coisas. Tanto se pode admirar um cosmonauta como uma casa feudal”, escreve o meu camarada Adriano Miranda no seu Facebook (uma pequena indiscrição, Adriano, mas crónica oblige).

O Adriano esteve há 35 anos na Rússia, tinha então 15 anos, veio com os avós. À visita à URSS, a essa primordial primeira viagem da sua vida, o Adriano deve muito, inclusive a compra da sua máquina fotográfica Kiev, que lhe mudou a vida. E eu devo ao Adriano um filme paralelo ao desta viagem, o que a tornou superlativamente superior a qualquer passeio turístico. “A minha avó caiu nas frenéticas e vertiginosas escadas do metro de Moscovo”, começa assim uma história do Adriano.

O que fica das viagens? Eu leio o Adriano, oiço-o, vejo nos seus olhos a viagem que estou a fazer, acabo agora mesmo de ver a primeira escolha de imagens (uma fotogaleria ainda com mais de uma centena, esperem para ver). Eu sou apenas um leitor da viagem do Adriano, tal como o leitor é da nossa e, neste exacto momento, os turistas são da sua própria num telefilme.

No ecrã, vejo o mesmo céu e água que nos circundam para lá das janelas, onde agora se reflectem rostos comovidos de turistas com a sua própria experiência revisitada. Aplaudem o seu filme, que termina subitamente. A memória não está completa, eles sabem-no bem, aplaudem até o que aí vem, a meca, o final desesperadamente feliz, São Petersburgo, a cidade que por três vezes mudou de nome, nunca de grandiosidade. Um monumento à memória, no final do rio, no princípio do mar.

Olho em frente. Andrei Rublev continua o seu lento deslizar. A memória continua.

RIO VOLGA RUSSIA

À frente da catedral levantada do chão, a fábrica Outubro Vermelho inventa futuros

MOSCOVO RUSSIA

Ainda haveremos de parar na Catedral do Cristo Salvador, por um motivo especial: ver como uma catedral do séc. XIX, deitada abaixo por Estaline para construir um Palácio dos Sovietes – o que nunca aconteceu, a área foi usada para piscina pública –, foi reerguida das cinzas em toda a sua imensidão no final do séc. XX, igual à original, mais de 100 metros levantada do chão. Foi inaugurada no ano 2000 e é ver para crer.

A dois passos da catedral, há mais passado em transformação. Só tivemos tempo para dar um salto, cheirar o ar dos tempos e beber uma cerveja mas vale a pena passar a belíssima ponte pedestre chamada do Patriarca sobre o rio Moscovo, descer a primeira escadaria para a direita e entrar na “ilha” da antiga Fábrica de Chocolate Outubro Vermelho (Krasny Oktyabr, um ícone para gerações e gerações). No aterro de Bersenevskaya, a sua fachada de tijolos vermelhos e o seu antigo e doce logo nos ares chama-nos as atenções.

A fábrica saiu daqui há uma década e as instalações e armazéns têm vindo a ser renovados e recebem empresas, media, bares, restaurantes, ginásios, galerias. Mais cool ou mais hipster? Mais cultural, criativo, energético? Não sabemos e ficamos mesmo com pena de não termos tido mais tempo para descobrir.

Mas se der entretanto um salto a Moscovo, faça favor, tem aqui um sítio que vale mais que um salto para mais descobertas urbanas. Para mais e não em vão – nada em vão, decerto – fica aqui o Strelka, que se resume como o Instituto para Imaginar o Futuro, organização não-governamental que quer revolucionar a cultura urbana, a cidade, as cidades – arquitectura, design, media, urbanismo são as suas preces. Parece que é o Strelka que mexe os cordelinhos e serve de motor e atracção para a transformação desta ilha. Também tem um bar-esplanada de design prometedor. Mais até, porque isto anda tudo ligado, estando nós de partida para o rio Volga, não é que o nome do instituto também nos remete tanto para uma confluência do Volga com outro rio como para um extremo da ilha de Vasilyevsky, em São Petersburgo – também quer dizer outras coisas e é o nome de uma famosa cadelinha espacial soviética, mas isso são contas de outro rosário. Para mais, o Strelka também se dedica a estudar o Volga e as suas vidas e mutações.

Com pouco tempo entre mãos – esta é a paragem final antes de começarmos a fugir para o barco que nos levará a navegar para São Petersburgo -, sentamo-nos no Primitivo, restaurante e bar cercado de madeira e jardim vertical, e ficámos a beber uma cerveja enquanto observávamos dois trabalhadores a terminar as obras numa parede onde brilha o grafitti de um astronauta (Gagarin, espero). Garanto que fizemos um brinde a Moscovo e saiu tão natural como a nossa própria sede*.

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*E não é que o Primitivo, que é também bar de vinhos, tem uma longa carta onde até, vá lá, surge um vinho português? Só por curiosidade: um Dão Reserva de 2011 da Quinta dos Roques. Um luxo a 60 euros a garrafa.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

A grande aventura da arte no metro de Moscovo

MOSCOVO RUSSIA

São quase 23h quando a nossa guia, Lídia, conduz o grupo de turistas (e seremos uns 25) numa deambulação pelo Metro de Moscovo, outra das grandes atracções da cidade, ainda por cima económica, “fácil” (se guiada ou com muita, muita paciência e troca de sinais com agentes das estações) e fabulosa.

Uma aventura para qualquer pessoa que pense num metro tão célebre por ser uma série contínua de galerias de arte como por ser usado por milhões e milhões a alta velocidade, ter escadas rolantes quilométricas a pique e, para mais, com quase tudo apenas em cirílico, obrigando a uma descodificação contínua que por vezes se torna, admito, impossível. “Há já algumas no centro que têm tradução e há também intercomunicadores de apoio”, informa Lídia.

Como não é fácil, Lídia repete o sistema que vamos usar duas, três, quatro, vezes. Fala em inglês para todo o grupo e trata-nos por “dearest” a cada duas indicações. Regras, aprenda: Fixar exactamente a estação para que se vai e contar sempre o número exacto de paragens que faltam (como não dominamos russo nem o cirílico decidimos não confiar noutro sistema…).

É assim que entramos na primeira, Park Pobedy (no parque da Vitória). O grupo avança como uma manada com medo de passar um rio agitado durante uma migração. Pés na escada rolante e… descida vertiginosa durante longos minutos. Provavelmente, uma das mais longas escadas rolantes que já vi, o que é natural sendo a estação mais funda de Moscovo (e uma das mais fundas do mundo), 85m abaixo da superfície. Já as escadas rolantes perfazem 126m, 740 degraus. Mas esta, embora imponente, é novíssima, tendo aberto em 2003. Ainda assim segue-se o registo geral que celebrizou o metro moscovita: amplitude e muito mármore. E um mural dedicado a Kutuzov, o general que parou Napoleão.

Paragem seguinte: Kievskaya, um outro mundo, aqui palaciano, dos anos de 1950. Corredores infindáveis, galerias adornadas, lustres gigantes, pilares de mármore, nas paredes frescos com motivos ucranianos. A amizade entre Rússia e Ucrânia é o tema da estação: numa parede, um gigantesco mosaico celebra 300 anos de união entre as duas nações…

As carruagens mesmo agora seguem cheias e grande parte dos passageiros nem nos liga; já decerto habituados a estes turistas do metro, ocupam-se antes com telemóveis e derivados (o metro oferece rede wi-fi e boa). Segue-se na linha a estação de Smolenskaya, seguindo os anos de 1950, design sóbrio com sinais de poder e cerimoniais, paredes ornamentadas, mais mármore e granito, uma obra em relevo homenageia os soldados soviéticos.

O tempo corre contra nós e o passeio guiado tem final marcado por volta da meia-noite na Praça Vermelha. Por isso, saltemos para a Ploshchad’ Revolyutsii, que nos levará à Praça Vermelha. Esta vem do final dos anos de 1930 e é mais um extraordinário museu, perfilando-se estátuas de bronzes de figuras iconográficas da revolução soviética – o operário, o soldado…

Daqui vamos a caminhar para a Praça Vermelha, para espiá-la à noite e ver-lhes os traços luminosos. É tudo o que veremos, os traços. “Fecharam-nos a praça, não posso crer!”, lamenta-se Lídia. E porquê? “Acontece às vezes, fecham a praça, alguma visita ilustre, alguma segurança de Estado…” O certo é que caíram as grades e a praça encerrou de ponta a ponta. Fim de passeio.

No dia seguinte ainda haveremos de fazer a prova final do metro: sem guia. Bem acompanhados por dois casais portugueses que fazem o mesmo cruzeiro que nós, vamos os seis a caminho, tentando decifrar, do porto ao centro da cidade, o metro e as suas manhas. Bilhetes comprados, dúvidas esclarecidas, seguimos o sistema que no nosso caso é facilitado: é sempre a mesma linha (verde). Só temos de encontrar o comboio certo (igualmente fácil: é uma estação terminal a nossa) e sair na Teatralnaya.

Não é tão fácil quanto parece, porque russo e cirílico ainda nos confundem. Mas conseguimos chegar a bom porto. Para mais, a Teatralnaya, também dos anos de 1930, abre-se em mais uma peça de arte de tectos trabalhados, elegância ornamental, iluminação e temática teatral. No regresso, voltaremos a apostar no metro e até com mudança de linha (foi a partir da Biblioteka imeni Lenina, outra estação imponente dos anos 1930), desta feita, entre a pressa e a incerteza, recorrendo a muita linguagem gestual e perguntas de mapa na mão a quem encontramos pelo caminho. Pode ter sido sorte mas, verdade seja dita, só encontrámos gente prestável que nos apontou sempre para o bom caminho.

Moscovo está a ficar mais simpática ou foi só impressão?

Aliás, Moscovo costuma surgir sempre na frente dos tops das cidades mais inamistosas ou menos acolhedoras do mundo para os visitantes. No nosso caso, ou por sorte ou por acerto, realmente não tivemos essas experiência e nem me refiro a quem trabalhou directamente connosco – guias, etc: das perguntas nas ruas a cidadãos comuns ou a agentes de segurança, a pedidos de ajuda a funcionários, no metro, nos cafés, nos quiosques (excepção seja feita aos agentes de segurança do Kremlin e aos seus berros e apitos, mas isso deve fazer parte da imagem de marca  ainda assim, houve dois que deram o seu “da” a tirar uma fotografia turística com este seu escriba – eu juro que esperava ouvir um rotundo “niet”…).

Não demos por um grande, grande amor mas também não demos por falta de simpatia ou reacção, sequer por gélida indiferença. Muito pelo contrário. Em Moscovo, não dominando nós o russo, demos apenas pela falta do domínio do inglês (ou de outra língua de contacto) e de uma língua franca para além da gestual e pela nossa absoluta frustração frente a qualquer inscrição em cirílico com mais de três ou quatro letras, como burros a olhar para um palácio.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

Ver Moscovo sob outras luzes

MOSCOVO RUSSIA

À noite, somos levados pela Lídia de autocarro pela noite de Moscovo. A ideia é mostrar-nos a cidade que tantos temem sob uma outra perspectiva ainda mais feérica, numa encenação que esconde partes e sublinha a luz tragédias, alegrias, esperanças e, claro, muito betão, muito vidro, muito mármore, muito granito.

Ora uma tour Moscow by Night, assim só pelo nome, pode enganar. Mas no nosso caso não há ilusões: a massa dos turistas é formada por casais com uma média etária que rondará os 70 anos. É uma slow Moscow by slow Night. O que permite ir apreciando os postais nocturnos da capital moscovita, que, realmente, como nos dizia Elena no início, não parece parar.

O trânsito parece ainda na mesma quantidade mas ter triplicado de velocidade. Prédios e mais prédios, modernos, antigos, modernos soviéticos, antigos russos, cintilam em luz. Ao longe, o recorte da zona financeira, ultramoderna área com edifícios infinitos e envidraçados que recortam um skyline entre à americana e à Dubai – rezam as crónicas que o projecto deste business district não está a correr bem mas não fomos lá ver.

As fachadas iluminadas, com linhas palacianas sublinhadas e cúpulas de igrejas a tornarem a noite ainda mais policromática, desfilam como se a cidade se tivesse vestido para sair à noite. Se Moscovo fosse uma pessoa diria que não lhe falta uma certa vaidade e que parece estar a tentar não só cuidá-la como reinventá-la, com um blush de passado aqui, um batom moderno ali, um ar dos tempos pelos ombros caídos. Haverá muitas zonas escuras e semiescuras nesta Grande Moscovo de 10 milhões de habitantes mas aos nossos olhos, em turismo toca-e-foge, nada disso surge.

O nosso destino: colina de Poklonnaya, área do Museu Central da Grande Guerra Patriótica (a 2GM para a Rússia). Toda a área, que se eleva sobre a cidade, está cenicamente iluminada. O museu perfila-se em galerias abertas e oferece uma vista de tirar o fôlego: para Moscovo e para a história. Isto é para não esquecer e para evidenciar na permanência os feitos do passado, por isso, estamos aos pés do cavalo de São Jorge que mata o dragão na base de um obelisco. É o Obelisco da Vitória que se ergue em luz para os céus nos seus 141,8 metros, 1 metro por cada dia que a URSS esteve na guerra. Tem forma de baioneta e lá no alto, a 100 metros, esvoaça como que saída do obelisco uma estátua de 25 toneladas de bronze da deusa da vitória, Nika, rodeada de anjos que tocam as suas trompetes da glória da nação.

Uma obra escultórica de engenharia impressionante: basta saber que com tudo isto ali se mantém de pé há duas décadas. Sim, esse é o detalhe: foi inaugurada em 1995 sob a égide de Ieltsin. Entre o obelisco e o museu arde uma chama eterna e, lá muito ao fundo, após uma longa abertura que deixa todo o espaço ao obelisco, avista-se uma alameda de chamas vermelhas a ondular (são fontes que lançam água vermelha ao ar, água sangue memorial).

Um pouco mais à frente está um outro monumento que também vinca o passado no presente: um monumento aos heróis da Grande Guerra. Na noite, destaca-se a figura de uma estátua singular em homenagem ao soldado russo. Outro detalhe: é o primeiro monumento similar e foi inaugurada por Putin no âmbito das cerimónias do 100.º aniversário da Grande Guerra, há menos de dois anos.

Tal como toda a cidade, a zona aqui também parece em obras, mas estas são para mais um evento. Enquanto pela longa avenida-autoestrada Kutuzovsky a noite é continuamente cruzada por aparentes provas de F1 urbana, aqui, no parque da Vitória, colocam-se as instalações centrais das celebrações do Dia da Rússia, que está quase aí: é a 12 de Junho, dia que marca a declaração de “independência” da Rússia em 1992 da URSS.

São as voltas dos tempos. Antes de descermos para as profundezas, levamos no olhar o gigantesco e iluminado relógio de flores criado num braço verde do parque, onde também se escreve, a flor vermelha, Mockba. As flores marcam a hora e é tempo de mergulharmos no metro. Mas já lá vamos.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

Ir ao Kremlin e não ver o Papa

MOSCOVO RUSSIA

Como o nosso hotel (e restaurante) em Moscovo é flutuante, andaremos do barco para a cidade e da cidade para o barco entre almoços, jantares e dormires até à partida pelo rio Volga fora. A grande viagem é a deslizar nas águas rumo a São Petersburgo mas, claro, estando em Moscovo, mesmo que de fugida há imperdíveis a ponderar. Infelizmente, há demasiados. Portanto, fazendo as contas ao tempo, dinheiros, geografias, é ir decidindo com o mínimo de frustração possível. Vamos ficando pelos básicos e uma ou outra escolha mais pessoal.

Se a Praça Vermelha é primordial, obviamente que ir a Moscovo e não ver o Kremlin… Aqui há uma surpresa para aqueles um pouco mais desatentos, habituados que estamos a pensar no Kremlin como sinónimo de presidência russa, algo como o Palácio de Belém. Não está mal visto mas o Kremlin, na verdade, é muito mais do que isso: é toda a cidadela do poder, a fortaleza (kreml) onde a cidade começou no séc. XII. Fogos e revoluções, imperialismos, fascismos, comunismos, democracias, ópios do povo, nada, nada fez o Kremlin em pó. Pelo contrário: é agora um símbolo ainda e sempre de poder mas que parece ultrapassar a mera existência terrena. É no Kremlin, não sei se é na terra.

Lá dentro (é preciso pagar bilhete para entrar no complexo) está a residência do presidente mas esta (também) mega-atracção turística é um extraordinário conjunto que soma mais de uma dúzia de catedrais, palácios (incluindo os do Patriarca, o líder ortodoxo, e os do Estado), torres, monumentos ou os adjacentes Jardins de Alexandre. Nota: há muitos operários e agentes de segurança no Kremlin mas há ainda muitos, muitos mais turistas.

Às 16h50, o sol parece ainda queimar nesta tarde de Junho. Passeamos pelo complexo (sempre são 250 mil m2 entre muralhas de 2o metros de altura) e, confesso, sempre a ver se por acaso aparece (o verdadeiro…) Putin de algum recanto. “Elena, e quando vamos visitar o Presidente?” A nossa guia sorri. “Deve estar a trabalhar, não tem tempo.” Está mais que visto que não vamos ver Putin. Mas, enquanto isso, vemos séculos de história, o epicentro do poder dos czares ao Estado soviético, passando pela igreja e o Estado actual. Todos os poderes parecem encontrar-se aqui.

Vamos cirandando entre o moderno e envidraçado Palácio do Estado – a construção mais moderna, ainda durante a URSS nos anos de 1960 como Palácio dos Congressos, que agora recebe espectáculos -, observando as 11 cúpulas que parecem fazer o Palácio de Terem, o Palácio do Patriarca (que é actualmente um museu de artes do séc. XVII), as igrejas e catedrais, o Arsenal (museu das riquezas dos czares). O Kremlin é acima de tudo religião e a sua arte e história mostram-se aqui em todo o esplendor, cada uma das catedrais mais impressionante do que a outra, entre a dimensão, as cúpulas, as paredes corridas a frescos. Da Catedral da Assumpção (cuja magnitude advém do séc. XIV, um luxo policromático e dourado onde o poder era coroado e os patriarcas da igreja eram enterrados) à Catedral da Anunciação ou do Arcanjo (onde os túmulos contam mil e uma histórias, incluindo a tomba levitada de Dmitri, o filho assassinado de Ivan O Terrível, considerado anjo e por isso não enterrado sob a terra).

Lá ao fundo, fica ainda o setecentista Grande Palácio do Kremlin, mas para aí não podemos virar. É dar um passo na direcção errada e um agente dá um berro ou um aviso sério. Turista segue caminho de turista, não vira para a residência oficial do Presidente. Podemos antes apreciar os jardins, cuidados ao detalhe – por isso víamos tantos jardineiros a cruzar o Kremlin, ou fazer a volta dos colossos, como O Maior Canhão do Mundo ou o Maior Sino do Mundo (ambos séc. XVI).

A visita sai curta e não temos tempo para cada uma das jóias que compõem o Kremlin (cada uma pode demorar muitas horas a ser percorrida, assinale-se). Saímos, sem glória sim, mas com um bom resumo do poder russo, para os adjacentes Jardins de Alexandre, que incluem passeios públicos, fontes ou um canal por onde se perfilam de entre as águas estátuas que evocam fábulas russas. Com o dia quente que está, passeiam-se famílias e há mesmo crianças a mergulhar por aqui para se refrescarem.

Se na outra muralha do Kremlin, à praça Vermelha, fica o túmulo de Lenine (e não só), aqui também se continuam a homenagear mortos e heróis caídos em combate, milhões deles até, porque aqui fica também o Túmulo do Soldado Desconhecido onde, desde a sua inauguração em 1967, arde uma chama em homenagem aos russos que morreram na Segunda Guerra Mundial. O corpo de um soldado anónimo está enterrado sob o monumento, vigiado por uma guarda de honra – vimos noutra passagem o render da guarda (às 13h) e é digna de ser acompanhada toda a cerimónia.

A nossa visita panorâmica por Moscovo ainda passará por ícones únicos, grande parte que só temos tempo de apreciar de fachada, do Teatro Bolshoi na praça dos teatros (onde permanece o último monumento a Karl Marx) ao Palácio dos Romanov, do Museu Pushkin ao parque Gorki ao assustadoramente sólido edifício do ex-KGB na praça de Lubyanka. Todo o centro de Moscovo (por Kitay Gorod e Sadovoye Koltso) é um sem-fim de opções.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu