Declaração de amor

 

 A primeira noite da Convenção republicana de Tampa foi a noite em que a América ouviu a declaração de amor — “um amor profundo e duradouro” — de Ann Romney pelo seu marido Mitt, ontem oficialmente convertido no candidato do partido à presidência dos Estados Unidos.

O discurso de Ann Romney era uma pelça fundamental na narrativa da candidatura republicana. Era à mulher do candidato que competia a tarefa de mostrar o “lado humano” de Mitt Romney, que o público ainda diz desconhecer (apesar de Romney s eencontrar há mais de seis anos em campanha eleitoral). O seu discurso soou genuíno, carinhoso, sentido, divertido, emotivo — um sucesso que fez os milhares de delegados experimentar o riso e as lágrimas, e render-se às palavras de Ann Romney. A prestação de Ann foi tão extraordinária que mesmo o insuspeito The New York Times se comoveu, decretando que o seu discurso foi tão bem recebido que representava um novo desafio para os estrategas de Romney: evitar que a popularidade de Ann volte a chamar a atenção para a frieza do marido.

Ann ignorou por completo a natureza política do evento: afinal, não era a ela que cabia a missão de animar as bases com , mas antes ao governador do estado da Nova Jérsia Chris Christie, uma das grandes promessas do partido. Na coreografia das convenções, o chamado keynote speech é uma das peças fundamentais, destinada não só a definir o tom geral do evento e apresentar o roadmap (roteiro) para o partido, como também a projectar o seu actor como um porta-voz avalizado que é ainda uma lufada de ar fresco, uma prova da renovação intelectual e geracional (basta lembrar que em 2004, quando os democratas nomearam John Kerry, a honra foi entregue a um pouco conhecido Barack Obama que do dia para a noite se converteu numa das maiores sensações da política americana).

Mas ao contrário de Ann, que suplantou todas as expectativas na promoção do seu marido, Christie ocupou mais de metade do seu discurso a falar de si próprio e das suas ideias do que daquelas que movem o candidato republicano à Casa Branca. Foi um desfecho inesperado, e que deixou a assistência com um sabor amargo na boca — depois da apaixonada declaração de amor de Ann Romney, ninguém esperava ouvir que o partido deve escolher o respeito em detrimento do amor. Em termos substantivos, Christie recorreu à sua experiência de governador para fazer a defesa do conservadorismo fiscal (embora haja dúvidas sobre o real “equilíbrio” dos orçamentos do seu estado) e de outras posições políticas impopulares. Mas foi o seu discurso que foi impopular — as reacções às suas palavras variavam da surpresa à incredulidade, e genericamente foram pouco positivas.

De resto, a primeira noite de Convenção serviu também para a aprovação da plataforma eleitoral do Partido Republicano, “Nós Acreditamos na América 2012”, e alguns inusitados confrontos entre delegados e os media.

Rita Siza

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