A noite de Mitt Romney

A imprensa americana decretou que o discurso do candidato presidencial republicano, Mitt Romney, no encerramento da convenção do seu partido, era o discurso mais importante da sua vida, e no final, depois dos confettis e balões, concordaram que o ex-governador e ex-CEO esteve à altura do desafio. Não foi brilhante, admitiram, mas não tinha que ser. Foi, resumiu a The Economist, “prosa e não poesia”.

Romney não é um orador eloquente, mas é eficiente — e ontem à noite, em Tampa, foi bastante mais do que isso. Aqueles que comparam o candidato republicano a um robot não podem mais usar esse argumento: perceberam como Mitt Romney também é capaz de demonstrar em público as suas emoções, como ele é grato à sua família, dedicado à sua fé, comprometido com o seu trabalho, disponível e generoso para os seus amigos.

Quebrando dois dos tabus da sua campanha até agora, Mitt Romney levantou um pouco do véu sobre o seu Mormonismo — uma série de oradores que conviveram com ele no âmbito da sua prática religiosa foram ao palco prestar os seus testemunhos, naquele que porventura se tornou o momento mais genuíno e comovente da noite — e também sobre a sua actividade na sociedade de capital de risco Bain Capital.

O discurso foi cuidadosamente escrito e portanto esses foram riscos calculados. Mitt Romney continua a projectar, essencialmente, a aura de um CEO — em tempos de populismo e crise económica, como os que se vivem nos Estados Unidos, não é uma figura grata para os eleitores.

O discurso (aqui) não ficará para a história como uma das grandes peças de oratória da política americana; não foi memorável, surpreendente, arrebatador, mas foi sem dúvida inteligente. Foi, ostensivamente parco em detalhes, “light” como diriam os americanos em substância. Para além do plano em cinco pontos para “dar a volta” à  América e criar 12 milhões de postos de trabalho que Romney apresenta como o seu caderno de encargos (para já são ainda só cinco slogans que a campanha se tem recusado a aprofundar com propostas concretas), e da obrigatória mas vaga menção de todos os tópicos da plataforma republicana, da educação à defesa e à produção petrolífera, não se vislumbrou uma prioridade legislativa óbvia na numa futura Administração Romney, excepto a imediata destruição do Obamacare logo no primeiro dia. O modelo pelo qual seria eventualmente substituído continua a ser um mistério.

Em 2008 em Denver, Barack Obama prometeu pôr fim à guerra do Iraque (sim) e fechar o campo militar de Guantánamo (não); enumerou como a sua prioridade salvar o país da recessão e como o seu grande objectivo aprovar uma lei que garantisse um sistema universal de saúde nos Estados Unidos. A única mensagem de Romney em 2012, explícita e nas entrelinhas, foi mais ou menos a seguinte: nós representamos o contrário de Obama, nós defendemos exactamente o oposto de Obama, é preciso desfazer tudo o que Obama fez, e é isso que eu prometo. Esta é a mudança que Romney apregoa — a candidatura republicana define-se pelo inverso da plataforma política democrata.

A intervenção de Mitt Romney foi em partes iguais biográfica e ideológica. O candidato republicano não escondeu os aspectos da sua personalidade e da sua actividade que suscitam dúvidas ou reservas aos eleitores. Como notaram os comentadores, fez tudo o que podia (e devia) ser feito para mostrar quem é e porque é assim, quais são as suas convicções e porque as defende. Numa entrevista pouco antes de subir ao palco, Romney reproduziu refrão do Popeye quando lhe pediram para se definir: “Eu sou o que eu sou e isso é tudo o que eu sou”.

Só faltou dizer ou mostrar o que se propõe fazer se chegar à Casa Branca. Sobre os grandes desafios do país, apontaram os analistas, só se ouviram banalidades. Nada de específico sobre a criação de emprego, nada de concreto sobre o défice e a fiscalidade, nenhuma substância na política externa. Romney nem sequer mencionou o facto de haver mais de 70 mil soldados americanos envolvidos numa guerra de mais de dez anos no Afeganistão.

“Se 90% do sucesso consiste em aparecer, então podemos dar 90% à prestação de Romney”, concluiu Jacob Weisberg. Perante um  mar de cartazes que pediam às pessoas para “acreditar”, o candidato republicano pediu aos americanos para ser eleito presidente. Ao contrário de Obama, disse ele, sem palavras bonitas, sem promessas impossíveis. Apenas por uma questão de fé.

Rita Siza

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