A grande noite de Mitt Romney

O candidato republicano Mitt Romney teve ontem uma grande noite. No palco da universidade de Denver, no primeiro debate televisivo entre os dois concorrentes à Casa Branca, o antigo governador do Massachusetts provou o seu génio e mestria na arte da reinvenção política, pondo fim a três semanas horribilis da sua campanha com uma performance aguerrida, contundente e segura que se traduziu numa vitória categórica sobre o seu adversário.

Hoje os fact-checkers andam ocupados a desmistificar as declarações do candidato republicano, e os comentadores entretidos a especular sobre o que é que se passou com Obama, mas nada disso são más notícias para a campanha de Romney. O seu objectivo para o primeiro debate foi cumprido e ultrapassado, com Romney a conseguir travar a decadência da sua candidatura como a insuflar um segundo fôlego à sua campanha para o último e decisivo mês de batalha política. Pode ou não ter sido o suficiente — as sondagens dos próximos dias dirão até que ponto o ex-gestor de investimentos de risco vai poder capitalizar com a sua prestação em Denver.

Os primeiros números só podem encher de entusiasmo e esperança a sua campanha: as sondagens pós debate, na CNN e na CBS, colocam-no como o claro vencedor da disputa, com uma vantagem porventura inimaginável sobre o seu adversário Barack Obama. Mitt Romney compreende os princípios e executa na perfeição as técnicas do formato do debate televisivo. O republicano sabe que o fundamental não é o conteúdo do seu discurso; o que importa é a imagem que se projecta e a comunicação emotiva, perceptiva, que se estabelece com a audiência. É verdade que os telespectadores não retiraram do debate de ontem nenhuma declaração memorável de Mitt Romney (e muito menos de Barack Obama), mas durante aqueles 90 minutos perceberam que ele era o homem mais seguro, mais enérgico, mais convincente no palco.

Ao contrário do que as pessoas imaginam, o Presidente Barack Obama não é, nem nunca foi, bom a debater. Em 2007 e no início de 2008, quando travava a luta pela nomeação democrata à Casa Branca, Obama nunca sobressaiu nos debates contra Hillary Clinton. Na campanha de 2008, nunca “arrasou” com John McCain nos seus duelos televisivos. O modelo do debate é profundamente castigador para as características pessoais de Obama, que na essência é um académico, com uma irresistível tendência para se estender na cuidada análise de vários pontos de vista e na construção de sofisticados enunciados ideológicos. Viu-se ontem, por exemplo quando o Presidente se perdeu a debitar raciocínios repletos de factos em vez de tiradas políticas; quando apresentou todos os aspectos de uma determinada questão em vez de se cingir ao contra-ataque das posições do seu adversário.

E oportunidades não lhe faltaram — Romney deixou inúmeras pontas penduradas e abriu o flanco a golpes e críticas que ostensivamente Obama se coibiu de explorar. A estratégia delineada pela campanha democrata foi, na minha opinião, complacente: imagino que os seus conselheiros pensaram que ao jogar pelo seguro, arrefecer o debate, manter a pose e a postura de um Presidente (e não correr o risco de parecer um angry black man, o pavor da sua campanha em 2008), inundar o público com factos e palavras sensatas, o Presidente asseguraria os eleitores que não correm riscos com a sua reeleição. Claro que a campanha de Obama sabe que não se ganha um debate televisivo na substância, mas mesmo assim foi esse o caminho que escolheu seguir: Obama foi mais substantivo, mas essa foi uma das razões porque ficou para trás na dança. Penso que o tiro saiu pela culatra, com Obama a parecer demasiado cerebral, complicando respostas simples, aborrecendo a audiência com detalhes, perdendo em paixão, energia e empatia para o seu rival republicano.

A mensagem continua a ser o principal problema de Mitt Romney, mas esse foi um problema que ontem magistralmente iludiu, renegando e desmentindo muitas das políticas e propostas que vem defendendo na campanha e que constam da sua plataforma eleitoral — repetidamente, na questão fiscal, no Medicare, na regulação, na energia, Romney garantiu que não fará nada daquilo que até agora tinha prometido fazer… A campanha assumiu o risco (seguramente calculado) de vir a ser confrontada com novas piruetas e reviravoltas nos próximos tempos, apostando que a surpresa da nova postura de Romney — agora e para sempre o candidato Etch-A-Sketch — como um candidato razoável e moderado permitirá ao republicano arrecadar o voto dos indecisos.

Para o gáudio geral, o debate de ontem abriu uma nova fase na campanha. Muito em breve perceberemos se a jogada de mestre de Mitt Romney foi um bluff ou um cheque mate, e se a desastrada performance de Barack Obama foi um percalço ou uma catástrofe.

Rita Siza

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