A verdade dos factos

Aparentemente, a candidatura republicana decidiu prescindir da sua anterior indignação com as “distorções” e os “vitupérios” imputados à campanha do seu adversário democrata e embarcar por um caminho (que tudo indica será sem volta) em que a verdade dos factos passou de incómoda a irrelevante e portanto tornou-se supérflua no contexto dos discursos oficiais, dos anúncios televisivos, das declarações políticas.

Esta nova estratégia está a ser consumada na Convenção de Tampa desde o primeiro momento.

Ainda antes do arranque dos trabalhos, um dos assessores da campanha republicana, o guru das sondagens Neil Newhouse, admitiu candidamente que os factos não iriam ditar a mensagem da campanha. Num painel promovido antes do início do programa em Tampa, um outro responsável da campanha, Ron Kaufman, envolveu-se numa discussão com vários jornalistas que o pressionavam por causa das mentiras veiculadas nos últimos anúncios lançados pela campanha. Quando confrontado com o facto de o mais recente anúncio televisivo ser baseado em alegações inteiramente falsas, o porta-voz de Romney disse que a campanha não seria importunada a fazer correcções ou a mudar de rumo — o anúncio em causa, explicou, está a ser o mais bem sucedido da campanha até agora.

A tendência manteve-se no palco da Convenção, onde a sucessão de discursos de ataque a Obama, com acusações cujo contacto com a realidade é mínimo ou até inexistente, tem merecido sérias críticas da imprensa americana. Em editorial, o New York Times expôs as falsidades difundidas no primeiro dia de trabalhos.

E nem são só os dirigentes políticos os culpados deste “pecado”. Segundo o Huffington Post, um empresário convocado para testemunhar sobre o fracasso do plano económico de Obama (no caso, de como os empresários não beneficiaram das verbas do pacote de estímulo económico lançado pelo Presidente pouco tempo depois de tomar posse) também terá preferido “esquecer” os factos objectivos e apresentar uma versão embelezada da sua história pessoal — convenientemente, o seu discurso iludiu os contratos federais de 340 mil dólares assinados pela sua empresa com a Administração Obama em 2010, precisamente na sequência do pacote de estímulo.

Como escreveu o analista Kevin Drum a propósito das mentiras da equipa de Romney

“No passado, as campanhas costumavam pelo menos mostrar-se embaraçadas com este tipo de coisas. Tentavam atirar a culpa para alguém que não eles. Tentavam arranjar alguma justificação estapafúrdia em sua defesa. Apareceriam com um documento ou relatório para dar cobertura aos seus argumentos. Ou seja, fariam alguma coisa. Mas a campanha de Romney simplesmente não se importa nem quer saber. Se funciona, eles vão continuar a fazer o mesmo.”

A confirmação definitiva de que essa é, de facto, a estratégia a seguir até Novembro, chegou ontem, com o discurso do candidato à vice-presidência, o popular congressista do Wisconsin e proclamado falcão fiscal, Paul Ryan.

A sua intervenção foi o mais cerrado ataque às políticas de Barack Obama até ao momento — um rotundo sucesso, que deixou os delegados em delírio. Fiel à sua obsessão com o défice, Paul Ryan acusou o Presidente de dirigir o país para a bancarrota, prometendo aplicar cortes drásticos e profundos para equilibrar o orçamento federal e diminuir o tamanho do Governo à sua mínima expressão. Como outros oradores, o congressista responsabilizou Obama pela persistência do desemprego na América, garantindo que a aplicação do programa republicano permitirá criar 12 milhões de postos de trabalho nos próximos quatro anos. E claro que o candidato invectivou contra a reforma do funcionamento do sistema de saúde assinada pelo Presidente: foi a oposição ao Obamacare que ressuscitou e trouxe para a ribalta política o movimento do Tea Party e permitiu aos republicanos reconquistar a maioria na Câmara de Representantes em 2010.

As reacções ao seu discurso foram as esperadas, com os comentadores conservadores a elogiar a sua prestação como magnífica (a evocação da liberdade e a comparação com Ronald Reagan são a marca do sucesso) e os comentadores liberais a abanarem a cabeça com a sua alegada desonestidade intelectual.

Mas depois vieram as análises de conteúdo — e em concreto, das “inverdades” ou mentiras proclamadas por Paul Ryan (a Associated Press chamou-lhes “atalhos factuais”). O director do National Journal, Ron Fournier, notava que o candidato tinha marcado pontos pelo seu estilo — “elegante e encantador, enérgico e solene, condenou Barack Obama usando um sorriso e um bisturi” — mas depois tinha deitado tudo a perder, enunciando factos errados e falsidades que, na sua opinião, era impossível que Ryan não conhecesse. “Ao ignorar a verdade dos factos, Ryan perde a autoridade moral naquele que é, ainda por cima, o seu tema predilecto”, considerou.

A denúncia das mentiras do discurso de Paul Ryan (aqui com anotações) prosseguiu noite dentro — um top 5 das mais graves aqui, uma outra lista aqui, uma censura aqui ou outra aqui e ainda aqui e uma distinção das verdades, falsidades e enganos aqui. Claro que nada disto importará, nem à campanha nem às bases republicanas que bebem as palavras de Ryan como verdades absolutas e incontestáveis. O potencial problema para os republicanos é que esta estratégia condena as suas esperanças de conquista dos independentes ou do que resta do eleitorado que ainda está indeciso quanto ao melhor candidato.

Rita Siza

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