Somos todos de outro lado

- Bom dia! Importa-se que lhe tire uma foto­gra­fia?
– De cer­teza que já repa­rou no que eu estou aqui a fazer…
– Claro que sim. Você é a dona da banca de rum mais bonita, deste mer­cado de Basse-Terre e…
– Então vai comprar-me uma gar­rafa de rum? Posso aconselhá-lo?
– Bem, a ver­dade é que não sou grande apre­ci­a­dor de álcool. Do que eu gos­tava mesmo era que me dei­xasse tirar-lhe o retrato. Depois envio-lho por cor­reio, pro­meto!
– Mas olhe que este rum é o melhor das Anti­lhas e até lhe faço um des­conto para estrear-me.
– Oiça, eu gos­tava de levar uma gar­rafa para ofe­re­cer a um amigo, mas já tenho a mala a reben­tar pelas cos­tu­ras. Tenha dó, é só um retrato…
– Só quero ser foto­gra­fado se for na com­pa­nhia da minha vizi­nha, que vende fru­tas na banca do lado. E tem mesmo de jurar que manda a foto para o mail do meu filho.
– Pro­me­tido. Sor­riam agora!

Cinco minu­tos depois, na fila de ban­ca­das seguinte, sou abor­dado por um ven­de­dor de incenso e mais pro­du­tos ori­en­tais, a quem nada per­gun­tei, nem mesmo se o podia fotografar.

- Diga-me por favor por­que esteve a foto­gra­far aque­las duas mulhe­res?
– Ora essa, por­que gos­tei delas.
– Para você que veio a Gua­da­lupe de férias o que inte­ressa não é foto­gra­far coi­sas típi­cas?
– Quer coisa mais típica que aque­las duas velho­tas?
– Está redon­da­mente enga­nado. Elas são emi­gran­tes do Haiti, como a maior parte dos ven­de­do­res neste mer­cado.
– Já agora que fala­mos nisso — você está a ven­der incenso e não tem pinta de quem nas­ceu nas Anti­lhas.
– Tem razão, nasci em Cal­cutá. Mas por isso mesmo sou mais genuíno. Nesta ilha fran­cesa onde quase tudo foi pro­du­zido nou­tro lado, eu pelo menos sou indi­ano e vendo pro­du­tos indianos.

Manaus a aprender a ser

A chuva tor­ren­cial não assusta os dois miú­dos que aguar­dam que o jogo arran­que no pequeno LCD. Estão debaixo de uma das deze­nas (serão cen­te­nas, milha­res?) de peque­nas bar­ra­qui­nhas de toldo ver­me­lho, os camelôs, que há uns anos – à seme­lhança de outras cida­des bra­si­lei­ras – prostraram-se nos pas­seios de Manaus, num frente a frente com as lojas de rua. “São uma praga”, descai-se o guia. Tele­mó­veis, lin­ge­rie, jogos, óculos de sol, o chin­frim do trân­sito e das vozes aguer­ri­das que anun­ciam pro­mo­ções nos res­tau­ran­tes, chei­ros de tudo e mais alguma coisa.

Parece que os dois milhões de manau­en­ses saí­ram todos em simul­tâ­neo para as mes­mas ruas. Percorrê-las é conhe­cer uma cidade que está a cres­cer e a apren­der a ser. Depois da fase de comér­cio da bor­ra­cha (sécu­los XIX e XX) e da Zona Franca de Manaus – a indús­tria é a prin­ci­pal res­pon­sá­vel pelo actual grande desen­vol­vi­mento da região -, o turismo, acredita-se, poderá dar ao estado do Ama­zo­nas ainda mais fôlego.

Pela selva, pelo Encon­tro das Águas, mas tam­bém pela Ponte sobre o Rio Negro, inau­gu­rada em Outu­bro, que hoje é a maior ponte flu­vial do Bra­sil; pela orla cos­teira da Ponta Negra que está a ser total­mente requa­li­fi­cada (vem aí a Copa do Mundo); pelo his­tó­rico fes­ti­val fol­cló­rico do Boi-Bumbá em Parin­tins que tanto mexe com as pes­soas; pela sim­bo­lo­gia do mui­ra­quitã, pelo mula­teiro e por uma pequena praça em cal­çada por­tu­guesa onde os famo­sos são os “ven­de­do­res de picolé”,  e não as estre­las inter­na­ci­o­nais que cami­nham no tapete ver­me­lho durante o Ama­zo­nas Film Festival.

Fala Dja­van, que tem nome de músico e voz que dá música. Pau­sa­da­mente, conta o que o trouxe ao Largo São Sebas­tião, onde Manaus quase parece Lis­boa. Todos os dias está ali, acom­pa­nhado pela sua bici­cleta ver­me­lha com que escapa ao trân­sito informe. Há 12 anos que vende mapas a quem passa. Um tra­ba­lho “pri­vi­le­gi­ado”, como um pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio lhe disse uma vez. Não é qual­quer um que pode pas­sar o dia sen­tado num ban­qui­nho de pedra tão bem loca­li­zado: Igreja de São Sebas­tião ao lado, o bar do por­tu­guês Armando — com o seu “boli­nho de baca­lhau por­tu­guês” — bem perto, Monu­mento à Aber­tura dos Por­tos atrás, vista sin­gu­lar para o Tea­tro Ama­zo­nas, expo­ente máximo da riqueza de Manaus durante o ciclo da bor­ra­cha. “Você ora muito?”, perguntou-lhe o tal pro­fes­sor, gabando-lhe a pro­fis­são. “Oro… oro.”

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Amanda Ribeiro viaja na Ama­zó­nia a con­vite da agên­cia Abreu

Macacos portugueses

Se os por­tu­gue­ses são bar­ra­quei­ros natos, já os fran­ce­ses são emper­ti­ga­dos e jul­gam que têm o rei na bar­riga. Mais ou menos injus­tos no quo­ti­di­ano, estes este­reó­ti­pos têm ten­dên­cia, porém, a ganhar força de lei em sítios de férias. Foi cer­ta­mente o que acon­te­ceu no epi­só­dio mais ines­que­cí­vel da minha pri­meira vez na Martinica.

Estava num grupo de dez por­tu­gue­ses, a maior parte homens, jun­tos numa via­gem de incen­tivo à ilha mais fran­cesa do Caribe. Os fran­ce­ses eram duas famí­lias, incluindo avós e uma data de cri­an­ças. O ponto em que nos cru­zá­mos foi um pequeno istmo da idí­lica Baie des Mulets, situ­ada na ponta sul da Mar­ti­nica. Total­mente coberta de man­gais e sem estra­das, essa lín­gua de terra sel­va­gem só se pode atin­gir por mar. Para o efeito é pre­ciso atra­ves­sar uma baía de águas tran­qui­las, pro­te­gida por uma longa bar­reira de corais. Nós che­gá­mos pri­meiro, numa excur­são de piro­gas de fun­dos trans­pa­ren­tes, que não cor­reu como o pre­visto e teve mais piada por causa disso.

Era suposto ser tudo muito tur­quesa e zen, mas abateu-se sobre nós um ver­da­deiro dilú­vio tro­pi­cal que afun­dou metade das piro­gas, obri­gando os ocu­pan­tes ves­ti­dos e alguns mesmo de óculos a nadar até à segu­rança do barco a motor do guia. Cada afun­danço foi cele­brado como uma festa e quando final­mente che­gá­mos à pequena con­cha de areia da Baie des Mulets já toda a comi­tiva por­tu­guesa desis­tira da com­pos­tura e mesmo da frui­ção da natu­reza. Como tan­tas vezes acon­tece em férias, sobre­tudo em gru­pos mas­cu­li­nos como o nosso, tínha­mos regre­dido até à ado­les­cên­cia e ao humor típico de um bal­neá­rio de rapazes.

De outra maneira não se explica que, quando ao largo se pro­du­ziu o barco da excur­são dos fran­ce­ses, os sau­dás­se­mos imi­tando gri­tos e ges­tos típi­cos de maca­cos numa velha fita do Tar­zan. Exa­ge­ra­mos na galhofa sobre­tudo por­que pre­su­mi­mos que eles pas­sa­riam ao largo, de forma que a brin­ca­deira foi de súbito inter­rom­pida quando o guia anun­ciou que o barco dos fran­ce­ses se pres­tava a atra­car ao lado das nos­sas pirogas.

Jul­gá­mos que iría­mos levar um ras­pa­nete, ser insul­ta­dos ou mesmo pior, mas os do barco não eram ale­mães, nór­di­cos ou algo que se pareça. Como bons fran­ce­ses limitaram-se a ignorar-nos, não nos diri­gindo uma pala­vra, ou sequer dignando-se a olhar para os “pri­ma­tas” por­tu­gue­ses. Tinha tido mais piada se tives­sem dado mais luta, pelo menos foi o que dis­se­mos quando ouvi­mos o motor do barco deles vol­tar a engatar.

Amazónia: A selva somos nós

O “povo das águas”. Assim cha­mam aos cabo­clos, habi­tan­tes ori­gi­nais da Ama­zó­nia, do rio Ama­zo­nas e res­pec­ti­vos aflu­en­tes, des­cen­den­tes de índios e de bran­cos. Percebe-se porquê.

A esta­ção das chu­vas ainda não aca­bou e a região já enfrenta, muito por causa do aque­ci­mento glo­bal, uma das pio­res cheias dos últi­mos 20 anos. Tudo indica que irá ultra­pas­sar os núme­ros his­tó­ri­cos de 2009. Manaus já decre­tou situ­a­ção de emergência.

Per­cor­re­mos o Rio Negro na canoa Pira­rucú – que, a pro­pó­sito, é o nome de um peixe típico, ape­li­dado até de baca­lhau da Ama­zó­nia.- e à super­fí­cie esprei­tam ape­nas as copas das gigan­tes­cas árvo­res. Debaixo, dez metros de água; vinte e nove nou­tras regiões da bacia hidro­grá­fica do Ama­zo­nas. As pala­fi­tas pare­cem sus­pen­sas. À esquerda, um cená­rio sur­real: uma vaca insu­lar, iso­lada nuns pou­cos metros de madeira que ainda não estão submersos.

Do outro lado do Atlân­tico, deita-se as mãos à cabeça com um cano reben­tado. Aqui não. Há que “dar um jeito”, não há outra maneira. Subir os elec­tro­do­més­ti­cos, arran­jar um novo chão, até por­que mais difí­cil é per­cor­rer qui­ló­me­tros sem água, a pé, na época das secas. Constroem-se novos pas­sa­di­ços de madeira, do pé para a mão, nem que seja todos os dias.

É assim no Ariaú, com­plexo turís­tico ide­a­li­zado por Jac­ques Cos­teau, loca­li­zado a 60 qui­ló­me­tros de Manaus, na mar­gem direita do Rio Negro. Sim, a água ame­aça a recep­ção — e depois? Em 2009, Lídia atra­ves­sava a loja de recor­da­ções de canoa. Os turis­tas pediam uma t-shirt, um porta-chaves, e lá ia ela, dando às pás, uma de cada vez, dos pos­tais para a máquina regis­ta­dora, dos cola­res para a porta. E ven­dia. Muito. “Virou fenó­meno. A Veneza do Brasil!” Caboclo só vive assim. A canoa presa à casa é um jacto. A selva é lá fora, a cidade, dizem-nos. Lá é que há soli­dão. E nós acre­di­ta­mos, mesmo quando toma­mos banho a tro­car olha­res com um sapo.

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Amanda Ribeiro viaja na Ama­zó­nia a con­vite da agên­cia Abreu

0 acidente do check-in

Che­gá­mos eram 6h da manhã ao aero­porto de Gua­da­lupe, a tempo de ver o sol a nas­cer e de apa­nhar a pri­meira liga­ção aérea do dia para a Mar­ti­nica. O “nós” refere um grupo de dez por­tu­gue­ses, todos a via­jar pela pri­meira vez pelas Anti­lhas francesas.

Resol­ve­mos fazer o check-in for­mando em fila indi­ana mas o plano foi sabo­tado por três “nati­vos” que rom­pe­ram sem ceri­mó­nias a nossa for­ma­ção. Eram duas mulhe­res e um homem, os três negros retin­tos e a ron­dar os 60 anos de idade, razo­a­vel­mente bem-parecidos e melhor conservados.

Explicamos-lhes aquilo que se per­ce­bia logo, ou seja, que esta­mos jun­tos, vie­mos todos do mesmo sítio e, já agora, gos­tá­va­mos de ficar sen­ta­dos perto uns dos outros a bordo. Isto dito houve um breve momento de silên­cio, uma pequena hesi­ta­ção que tres­pas­sou no sem­blante dos nos­sos inter­lo­cu­to­res, pron­ta­mente emen­dada pela decla­ra­ção de que eles tam­bém for­ma­vam um grupo em excur­são, de resto, com os mes­mís­si­mos direi­tos que os nos­sos. Estava, por­tanto, fora de ques­tão cede­rem a vez aos qua­tro por­tu­gue­ses que fica­ram para trás, sepa­ra­dos dos outros por causa deles.

Insis­ti­mos, ape­lá­mos ao bom senso e à hos­pi­ta­li­dade, até per­ce­ber­mos que uma das refor­ma­das apro­vei­tou a con­fu­são para des­co­lar as fitas de sepa­ra­ção da bicha e ir-se colo­car mesmo à nossa frente. Resis­ti­mos, porém, a chamar-lhe nomes, pelo menos em fran­cês. Pre­fe­ri­mos fulminá-la com olha­res de troça, enquanto a desan­cá­mos entre nós em por­tu­guês. Então a madama via­java em grupo quando estava no fim da fila e agora que pas­sou à frente de toda a gente já viaja sozinha?

Aí as coi­sas aze­da­ram mesmo com os outros dois que con­ti­nu­a­vam atrás de nós, sobre­tudo o homem que se saiu com um par de pala­vras em por­tu­guês enfer­ru­jado para nos adver­tir que seria melhor ter­mos cui­dado com a lín­gua, incluindo a nossa que ele dizia per­ce­ber. Claro que a “ame­aça” ainda nos deu mais von­tade de lhe tro­car as vol­tas e ele, já exas­pe­rado, aca­bou por gri­tar e repe­tir que visi­tan­tes assim é melhor nem saí­rem de casa e que, sobre­tudo, nem são bem-vindos à sua terra.

Fiquei a pen­sar que, se calhar, este é o grande para­doxo das Caraí­bas e de mais não sei quan­tos paraí­sos de férias actu­ais em anti­gos infer­nos colo­ni­ais, onde a maior parte da popu­la­ção é des­cen­dente de escra­vos e tra­ba­lha no turismo, even­tu­al­mente para bis­ne­tos dos anti­gos car­ras­cos. Em Gua­da­lupe e na Mar­ti­nica, tal­vez por serem fran­ce­sas, essa com­plexa e difí­cil rela­ção dei­xou de ser recal­cada. Mas está longe de estar resol­vida, como bem mos­tra o nosso aci­dente do check-in.

Lombroso, o museu mais esquisito de Turim

Em Turim, fui visi­tar o Museu de Antro­po­lo­gia Cri­mi­nal, parte de um com­plexo de museus inte­gra­dos no Ins­ti­tuto de Ana­to­mia da Uni­ver­si­dade da região de Pie­monte. O pequeno museu é mais conhe­cido pelo nome de Cesare Lom­broso, o extra­va­gante médico que na segunda metade do século XIX inven­tou a cha­mada “antro­po­lo­gia cri­mi­nal”, pre­tensa ciên­cia que par­tia do prin­cí­pio de que era pos­sí­vel iden­ti­fi­car os cri­mi­no­sos medindo o tama­nho dos res­pec­ti­vos crânios.

A guia ita­li­ana de expres­são lusó­fona que me acom­pa­nhou na visita confessou-se seri­a­mente cho­cada. Mas não tanto pelas ideias mara­das de Lom­broso — um judeu defen­sor de teo­rias racis­tas -, nem sequer pela pilha de cavei­ras des­den­ta­das que o médico empi­lhou em vida e estão agora expos­tas nas pra­te­lei­ras do museu como sapa­tos numa loja. Não, o que ver­da­dei­ra­mente a indig­nou foi em 27 anos de car­reira como guia em Turim nunca ter pos­tos os pé em tal sítio — que existe desde o tempo do seu men­tor, embora fosse moder­ni­zado e rea­berto em 2009.

Perguntou-me uma série de vezes onde é que eu tinha ouvido falar daquele lugar tão esqui­sito, qual era a minha moti­va­ção para o visi­tar e, já agora, se acre­di­tava que seme­lhante “atrac­ção” teria algum inte­resse para os lei­to­res do Público, agora que a TAP se pre­para para abrir uma liga­ção directa entre a sua cidade e Lis­boa. Fui-lhe dizendo que os museus liga­dos à his­tó­ria da medi­cina e da inves­ti­ga­ção médica estão de moda em toda a Europa, citando nome­a­da­mente o fan­tás­tico Well­come Museum, em Lon­dres. Mas a prova dos nove do fenó­meno, acres­cen­tei, estava ali mesmo em Turim, onde naquela tarde de sábado pri­ma­ve­ril se fazia bicha para com­prar entrada no Cesare Lom­broso. Aquela evi­dên­cia empí­rica não con­ven­ceu, porém, a minha guia, que me fez notar que na dita bicha só havia ita­li­a­nos, para mais todos ou quase com aspecto de inte­lec­tu­ais. Em resumo, com seme­lhante cli­en­tela, mesmo que nume­rosa, o Cesare Lom­broso nunca pode­ria ser con­si­de­rado uma morada turística.

Os turis­tas bra­si­lei­ros, acres­cen­tou ela, esque­cendo que eu sou por­tu­guês, quando lhes pro­põe a visita de algum museu em Turim — coi­sas bem mais aces­sí­veis, como o Museu Egíp­cio ou o do Cinema — fran­zem logo o sobro­lho. Para os bra­si­lei­ros, concluía-se, visi­tar museus e sítios cul­tu­rais é um com­pleto frete só com­pen­sado pelo tempo livre que as excur­sões lhes dei­xam depois para ir às com­pras.  Pode­ria ter-lhe per­gun­tado se para ela tam­bém é assim, sobre­tudo quando veste a pele do turista de visita a outra cidade. Mas acho que ia aze­dar a con­versa e, de qual­quer modo, até era capaz de adi­vi­nhar a resposta.

Pas­sei, no entanto, o resto da tarde a matu­tar naque­las ques­tões. Será que os turis­tas de excur­são pre­fe­rem sem­pre o shop­ping à cul­tura? Será que os guias nor­mais não conhe­cem as cida­des em que vivem tirando os sítios onde levam os turis­tas? E será que os lei­to­res de via­gens, incluindo os mais ins­truí­dos, gos­tam de ler (e de ir) para além dos cli­chés turísticos?

A Almirante Reis vista de Turim

Um dos mais pres­ti­gi­a­dos cen­tros de arte con­tem­po­râ­nea do Norte de Itá­lia é a Fun­da­ção San­dretto Re Rebau­dengo, em Turim. Fica num bairro resi­den­cial já um bocado afas­tado do cen­tro e disseram-me que para lá che­gar deve­ria apa­nhar o metro e depois o auto­carro 55. Foi o que fiz, mas à saída do metro não vi auto­car­ros a cir­cu­lar, nem seque per­cebi onde fica­vam as res­pec­ti­vas paragens.

Per­gun­tei pelo 55 no meu ita­li­ano espa­nho­lado a dois tipos que pas­sa­vam. Fuma­vam imenso, usa­vam rou­pas sujas e tinham um bocado pinta de esti­va­do­res, mas responderam-me num cas­te­lhano per­feito, segu­ra­mente muito melhor que o meu. Segui as ins­tru­ções que me deram, mudei para o outro lado do pas­seio e cem metros mais à frente dei com a paragem.

Auto­car­ros é que nicles, de modo que vol­tei a per­gun­tar, desta vez a uma jovem mulher que já estava à espera de trans­porte, na com­pa­nhia de uma miúda pequena — que era a cara dela. Em vez de me res­pon­der logo em ita­li­ano quis saber se eu enten­dia inglês e com uma pro­nún­cia colo­qui­al­mente nova-iorquina informou-me que o inter­valo entre os auto­car­ros naquela car­reira, a um domingo de manhã, era de doze minu­tos — o que eu mesmo pode­ria con­fir­mar con­sul­tando o res­pec­tivo horá­rio afi­xado na paragem.

Pas­sa­dos uns sete minu­tos lá embar­cá­mos no 55, eu pela porta de entrada e elas pela de saída, como tam­bém é cos­tume por estas ban­das. Fui sentar-me em frente de um velhote sim­pá­tico com quem não demo­rei a meter con­versa, mas ele só falava ita­li­ano. Depois de repe­tir três vezes e cada uma mais alto que a outra o nome da praça onde deve­ria apear-me, ele lá deci­frou o meu inglês macar­ró­nico e enten­deu para onde eu que­ria ir. Infe­liz­mente o escla­re­ci­mento chegou-lhe no pre­ciso momento em que o auto­carro arran­cou da para­gem onde eu deve­ria sair. Foi nessa altura que senti uma mão forte posar no meu ombro direito e ouvi vinda daquele lado uma voz rouca que me per­gun­tava em fran­cês se eu falava fran­cês. O meu novo inter­lo­cu­tor fran­có­fono explicou-me depois como impro­vi­sar um ata­lho para atin­gir o meu des­tino, a par­tir da para­gem seguinte.

Tratou-me por tu, assim sem mais nem menos, logo não deve­ria ser fran­cês. Na ver­dade era mar­ro­quino, de uma aldeia a uns 20 qui­ló­me­tros de Casa­blanca. Não pude saber mais, por­que o 55 vol­tou a parar e desta vez eu saí dis­pa­rado. A Fun­da­ção San­dretto Re Rebau­dengo exi­bia “Press Play”, uma expo­si­ção sobre a arte e as estra­té­gias de comu­ni­ca­ção na idade da glo­ba­li­za­ção. Era por certo muito inte­res­sante, mas eu estava dema­si­ado dis­traído para pres­tar jus­tiça às obras expos­tas, depois da minha odis­seia no 55. Para quê ver num museu apro­xi­ma­ções artís­ti­cas a um tema cem vezes melhor retra­tado “ao vivo” num auto­carro urbano? Tam­bém fiquei a pen­sar que Turim deve ser uma das cida­des mais mul­ti­cul­tu­rais de Itália.

À noite rela­tei a expe­ri­ên­cia a um amigo com quem jan­tei na cidade que, quando aca­bei, se limi­tou a enco­lher os ombros e a per­gun­tar: “Mas quem esta­vas à espera de encon­trar num trans­porte público, numa cidade  ita­li­ana, a meio de um Domingo? Ita­li­a­nos só mesmo se forem os refor­ma­dos…” Pois, pro­va­vel­mente, a demo­gra­fia da car­reira 55 de Turim não deve ser muito dife­rente da dos auto­car­ros que cir­cu­lam pela Almi­rante Reis, sobre­tudo fora das horas de ponta. Mas, lá está, já nem lem­bro da última vez que apa­nhei um auto­carro, em Lis­boa, muito menos a um Domingo.

Sonhar um Lago Maior

Eu tinha de novo 20 anos de idade e o meu amigo deve­ria ser pouco mais velho, tal­vez uns 25. Ele estava há horas a debater-se com um bru­ta­mon­tes qual­quer e, por essa altura, a levar um arse­nal de por­rada. Eu, que até ao momento era o único espec­ta­dor na pla­teia, resolvi final­mente meter-me ao baru­lho. Sal­tei para o volante da pick-up e apontei-a às per­nas da besta, obrigando-a a uma queda apa­ra­tosa. Tenho a impres­são que repeti a mano­bra até passá-la a ferro por com­pleto, mas não tenho bem a cer­teza, por­que entre­tanto acor­dei bruscamente.

Já era de dia ou quase, decidi levantar-me e cor­rer as cor­ti­nas da janela do quarto, onde entrara já de noite. O hotel era o Splen­did, em Baveno, à beira do Lago Maior do Pie­monte italiano.

O meu quarto era no quinto andar e o que eu podia ver da janela era abso­lu­ta­mente des­lum­brante: as águas plá­ci­das e pro­fun­das do enorme lago, balan­çando entre mon­ta­nhas monu­men­tais, ren­di­lha­das de casi­nhas à beira da água e cober­tas de um manto de neve no topo, tudo envol­vido numa névoa silen­ci­osa e transcendente. Uma pai­sa­gem sen­sa­ci­o­nal, um qua­dro de uma beleza pro­di­gi­osa – a mais com­pleta antí­tese do sonho beli­coso, que tirara de uma fita barata do meu subconsciente.

Foi jus­ta­mente esse con­traste radi­cal que me espan­tou e me dei­xou a sonhar outra vez, mas desta vez acor­dado. Dei comigo a pen­sar: para a pró­xima, se qui­ser mesmo pas­sar uma noite des­can­sada, não será melhor hospedar-me num des­ses hotéis de pare­des de papel e toques de des­per­tar com berbequins?

Memórias dos R.E.M. na Riviera Francesa

A pri­meira vez que estive em Saint-Paul de Vence foi no Outono de 1994. Tinha aca­bado de sair “Mons­ter”, o nono álbum dos R.E.M., e eles deci­di­ram convidar-me a mim e a outro jor­na­lista por­tu­guês para ir lá entrevista-los. Foi um dos encon­tros mais intri­gan­tes que alguma vez me mar­ca­ram: Saint-Paul de Vence é uma pequena aldeia amu­ra­lhada nas altu­ras da Pro­vence, um ninho de águias a 15 minu­tos de carro de Anti­bes, Nice e da frente de mar da Rivi­era fran­cesa. Em resumo, um sítio com­ple­ta­mente des­ti­tuído de cono­ta­ções rock ‘n’ roll.

Con­fesso que nunca tinha ouvido falar e até lá che­gar tam­bém não quis saber — estava total­mente con­cen­trado em entre­vis­tar uma das mai­o­res ban­das do pla­neta, pelo menos naquela altura. A con­versa decor­reu num hotel-restaurante cha­mado La Colombe D’Or, que de ime­di­ato me des­lum­brou pela extra­or­di­ná­ria mis­tura de arqui­tec­tura medi­e­val e obras de arte moder­nas. Depois de me des­pe­dir da banda tam­bém apro­vei­tei para uma volta pela aldeia e fiquei mara­vi­lhado com as pito­res­cas rue­las empe­dra­das, as vis­tas mag­ní­fi­cas sobre o Medi­ter­râ­neo, os Alpes neva­dos nas suas costas.

A con­sulta de um guia fez-me com­pre­en­der a esco­lha, apa­ren­te­mente insó­lita de Michael Stipe e com­pa­nhia: La Colombe D’Or é um lugar mítico da Côte D’Azur, que foi fre­quen­tado por alguns dos prin­ci­pais escri­to­res e artis­tas plás­ti­cos do século XX, incluindo Bra­que, Léger, Picasso, Sou­tine e Pré­vert, que aqui dei­xa­ram um vali­oso acervo a título de paga­mento de des­pe­sas. Os pró­prios R.E.M. vinham dos dois álbuns de maior sucesso da sua car­reira, dinheiro para pro­mo­ção não lhes fal­tava e “Mons­ter” que­ria (desde o título) ser um álbum dife­rente. Um disco de gui­tar­ras dis­tor­ci­das, mais, muito mais rude e difí­cil que os doces pop que antes os pro­mo­ve­ram à ribalta internacional.

A liga­ção à Colombe D’Or e às van­guar­das artís­ti­cas que cele­bri­za­ram St. Paul fazia então algum sen­tido, ou mesmo todo o sen­tido para os R.E.M. de 1994. Para mim foi a opor­tu­ni­dade de conhe­cer um sítio encan­ta­dor, ao qual logo pro­meti, mas só agora con­se­gui vol­tar. Com outro vagar pude apre­ciar a aldeia, que na ver­dade se resume a duas ruas: uma em que habi­tam os cerca de 400 habi­tan­tes, na maior parte estran­gei­ros e ido­sos, e a outra repleta de gale­rias de arte, na maior parte pro­du­zida a milha­res de qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Ainda se come bem na Colombe D’Or, mas na terra já só há turis­tas e gale­rias de arte even­tu­al­mente pro­du­zida no sítio de onde eles mais vêm.

Quando os R.E.M. lan­ça­ram “Mons­ter”, St. Paul já deve­ria cami­nhar para isto, para se tor­nar um sítio a viver exclu­si­va­mente ou quase das memó­rias do seu apo­geu inte­lec­tual e artís­tico. Tam­bém é ver­dade que o álbum de 1994, ape­sar de con­ter um par de exce­len­tes can­ções (aliás, das que mais gosto), não par­ti­lha da magia pop dos seus mai­o­res êxitos, nem da ener­gia cri­a­tiva dos seus iní­cios. O mesmo que, se calhar, se pode dizer do Bra­que, do Picasso ou do Léger que em ida­des já avan­ça­das se vie­ram “res­tau­rar” e semear obras de arte pelos salões da Colombe D’Or.

Bons sabores e boas vistas no Anfiteatro das Portas do Mar

Há quem diga que a ilha dos Aço­res onde se come melhor é a Ter­ceira. Pode ser que assim seja, mas seria tre­men­da­mente injusto não acres­cen­tar que há em S. Miguel exce­len­tes res­tau­ran­tes onde se pode ir vezes sem conta e encon­trar sem­pre a mesma qua­li­dade de serviço.

Outros, por seu lado, impres­si­o­nam muito bem logo na pri­meira visita. Foi o caso do res­tau­rante Anfi­te­a­tro, uma agra­dá­vel pri­meira expe­ri­ên­cia em Ponta Del­gada. Encontrá-lo foi quase obra do acaso, pois não está sina­li­zado e tem uma loca­li­za­ção dis­creta, nas Por­tas do Mar, mesmo ao lado da marina.

Além de ser muito sóbrio, espa­çoso e sos­se­gado, tem exce­lente luz e uma rela­xante vista sobre o porto e o cen­tro da cidade. Dis­põe de dois pisos; o infe­rior, onde almo­çá­mos, pro­põe refei­ções mais sim­ples e rápi­das, bem con­fec­ci­o­na­das e a preço acessível.

Falta acres­cen­tar que é um pro­jecto da Escola de For­ma­ção Turís­tica e Hote­leira e serve os objec­ti­vos prá­ti­cos de for­mar pro­fis­si­o­nais do ramo. Longa vida ao res­tau­rante Anfiteatro!