Pelas oito da manhã no Mercado dos Lavradores

Mercado dos Lavradores - Foto de Daniel RochaÉ cedo quando chegamos ao Mercado dos Lavradores, no centro do Funchal. É verdade que os planos para chegarmos de madrugada e ver os vendedores a montar as bancas ficaram pelo caminho, mas oito é uma boa hora. Cá fora, as vendedoras de flores, vestidas com trajes tradicionais, já estão nos seus postos, rodeadas por uma explosão de cores.

Combinámos com uma amiga madeirense, que aqui costuma vir às sextas-feiras de manhã fazer compras antes do trabalho. É que, se o mercado se tornou uma das maiores atracções turísticas do Funchal – e daqui a pouco já vão começar a chegar os grupos de turistas – continua, felizmente, a ser frequentado pelos locais. É preciso, no entanto, saber em que bancas comprar para fugir das armadilhas para turistas, onde, entre dulcíssimos maracujás e outras tentadoras frutas exóticas, os preços disparam.

É muito antiga, anterior mesmo à existência do edifício, a tradição de aqui vender produtos da terra. Este foi, desde há muito, o ponto de encontro dos lavradores que, vindos de várias zonas da ilha, aqui apresentavam os seus produtos. Em 1940, com a construção do edifício, de mercado informal passou a ser um luxo, com instalações de fazer inveja a muitos outros mercados nacionais.

O projecto é do arquitecto Edmundo Tavares e o estilo é emblemático da época modernista, dos anos 40. Tomamos café numa loja nova, cheia de produtos de qualidade, regionais e não só, e com banca de gelados voltada para a rua. E, com dois vistosos ramos de flores num saco, entramos para o pátio interior, descoberto, do mercado. Aqui percorremos várias bancas, com a nossa amiga a servir de guia e a dar-nos informações que fazem toda a diferença: aquelas que nos permitem perceber quais os produtos que são, de facto, madeirenses, e quais os que são apresentados como tal mas vêm de paragens distantes.

O mercado tem a zona das flores, com mais de uma dúzia de floristas de traje típico. Espalhados pelos três andares, há dezenas de bancas e lojas de frutas e legumes que nos deixam fascinados. Anonas enormes, cachos de bananas, cestas cheias de pitangas, papaias, goiabas, abacates, nêsperas, inhame, couves, batatas, cenouras e, deixando turistas e “continentais” de boca aberta, as imensas variedades de maracujás, de diferentes cores, feitios e sabores, e o curioso fruto a que chamam monstera deliciosa. Já nos imaginamos no Brasil ou noutro país tropical e, meio atordoados, perguntamos como se usa, como se cozinha, como se come.

Passamos depois para a zona do peixe. Primeiro espreitamos do cimo das escadas, de onde se tem a melhor vista para as bancadas de pedra onde se estende o atum, o peixe-espada preto, o bodião e outros peixes dos mares da Madeira, para além das deliciosas lapas. Depois descemos e vemos tudo mais de perto.

Queríamos levar um pouco de cada coisa, mas temos um longo dia pela frente. A nossa amiga também vai trabalhar, mas ainda tem tempo para deixar as compras em casa, por isso pode levar algumas coisas. Comprou verduras numa senhora que “traz sempre coisas diferentes” e despede-se de nós, acenando, enquanto desce a rua com os ramos de flores coloridas a espreitarem da borda do saco.

Mercado dos Lavradores - Foto de Daniel Rocha

Alexandra Prado Coelho (texto) e Daniel Rocha (fotos) viajam com o apoio da Associação de Promoção da Madeira 

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Uma poncha é uma poncha. Ou não?

Foto de Daniel RochaA Madeira é terra de vinho, de rum, de licores, de sidra, mas é cada vez mais conhecida pela poncha. A bebida, que terá inicialmente sido criada pelos pescadores à procura de uma forma de se aquecerem nas noites frias, é hoje omnipresente nos bares da ilha, e há muito que ultrapassou também as fronteiras desta.

No entanto, fazer um bilhete de identidade rigoroso da poncha não é tarefa fácil. Tudo indica que a primeira a aparecer foi mesmo essa que hoje é conhecida como “à pescador”, feita de aguardente de cana (ou seja, rum), açúcar e limão. Mas a mais generalizada é a “regional”, com o mesmo rum e limão (e laranja, em alguns casos), só que com mel (e aqui dividem-se opiniões: mel de cana ou de abelhas?).

Há histórias que colocam as suas origens na Índia, onde é conhecida por pãnch e feita com aguardente de arroz. A ser assim, teria chegado à Madeira pela mão dos ingleses. Mas há também a teoria de que uma versão desta bebida já existia no tempo dos navegadores, com o limão (essencial para prevenir o escorbuto) a ser conservado em aguardente e açúcar de cana, ambos produzidos na Madeira.

Foto de Daniel RochaFoto de Daniel RochaSeja qual for a origem, o facto é que existem versões da poncha quer no Brasil (a famosa caipirinha, feita com cachaça, açúcar, lima e gelo), quer em Cabo Verde, onde se chama grogue. Mas poncha é mesmo na Madeira e tem até o estatuto de Indicação Geográfica Protegida. Isto para proteger um produto regional e, sobretudo, a produção local de rum.

Começam entretanto a aparecer muitas versões de poncha, com frutas como o madeirense maracujá, ou a tangerina (também da ilha) e outras, mais ousadas, como a pitanga ou o tomate inglês. Os mais rigorosos dirão que com tanta variedade de fruta, já não é bem uma poncha. Mas os mais criativos vão continuar a explorar os frutos da ilha. A única coisa em que é mesmo preciso manter um grande rigor é na aguardente. As ponchas que começam a aparecer com vodka e outras bebidas brancas já deveriam ter outro nome. Porque poncha que é poncha deve ser feita com aguardente de cana-de-açúcar, madeirense até ao tutano.

No meio das nossas viagens pela ilha, parámos para beber uma poncha“regional”, com amendoins, no Bar Arsénio, em Águas Mansas, Camacha. Das melhores que há na Madeira, disseram-nos. E pareceu-nos bem que sim.

Foto de Daniel Rocha

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Nos engenhos onde se produz o rum da Madeira

Engenhos - Madeira - Foto de Daniel RochaNo meses de Abril e Maio, em certos locais da Madeira, poderíamos pensar que estávamos nas Caraíbas. Provavelmente muita gente desconhece que a Madeira é uma das poucas zonas na Europa onde se produz rum agrícola – feito a partir da cana-de-açúcar – e que há ainda quatro engenhos grandes em funcionamento (na época áurea da produção de açúcar eram muitas dezenas por toda a ilha). Por estes meses, estão a laborar 24 horas por dia e, embora alguns estejam mais preparados para o turismo que outros, todos eles podem ser visitados.

Engenhos - Madeira - Foto de Daniel RochaEngenhos - Madeira - Foto de Daniel RochaEngenhos - Madeira - Foto de Daniel Rocha Engenhos - Madeira - Foto de Daniel Rocha Engenhos - Madeira - Foto de Daniel RochaÉ fácil perceber que nos estamos a aproximar de um engenho. À porta vêem-se vários camiões de caixa aberta completamente cheios de cana-de-açúcar, que é descarregada por vários homens para ser pesada e testada – o preço é estabelecido conforme o nível de açúcar da cana. E depois há o som, um barulho intenso e constante, dia e noite, que confirma que o engenho está em laboração permanente.

Sempre com a ajuda do trabalho dos homens, que a vão cortando e direccionando, a cana entra no engenho para ser triturada. Nesta primeira fase é extraído parte do sumo, mas há uma segunda passagem, para extrair o que falta. Se tiverem oportunidade, peçam para experimentar este sumo doce, saído directamente da cana, antes mesmo de ser filtrado.

Depois há a filtragem e o produto obtido pode ser usado para fazer aguardante de cana – mais conhecida internacionalmente como rum, ou, na sua versão brasileira, cachaça –, sendo para isso fermentado e destilado em alambiques de cobre; ou para o mel de cana (um dos engenhos, o de Ribeiro Sêco, localizado no Funchal, produz exclusivamente este mel).

Se é verdade que os madeirenses sempre chamaram aguardente ao resultado da fermentação e destilação do sumo da cana, a realidade é que para colocar o produto noutros mercados, a palavra rum é quase obrigatória. Mas, para que não haja confusões, estamos a falar exactamente da mesma coisa. Assim, no final da visita aos engenhos, pode-se comprar o rum puro ou envelhecido (e atenção, que aqui as coisas começam mesmo a ficar sérias, porque os produtores apostam cada vez mais na sofisticação deste rum envelhecido).

Cada engenho tem a sua especialidade: no da Sociedade de Engenhos da Calheta não deixem de comprar o tradicional bolo de mel da Madeira e as broas de mel, no Engenho Novo há uma enorme variedade de produtos que têm como base o rum (e alguns deles premiados), o Engenho do Norte é o único que mantém em funcionamento a velha máquina a vapor, e o Ribeiro Sêco tem o excelente mel de cana. E, claro, no meio de tudo isto, há a cada vez mais popular poncha. Mas essa merece texto à parte, pelo que, se não se importarem, fica para a próxima história.#dro engenhos 12

 

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É um elevador para o paraíso, por favor

Fajã dos Padres - Foto de Daniel Rocha
Foto de Daniel RochaDescer pelo elevador que nos leva até à Fajã dos Padres é quase uma experiência religiosa. Visto cá de baixo, o elevador é uma linha clara que sobe a direito pela escarpa acima. São 250 metros a pique, encostados à impressionante parede de rocha.

Não existe alternativa – ou melhor, existe quando o mar está calmo. Mas hoje nenhum barco se atreve a navegar até aqui. As ondas batem contra as pedras negras da praia e cobrem o pequeno cais de espuma branca.

Será o elevador, portanto. Até porque o moderno teleférico, a brilhar de novo e de aspecto convidativo, ainda está em fase de testes e com o vento que sopra não é aconselhável usá-lo. Entramos por isso na caixa metálica com uma parede de vidro para o mundo e arrancamos com um pequeno solavanco. Lá em baixo vêem-se as casinhas da Fajã (incluindo a Casa do Marinheiro, onde iremos dormir) rodeadas pelo verde das bananeiras, das mangueiras, da vinha de Malvasia, dos abacateiros, das pitangueiras.

#dro faja padres 180416 05Junto às pedras negras frente ao mar, duas palmeiras altivas desafiam o vento. A espuma das ondas desenha incertos contornos brancos na orla da praia. Todo este cenário, de início liliputiano, começa a aproximar-se, gradualmente, dos nossos olhos, ganhando cada vez mais formas, detalhes, vida. Lá em baixo há pessoas e vivem, saberemos depois, pelo menos um gato, dois porcos e algumas cabras, e há abelhas pousadas nos maçarocos de um esplêndido azul arroxeado. Ao nosso lado a rocha mantém-se implacavelmente direita, agora recortada contra o céu.

#dro faja padres 180416 08Muitos comparam a Fajã dos Padres – onde para além das casas para alugar existe um restaurante – ao paraíso. Mas para chegar ao paraíso é preciso ter fé. E é impossível não pensar nos padres jesuítas que aqui viveram no passado, cuidando da vinha e desta terra fértil. Como seria descer até lá ao fundo quando não havia teleférico, nem sequer elevador?

Há plantas que crescem agarradas às paredes de rocha e parecem saudar-nos quando passamos por elas. E nós, pequeníssimos na nossa caixa de metal, pensamos em como tudo o que nos rodeia pode muito mais do que nós – a rocha, as árvores, o céu, as nuvens, a lua, o mar.

É preciso merecer o paraíso. Tocamos finalmente no chão.

Fajã dos Padres - Foto de Daniel Rocha

 

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O vulcão dos assombros

Foto de Manuel RobertoDepois da baleia, achávamos que o Faial já não tinha grandes hipóteses para nos surpreender. Mas, entendemos melhor agora, os Açores são um punhado de ilhas mágicas e quando menos esperamos levamos com mais e mais imagens de assombro.

Fazemo-nos à estrada para os Capelinhos já o dia está a cair. O Centro de Interpretação, inaugurado em 2008, tem as portas fechadas, mas isso até traz vantagens: à luz do final de tarde, esta paisagem inóspita, lunar, fantasmagórica até, ganha uma aura ainda mais forte. Não fossem as juras de amor com vista para o mar de Carlos e Joana e seríamos nós e o vulcão.

Foto de Manuel RobertoFoto de Manuel RobertoEstamos na ponta ocidental da ilha, na freguesia do Capelo, e foi aqui que, em 1957, a 27 de Setembro, “um novo vulcão nasceu no mar, o vulcão dos Capelinhos”, conforme se lê no site do Siaram, organismo da Direcção Regional do Ambiente dos Açores. Depois disso, foram 13 meses de erupções, que originaram um aumento de 2,5km2 na área total da ilha. A crise sísmica subsequente à erupção vulcânica e as cinzas e materiais projectados destruíram quase tudo no Capelo e na Praia do Norte. Não houve, contudo, vítimas mortais, mas terá sido a partir daqui que mais se intensificou a emigração açoriana para os Estados Unidos e Canadá.

Estamos, então, a pisar chão muito recente. Praticamente não há vegetação. O farol que aqui permanece marca o ponto onde antes da erupção terminava terra firme. Em volta, geologicamente falando, é tudo novo. E de uma beleza virgem e aterradora.

Caminhamos, sem pressas, de volta à carrinha do senhor Braia, que nos guia pelos caminhos do Faial. E assim vamos, ainda atordoados pelas imagens de postal que levamos do vulcão.
Amor nos Capelinhos - Foto de Manuel Roberto

 

 

As voltas do miolo de figueira nas mãos de Helena

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Entramos para a sala de Helena Henriques e, em cima da mesa, está montado o arsenal com que trabalha: navalha, pinça feita de cordas de relógio, riscador, cortadeira, cola líquida de papel. E uma caixa de plástico com uns pequenos rolinhos brancos – miolo de figueira, um material trabalhado por artesãos do Faial mas praticamente desconhecido fora da ilha. Antes de aqui chegarmos, estivemos no Museu da Horta, que tem uma sala dedicada a esta arte e onde se explicam os seus fundamentos e a sua história.Foto de Manuel Roberto

Não se sabe ao certo quando surgiram estes trabalhos, mas depois de 1855 começaram a ter muita divulgação, uma vez que ganharam uma menção honrosa “os artefactos produzidos por Emília Madruga Ferreira, na Exposição Universal de Paris”, lê-se nos painéis informativos do museu. Depois disso, esta tornou-se uma das mais vivas tradições artesanais da Horta, tendo sido o faialense Euclides Silveira da Rosa (1907-1979) o seu grande divulgador. Engenheiro de formação, ao longo de dez anos esculpiu os pequenos rolos de miolo de figueira e transformou-os naquela que é uma colecção única no mundo. No Museu da Horta estão 70 miniaturas, entre barcos, cenas da vida no Brasil, onde Euclides viveu e morreu, moinhos, costumes de Portugal, uma réplica de uma aldeia açoriana.

MRDSF1278Voltamos a casa de Helena Henriques, 50 anos. Conta-nos que aprendeu a manejar “o miolo” em 1986, quando trabalhava no Museu da Horta e lá houve uma acção de formação. “Eu estava a trabalhar, não podia integrar os cursos, mas via as senhoras e depois vinha para casa e punha-me a treinar”, recorda. E explica-nos que o miolo é retirado dos “ramos mais finos das figueiras” – “assim, nestes canudos”. Depois fica a secar durante dois dias e a partir daí pode ser manobrado.

MRDSF1301“Uma figueira inteira dá uma caixinha pequena de miolo”, revela Helena. Ela própria tem uma árvore em casa, mas amigos e vizinhos costumam dar-lhe os ramos que saem da poda. Os ramos apanham-se “entre Novembro e Março”: se não for na altura certa, o miolo, que é muito frágil e muito, muito leve, não tem a consistência certa para ser moldado.

 

MRDSF1322Depois, é só ter imaginação, minúcia e muita paciência. Helena Henriques mostra-nos agora como se faz uma flor. Começa por cortar o pé, um cilindro finíssimo, com uma lâmina de barbear. Vai depois às pétalas, onde ainda vai desenhar as nervuras com o riscador, e entretanto cola-as com a ajuda da pinça, “para não as marcar”. As flores são trabalhos mais simples, mas, dependendo da espécie, “podem demorar quatro horas a fazer”. “Esta é rápida, mas aquelas que tenho ali num quadro demoram muito mais.”

MRDSF1371Se uma flor pode demorar todo este tempo a fazer, o que dizer dos presépios, das casas, do grupo de folclore que já saíram destas mãos? “Eu antes tinha um registo de horas, mas depois deixei-me disso. A Última Ceia que ali tenho demorou-me 296 horas”, conta. Às vezes, Helena pensa em deixar de fazer estes trabalhos, mas depois sente “pena”. “Eu acho isto bonito, tenho pena que desapareça…” A filha de 14 anos de uma amiga já mostrou vontade de aprender, mas “primeiro está a escola”. “Isto ainda demora a aprender”, garante Helena Henriques – e não duvidamos por um segundo.

Helena já vendeu as suas peças, já fez exposições, já ganhou prémios, já deu formação – mas agora manobra o miolo de figueira quase só por prazer. Mas o facto de o Governo Regional dos Açores ter escolhido o seu primeiro presépio, datado de 1993, para a imagem do postal de Natal de 2015 enche-a de orgulho. “Foi dos trabalhos que mais gozo me deu fazer. Já evoluí muito entretanto, mas tenho um carinho especial por esta peça.” Sorri muito e vai buscá-la ao armário.

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Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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Chamámos a baleia-azul e ela veio

Baleia azul - Foto de Manuel RobertoLembram-se qual é a primeira coisa a fazer nos Açores ao acordar? Precisamente. Assim que acordamos, corremos para a janela. Passa pouco das 7h na Horta e temos nova perspectiva do Pico, mais uma e diferente. O ponto mais alto do país tem muitas caras, consoante se veja de cada uma das três ilhas do triângulo. Daqui, do Faial, mostra-se mais na sua imponência vertical, dando a impressão que a ilha começa e acaba na montanha.

Norberto Serpa - Foto de Manuel RobertoÀ janela, então, mas não sabemos interpretar os sinais, somos ilhéus de passagem. Há nuvens pousadas no cume, mas da chuvada torrencial que nos despertou às quatro e meia da madrugada já só há vestígios. Será que sairemos ao mar? Pelo sim, pelo não, apetrechamo-nos em conformidade e deixamos o hotel em direcção à marina. Antes, porém, pausa para café naquele que será porventura um dos maiores ícones da Horta: o Peter Café Sport, e com isto já estão feitas as apresentações, muito prazer.
Norberto Serpa, também ele uma instituição na cidade, entra pouco depois. Não o conhecíamos pessoalmente, mas é impossível confundi-lo. Barba e cabelo grisalho, lenço vermelho amarrado na testa, olhos azuis a brilhar, pele curtida pelo sol. “Então digam lá ao que vêm.” Nós viemos pela baleia, ora essa. “É isso que querem? Vamos a isso.”

Norberto, um picaroto que se fez faialense “há muitos anos”, é um dos vários empresários que na Horta se dedicam ao negócio da observação de cetáceos: golfinhos, cachalotes, baleias. Esta manhã está confiante de que vamos ver a baleia-azul. Como?, perguntamos, quase incrédulos. “A baleia-azul, não acreditas? Tem andado por aí.” Para as saídas dos seus barcos, Norberto vale-se da preciosa ajuda dos vigias: se até aos anos de 1980 estes homens serviam para dar o alerta de baleia para a caça (a última foi capturada em 1987), agora patrulham a costa de olhos ao serviço do whale watching. “Trabalho com alguns há 20 anos, eles fazem uma parte importantíssima.”

Norberto sai ao mar com a Fugas e vários amigos a bordo. “Tinha outros clientes, cancelaram ontem. Então telefonei ao pessoal e convidei-os.” Henrique, Dália, Ruca, Teresa, Cláudia; as crianças: António, Maria, Sofia, Julião. Todos a bordo.

Baleia azul - Foto de Manuel RobertoBaleia azul - Foto de Manuel RobertoBaleia azul - Foto de Manuel RobertoBaleia azul - Foto de Manuel RobertoSentamo-nos ao lado de Norberto e vamos escutando as comunicações via rádio. “Pedro, Pedro, a baleia estava ali agora!” “Já a viste, Tiago?” De Norberto ouvimos isto: “Azul? Yeah!” De novo: “Já a viste, Tiago? Essa baleia tem o meu selo.” Norberto esfrega as mãos e continua a vencer as vagas. Vamos em direcção ao morro de Castelo Branco e de repente solta-se um grito. “Está ali o bufo, está ali!” Olhamos em frente e perdemos o instante. Mas daqui a pouco avistamos, à nossa esquerda, novo e potente jacto e vemos um dorso gigantesco a emergir da água. “Wow!”, gritamos todos, e as crianças batem palmas. Era mesmo uma baleia-azul?, perguntamos, ainda pouco crentes. Era, garante Norberto, e depois explica que esta espécie é comum nos Açores. Ela vai mostrar-se mais vezes, e poderemos ver melhor o seu tamanho e o reflexo azul que deixa debaixo de água.

A baleia azul - Foto de Manuel RobertoNorberto parou o barco, os vigias continuam a mandar coordenadas, e temos companhia no mar: uma, duas, três, quatro embarcações de observação, mais uma da Polícia Marítima. De repente, Norberto acelera de novo, a baleia volta a aparecer. E desta vez para um espectáculo “raro”: bufa, mostra toda a curvatura da coluna e, antes de mergulhar de novo, vira a cauda, o que “não é muito comum”. “Já não via isto para aí há uns cinco anos”, garante Norberto. Dentro do barco, a emoção é total. Temos lágrimas nos olhos, mas deve ser do vento forte.

Continuamos parados, todos de olhos postos no mar. É preciso ver se há novos bufos, para Norberto conduzir o semi-rígido até lá. Lá está ela, e de novo vira a cauda. “Estamos mesmo em dia de sorte!” Estamos a duas milhas da costa, Norberto conta que já teve de levar o barco até às 15 para ver a baleia. Esta, que pelas nossas contas apareceu umas sete vezes enquanto estivemos no mar (menos de três horas), deve ter “uns 25, 26 metros”. “Mas, cientificamente, a baleia-azul, sendo o maior animal do mundo, pode chegar aos 30 metros”, explica Norberto.

Tínhamos pedido uma baleia, Norberto serviu-a sem dificuldade. Para a próxima, pedimos tudo a que temos direito: queremos baleia-azul, cachalote, orca e golfinho.

A baleia azul - Foto de Manuel Roberto

Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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A “doença” de Manuel Serpa e o milagre do Pico

Vinha no Pico - Foto de Manuel RobertoManuel Goulart Serpa, 76 anos, recebe-nos na sua casa de São Mateus. Entramos para a sala repleta de bibelôs, molduras com retratos, naperons pousados nas mesas e nos sofás. Não começamos exactamente por uma pergunta. “Ouvimos dizer que é das pessoas que mais sabe do Pico, que é um apaixonado pela ilha.” Manuel Serpa põe logo os pontos nos ii. “Sou doente pelo Pico, é mais isso.”

Manuel Serpa - Foto de Manuel RobertoPico - Foto de Manuel RobertoManuel Goulart Serpa foi-nos apresentado como um dos principais responsáveis pela classificação da Paisagem da Cultura da Vinha do Pico, que obteve o selo da UNESCO em 2004 –  ao todo, são 987 hectares de área classificada. “O que está a acontecer neste momento no Pico é a recuperação de um passado que foi fabuloso”, contextualiza este ex-padre, ex-professor, ex-deputado regional que agora se identifica apenas “como picaroto”. As vinhas do Pico foram introduzidas ainda no século XV, não muito depois de chegarem à ilha os seus primeiros habitantes. “Os frades acompanharam o povoamento e trouxeram com eles os bacelos. Experimentaram-nos na pedra e conseguiram que medrassem. É este o milagre do Pico.”

À medida que se plantavam as vinhas, erguiam-se os muros de pedra negra que as delimitavam e que hoje dominam a paisagem de parte da ilha. “Esta é a maior urdidura de pedra que o homem alguma vez fez”, garante Manuel Serpa. Os currais, assim se chamam estes muros, protegiam a vinha do rocio do mar e a pedra “suportava o calor”, o que era fundamental na graduação do vinho. Com o passar dos séculos, os vinhos entraram numa fase de prosperidade,  sendo grande parte da produção dedicada à exportação. Chegaram inclusive à mesa dos czares. Até que, em meados do século XIX, a filoxera e o oídio destruíram praticamente tudo. “Ficou apenas uma bolsa de resistência, na Criação Velha, de vinho morangueiro, ou de cheiro, que, apesar de não ter muita qualidade, foi alimentando esta  economia”, explica Manuel Serpa, autor do livro “Da pedra se fez vinho”.

Pico - Foto de Manuel RobertoAté que, pelos anos 1960/70, “houve quem começasse a olhar para a paisagem e a avaliar a qualidade que o Verdelho ainda mantinha”. Entrou-se, então, numa fase de “preocupação de recuperar o que no passado tinha sido uma glória”. A replantação das castas Arinto, Verdelho e Terrantez é agora subsidiada e a recuperação dos antigos currais é um trabalho que parece interminável.

Manuel Serpa sugere-nos que o acompanhemos num curto passeio à ilha, para vermos no terreno do que estamos a falar. “Estão a ver estas manchas de vegetação? Aqui por baixo são currais. Já limpámos muito, mas estão a imaginar o que ainda falta, não?”. Estamos na Ginjeira, São Mateus. Olhamos em redor e o que vemos é de facto impressionante. Os currais, “antiquíssimos e centenários”, descem até ao mar, para cima a vista alcança um mar de verde onde se escondem outros. É como se esta ilha estivesse a ser escavada arqueologicamente para lhe descobrirem mais e mais tesouros.

Pico. rilheiras - Foto de Manuel RobertoJá esta manhã tínhamos tido uma introdução à Paisagem da Cultura da Vinha no Centro de Interpretação do Lajido, ponto de passagem obrigatório para quem quer saber mais sobre o vinho da ilha. Jessica Mendes fez-nos a visita guiada pelo alambique, mostrou-nos os rola-pipas, as rilheiras que ficaram marcadas para sempre na pedra vulcânica graças à passagem dos carros de bois que transportavam o vinho. A visita é muito interessante, mas ouvir Manuel Serpa falar da sua “doença” é impagável. Sente-se-lhe a paixão pela ilha na voz, em cada palavra. E é difícil resistir à tentação de citar todas as suas frases, bem como escolher uma para terminar este texto, que já vai longo.

Depois de vasculharmos o bloco de notas, elegemos esta, que combina com a ilha e com o autor. “O Pico é uma ilha de lutadores e esta é uma luta que nunca acaba.” Palavra de picaroto convicto. Pico. vista do mar do Cachorro - Foto de Manuel Roberto

Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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O Pico foi só nosso e isso ninguém nos tira

MRDSCF2422MRDSF0580MRDSF0536MRDSF0689Tínhamos ficado nas pernas, se bem se lembram. Descemos à Fajã de Santo Cristo e já adivinhávamos o que se seguiria. Sem surpresas, portanto, na última manhã em São Jorge acordámos como se um comboio nos tivesse passado por cima. Podíamos prever o pior, mas fizemos o que se faz nos Açores ao sair da cama e a disposição mudou de imediato: corremos para a janela, ainda nem eram 7h, e tivemos a nossa primeira imagem do Pico. E uma imagem como esta não se esquece: nevado no topo, um céu rosado de nascer do sol, uma pequena nuvem apenas a ajudar a compor a moldura.

A partir daqui, o dia só podia melhorar. Apanhámos o barco no cais das Velas e deixámos  São Jorge para trás. Para a frente é o caminho e a ilha do Pico também. Dizem-nos que o mar está de feição,  mas não temos grande alma de marinheiro e tememos ceder aos solavancos. Mesmo que tenhamos vontade de procurar resguardo na cabina interior, subimos ao deck 2, que nos garante uma travessia de ar livre, com vento forte na cara para afastar enjoos.

A travessia até à Madalena, a bordo do “Gilberto Mariano”, há-de demorar 1h20. Tempo suficiente para vermos golfinhos – ninguém lhes resiste e, mesmo com as pernas em estado calamitoso, arrastamo-nos para os ver; uma americana que aqui também viaja garante que já viu baleias nesta viagem. Não tivemos essa sorte, contentamo-nos com o que temos, e o que temos não é pouco. A imponente montanha do Pico, 2351 metros a dar corpo ao ponto mais alto de Portugal, deixa-se ver sem pudores e arranja-se para caber em todas as panorâmicas,  em todas as selfies, em todos os vídeos.MRDSCF2143 MRDSF0757

Passam poucos minutos das 11h30 e a vila da Madalena veste-se de sol à nossa chegada. Do Porto ao Cella Bar, na Barca, são uns três minutos de carro. Quando chegamos, percebemos que as fotos às vezes mentem. À  força de tanta imagem magnífica que já vimos deste lugar, até estávamos preparados para menos. Mas o enquadramento natural do Cella Bar, que recebeu um prémio de arquitectura atribuído pelo Arch Daily, é mais perfeito do que imagináramos. O mar tem um daqueles azuis impossíveis, turquesa aqui, petróleo ali, e contrasta com o negro das pedras que se espalham sem regra. Temos o Faial à frente dos olhos e a dança das gaivotas faz o resto. Vamos almoçar por aqui, e a comida também não é de somenos, mas contamos tudo depois.

Agora, pés ao caminho de novo. Espera-nos uma viagem aos mistérios da Terra, que nas Grutas das Torres se fazem de lava. Não sabíamos exactamente  ao que vínhamos, e quando percebemos por onde vamos andar voltamos a achar que não saímos daqui vivos. Vamos entrar no “maior tubo lávico conhecido em Portugal”, lê-se nos painéis Informativos, e isso quer dizer descer umas quantas escadas (ai as pernas!) e pisar solo para lá de irregular. MRDSCF2265Temos capacete na cabeça e uma lanterna cada um e lá vamos seguindo as instruções de Luís, um entusiástico guia que fala de vulcões com uma paixão mais costumeira nas lides futebolísticas. Explica que o vulcão que deu origem a este tubo se chama Cabeço Bravo, revela as diferenças entre os tipos de lava (de biscoitos, de lajido e encordoada) e conta que as únicas formas de vida que aqui vamos encontrar “são musgos e bactérias”. Uma turista indiana tira-nos as palavras da boca: “Há morcegos?”. Não. Respiremos de alívio.

Ao fim de 50 minutos, temos realmente ordem para respirar. Luís pede-nos para desligarmos as lanternas e aqui ficamos, de olhos abertos no breu, a sentir “a força da natureza”. É uma experiência interessante, mas, para nós, a força da natureza sente-se mais à superfície, quando voltamos a ver o Pico à luz de final da tarde. A caminho da Casa da Montanha, base para quem se lança à subida do ponto mais alto do país, temos uma visão comovente. O senhor António pára o carro mesmo no meio da estrada, uma risca de asfalto que corta campos verdejantes, e aqui está ele, como se fosse só nosso. Tem o mesmo chapéu de neve branco, nuvens nas encostas, o sol a incidir-lhe de lado. Sentimo-nos sozinhos aqui, nós e a montanha, tendo apenas as vacas como testemunhas de um instante que merece lágrimas.

Por momentos, o Pico foi só nosso e isso já ninguém nos tira.

Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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Do Topo aos Rosais, a coleccionar paisagens

Ilha de São Jorge - Manuel RobertoAo cair do dia, na esplanada do Açor, com vista para a Igreja Matriz das Velas, consagrada a São Jorge – o padroeiro da ilha, com direito a festa rija daqui a dias, a 23 de Abril – , abrimos o bloco de notas e começamos a contar. Um, dois, três miradouros, quatro, cinco, seis fajãs, e se mais tempo houvesse mais postais haveria. Vamos a isso?

Ilha de São Jorge - Manuel RobertoIlha de São Jorge - Manuel RobertoIlha de São Jorge - Manuel RobertoManadas, Fajã dos Cubres, miradouro das Pedras Brancas, mais o Topo e o respectivo ilhéu, para onde, juram a pés juntos Elisabete Alves, a nossa guia em São Jorge, e o senhor Ramiro, que nos transporta num carro azul para dentro dos segredos desta ilha verde, levam vacas “a nado”, a reboque de um barco. Custa-nos a acreditar, mas lá ao fundo, na ilhota rodeada de rochas negras, há de facto animais a pastar. Em São Jorge, um pouco como por todo o arquipélago dos Açores, qualquer centímetro quadrado de pasto é aproveitado para alimentar o gado bovino.

Continuemos para bingo: ali em baixo está a Fajã do Ouvidor, onde há bem pouco tempo foi gravada uma cena da novela Coração d’Ouro, transmitida pela SIC. E até ao Parque Florestal das Sete Fontes é mais um esticãozinho, mas antes ainda paramos no Pico da Velha. E finalmente estamos na Ponta dos Rosais, e com tudo isto já se acabou a ilha, 56 quilómetros de comprimento e oito de largura. O farol semi-abandonado empresta ao lugar uma atmosfera fantasmagórica: em 1980 um violento sismo matou 17 jorgenses, semeou a destruição e levou à desactivação de quase tudo o que aqui havia. Os faroleiros abandonaram a Ponta dos Rosais e o farol, esse, passou a funcionar à conta de painéis solares, explica Elisabete Alves.

Ignoramos os sinais de perigo que nos aconselham a não avançar e vamos, de novo, espreitar a paisagem. O Pico para um lado, o Faial para o outro, e o senhor Ramiro ainda nos aponta a direcção do Corvo e das Flores, essas ilhas que “já estão mais perto dos Estados Unidos do que de outra coisa”.
Já voltámos a perder-lhes a conta, mas hoje a nossa vida em São Jorge foi uma maratona de vistas. Guardamos a melhor para o fim, mas ainda assim não vamos contar tudo, porque nesta nossa volta às ilhas não jogamos todas as cartas de uma vez. Chegámos à serra do Topo às 10h30 e pusemos pés ao caminho. De uma altitude de 700 metros, fomos descendo, bem devagar, até ao nível do mar, serpenteando por dentro de uma paisagem de assombro, verde mais verde não deve haver. Urze, cedros, incenseiros, louro, um melro-preto aqui, um canário da terra acolá, vento gelado cá em cima, um sol esplendoroso mais daqui a pouco.

Ilha de São Jorge - Manuel RobertoUma cancela de madeira, outra mais à frente, é preciso fechá-las por causa das vacas – e agora percebemos a piada que nos contara o senhor Ramiro, que em São Jorge as vacas têm patas mais curtas que as outras, para se empoleirarem na encosta. A caminhada custa, é preciso estar constantemente a travar, e as chuvas dos últimos dias deixaram o trilho escorregadio. Ainda assim, prosseguimos de alma cheia. E quando, às 13h, já depois de termos passado por uma cascata incrível, chegamos à Fajã de Santo Cristo e vemos o mar a rebentar contra as pedras negras, temos um momento de redenção.

As pernas tremem-nos, e sabemos que amanhã ainda vai ser pior, mas o que é que isso importa agora? E o que importa saber que caminhámos quatro quilómetros para aqui chegar e que há outros quatro para sair daqui, não pelo mesmo caminho, mas até à Fajã dos Cubres? Não há cá carros, a única forma de entrar na fajã é a pé ou então de moto quatro, pelos Cubres. Não pensamos nisso por agora, basta-nos este quadro em que a natureza explode à nossa frente – e ainda nem sequer falámos das casinhas de pedra, dos muros a delimitar pastos, do silêncio que por aqui se sente, da lagoa onde se apanha uma espécie única de amêijoas. Até o vento que uiva de novo e nos gela até aos ossos combina com este cenário.

Na semana passada, assombrado com o que via no Caldeirão e no Corvo, o Luís J. Santos perguntava se se pode amar uma ilha. E uma fajã?

Ilha de São Jorge - Manuel Roberto

Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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